Com 18 mil pessoas – números da organização -, o Super Bock Super Rock teve ontem a sua primeira noite a todo o gás. Na ressaca do primeiro dia de festival, uma coisa salta à vista: a segurança está em todo o lado, sem dar o braço a torcer, tornando a estadia dos festivaleiros muito mais segura. A comitiva do Espalha-Factos até foi revistada a pente fino numa operação de busca de estupefacientes, e à chegada ao festival mais uma outra vistoria. De uma coisa serviu, a mala ficou arrumada, mas será que vai ser assim em todos os festivais de verão?

A alguém tinha que ser atribuída a tarefa de inaugurar o palco principal. Uma vez que estamos em Portugal, a música portuguesa é sempre um bom mote. Salto! e Capitão Fausto, bandas em plena ascensão, conseguiram nota positiva na função de entreter os festivaleiros que se aglomeravam à espera de gigantes como Bloc Party e Incubus.

Salto na abertura do palco principal | Manuel de Almeida/Lusa

Salto na abertura do palco principal | Manuel de Almeida/Lusa

Pouco antes de assistir aos concertos mais esperados, recomendava-se a passagem pelo palco EDP; nesse momento os Alabama Shakes, desdobrando-se em diferentes ritmos, operavam uma boa música ambiente para todos os que estavam em frente do palco. Fazendo, por vezes, lembrar um rockabilly tardio, o grupo norte-americano conseguiu trespassar movimento e muito groove. Britanny Howard, depois de conseguir aquecer corações, preencheu o palco com a sua voz magoada. Pairou uma música de introspecção, com um nada de garra pelo meio, que com “aquela” elegância prendeu o público que tanto a compreendeu como se agarrou a ela.

Cada vez mais nos encaminhávamos para a tão esperada actuação dos Bloc Party. Apesar da concentração do público em torno do palco principal, as vozes diziam sempre o mesmo: «que vazio» ou «isto comparado com o ano passado não é nada» tornavam-se lugares-comuns. Velhos do Restelo? Pode ser que sim, mas não os podemos vetar a uma simples discordância. É claro que uma das grandes faltas deste ano é o público, que ficou envergonhado e não tem aparecido.

Britânicos com pontualidade portuguesa? Sim, os Bloc Party entraram em palco com grande pompa e circunstância, com Kele Okereke sempre no mais afiado gume da adaga. A sua voz surge, finalmente, aquecendo o concerto com as duas primeiras músicas. Um desenrascado «obrigado» dá as boas vindas.

Os Bloc Party foram conquistando a plateia, ora com temas mais conhecidos ora com temas mais recentes. Banquet chegou mesmo a tempo, logo quando todos começavam a pedir por algo mais do que o registo normal dos britânicos. One More Chance chamou, desde logo, toda a atenção do público, que foi cantando assim que interpelado para tal. Dotados de uma pujança característica, os Bloc Party foram fazendo jus à sua fama, entretendo fãs e festivaleiros. Perto do final até chegaram a repetir a proeza do cover de We Found LoveRihanna e Calvin Harris, para numa única composição acabar com Flux. Segue-se Truth e o grito «c’mon you fuckers» soltou o descontrolo. Sempre comunicativos, pediram por abraços antes de This Modern Love. O concerto terminou com Helicopter, previsível, claro, mas ainda assim impressionante.

Bloc Party | Manuel Almeida/Lusa

Kele Okereke, dos Bloc Party | Manuel Almeida/Lusa

Em Incubus o ambiente assumia-se idílico: guitarras distorcidas e lua cheia. Mas levantava uma incerteza em especial: sabida a dimensão da banda californiana, teríamos de esperar para ver se conseguiriam atrair assim tanta gente. O campismo fazia prever que não e no concerto não subsistiram quaisquer dúvidas. Contudo, seguindo a máxima de que “quantidade nem sempre significa qualidade“, Brandon Boyd conseguiu fazer o público encher os pulmões e cantar em coro em algumas músicas.

Uma passagem pela tenda electrónica teve os seus frutos. Uma hora depois da meia-noite era Flying Lotus quem regia o palco. Uma electrónica envolvente para os transeuntes que abdicavam de Incubus ou Battles. Com um dubstep multifacetado, que nada fica atrás do que se passou neste mesmo palco na noite anterior, o artista norte-americano atingiu o apogeu quando passou Niggas In ParisKanye West e Jay-Z. Magnetic Man não ficou nada atrás e o trio de electrónica foi na tendência de não passar um puro e duro dubstep. Auxiliados por um MC, fonte de enormes contribuições, o grupo que se encontrou pela primeira vez em Inglaterra conseguiu embalar todos os espectadores para o resto da noite.

A hora já não agradava, mas ainda assim faltava Hot Chip para encerrar o palco principal. O cansaço demovia grande parte da audiência, e a falta de energia por parte do grupo londrino só contribuiu para aumentar o distanciamento entre a actuação e os festivaleiros. Um nome tão grande com um horário tão tardio nem sempre resulta da melhor maneira, e num festival com uma afluência algo limitada é ainda pior.

Neste segundo dia o prato principal é a estreia em Portugal de Lana Del Rey e M.I.A. a fechar o palco Super Bock. No palco secundário vamos poder contar com a dinamarquesa Oh Land e os britânicos The Horrors, sendo que destes se espera mais do que o que apresentaram na edição de 2009 de Paredes de Coura.

Artigo redigido ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945, por André Abreu, Diogo Machado Ferreira e Francisco Morgado Gomes