João Lourenço volta à Sala Vermelha do Teatro Aberto com uma peça de teatro autêntica, intensa e intimista. Londres é uma mistura de géneros teatrais e de sensações, ao longo de pouco mais de uma hora, num monólogo bem construído e, acima de tudo, muito bem encenado.

O texto autobiográfico de Cláudia Clemente retrata o drama de uma mulher que procura em Londres uma esperança para a cura do cancro do pai, “agora frágil como um filho”, um “novo pai”. Numa reflexão acerca da viagem a Inglaterra, dos tratamentos do pai, de memórias antigas do avô ou da mãe, a protagonista deambula por um escritório, que é também um arquivo – não necessariamente físico, mas intelectual – de memórias e desabafos de uma vida.

Londres é, na verdade, o título perfeito para o monólogo, dado que todo ele se centra no significado que a viagem tem para ela e para os pais: a busca de um “way out”. Encontram uma Londres fria, de doenças e hospitais, um hotel modesto… “Estava tudo ao contrário nas nossas vidas. Porque não as ruas?”, diz a protagonista. Uma viagem com um propósito totalmente diferente da que queriam fazer, juntos, a Londres, ainda que marcada por alguns bons momentos de (ilusão de) felicidade.

O guião serve de base para uma encenação maravilhosa. O momento introdutório em que a atriz anda pelo palco a preparar o seu próprio espaço, enquanto as pessoas se sentam nos seus lugares, é ao mesmo tempo intimidante e subtil, com uma naturalidade impressionante. Do início ao fim, o trabalho de construção de João Lourenço denota-se na atenção aos pormenores, na simplicidade do cenário, na inteligência na utilização das câmaras. Até mesmo na divisão da peça em ‘capítulos’, organizando a narrativa.

Todo aquele espaço é uma construção mental da própria personagem. Escreve “cancro” na areia, faz chá de funcho em palco, sobe à cadeira para evocar momentos determinantes na sua vida, imita a mãe, o pai e a irmã em diálogos que recorda. Controla a peça através de um computador, uma mesa de mistura e as câmaras espalhadas pelo cenário: só ela, no seu mundo, a procurar compreender a sua própria história.

Escrever para entender”, como dizia. Daí que a autora tenha escrito a peça em verso, numa verdadeira reflexão sobre a sua vida. Diz a certa altura que não se trata de um desabafo, de um pedido de desculpas, mas sim de uma “declaração de amor”, ao pai, à mãe, à família no geral. É também uma confissão de tudo o que é e do que poderia ter sido, do futuro promissor que tinha e que, aos olhos dos pais, acredita ter desperdiçado. “Porque é que não arranjaste um marido assim?”, pergunta a mãe. “Porque é que não arranjei um marido assim?”.

É nos momentos em que mais desabafa sobre a sua vida, algo frustrada, que o espectador mais se identifica com a personagem, e não tanto ao longo de toda a peça, ao tentar estabelecer uma ligação entre ele e a doença do pai, uma realidade que nem todos conhecem. É talvez aí que o guião mais falha, na sua transmissão de sensações para o público, mas é também neste ponto que a encenação mais ganha por conseguir concretizar, o melhor que pode, esta identificação. Fá-lo através das imagens projetadas, que não são mais que sonhos ou recordações – um complemento que enriquece o texto –, até mesmo da banda sonora, com duas canções entoadas pela protagonista, numa atmosfera muito pessoal.

Nada disto faria sentido sem uma grande interpretação por parte de Carla Maciel, que incorpora de tal forma a mulher retratada, a própria autora, que não lhe é difícil emocionar-se em palco. Toda a expressão facial e corporal, articulada com a maestria com que se movimenta no espaço e o toma como seu, é o que mais fascina quem está a ver. Não é fácil viver uma personagem real, que se expõe totalmente num texto auto reflexivo, e a verdade é que a atriz consegue transmitir o que sente de forma muito autêntica e poderosa, tornando-se ela própria a encenadora da sua vida em palco.

Eu só acredito no acaso”, diz a mulher anónima que temos à frente. Nascer, viver, morrer, tudo é fruto do acaso. “Quanto tempo mais se tem?”. Questiona-se, mas rapidamente responde à sua questão: “Ninguém sabe, e talvez seja melhor assim”. É um pouco o resumo de todo este monólogo interior, tão interior que a violência e crueldade com que é mostrado acaba por ser atenuada, também por momentos mais leves, ligeiramente humorísticos, que se intersectam com o drama. O espectador, esse, interpreta à sua maneira as sensações que lhe vão sendo transmitidas – e que são muitas. Mais uma peça de João Lourenço a não perder.

Fotografias: Rita Sousa Vieira