Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão iludiram Lisboa com a história de um crime denunciado nas páginas de um jornal, no que é considerado o primeiro policial português. O génio dos autores mostra-se na escrita, na profundidade das personagens criadas e na crónica de costumes já habitual da geração de 70, aqui bem evidente. Uma excelente obra, uma intriga intemporal, sobre os amores e desamores da sociedade.

No verão de 1870, o Diário de Notícias recebe e publica cartas anónimas, comunicando a morte de um homem em Sintra e a história de dois homens, o doutor e o seu amigo F…, que foram raptados por um conjunto de homens mascarados. À medida que o mistério se vai revelando, novas questões são levantadas e a verdade vem, aos poucos, à superfície. Só ao fim de dois meses os dois autores reclamam a escrita das cartas e a invenção de toda a intriga.

O suspense funciona na perfeição neste O Mistério da Estrada de Sintra, desde o momento em que os dois amigos são interpelados e levados para uma casa desconhecida, até à verdadeira descoberta de quem matou o britânico, como e porquê. Revela-se toda uma nova história através da publicação dos relatos no jornal, tomada por todos como verdadeira, talvez numa primeira (mas forte) crítica à sociedade da época, apática e sem valores, precisando de algo em que acreditar. Agitá-la era o seu principal objetivo.

“Os olhos daqueles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados talvez pelo sono tranquilo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem querida; estão, porventura, fitos no conhecido caminho por onde esperam sentir-te chegar, conhecer-te o passo retardado, ouvir-te a voz cantarolando a última valsa que o baile te deixou no ouvido, ver-te finalmente aparecer, descuidado, risonho e feliz.”

Verdade seja dita, difícil seria não acreditar. As personagens de Eça e Ortigão são de uma profundidade envolvente, verdadeiramente densas, modeladas, muito ricas. Uma Cármen que, por amar, perde todas as suas forças; uma condessa que se deixa engolir pela ilusão, primeiro, e depois pelo arrependimento; o seu primo que procura ajudar todos e salvar as honras de todos, e acaba por se perder numa teia de histórias que não são suas. Até o doutor tem um papel fundamental na narrativa, com o qual o leitor se identifica, sabendo apenas o que este relata. Todas anónimas e fictícias, e ao mesmo tempo personagens tão reais.

O desenrolar da história que leva à morte daquele homem faz-se particularmente em três narrativas ou cartas: a do mascarado alto, a de A.M.C. e a ‘dela’, que confessa tudo já perto do final da obra. Todas desvendam personagens e momentos cruciais das vidas destas figuras, destacando-se o romance de Rytmel e da condessa, que de resto condiciona toda a intriga, bem como a admiração e respeito de todos os mascarados por ‘ela’, que os leva a proteger a sua honra.

É curioso observar as relações de adultério, na que é mais uma forte crítica à alta sociedade do século XIX, tanto na personagem da condessa como na de Cármen. No entanto, é exatamente através destas duas personagens que se eleva a alma e o coração da mulher: apesar das suas atitudes incorretas e desrespeitosas, ainda por mais dada a sua condição social, como o próprio A.M.C. critica na sua carta, a mulher é aqui tomada como sensível, arrependida, emotiva, genuína… É ela que, no fim de contas, mais se dá e sofre por amor – que morre, inclusive, e mata. O sofrer por amor é mostrado como uma história que se repete e que absolve, por assim dizer, o próprio crime, pois ninguém quer ver julgada aquela mulher que matou apenas por amar demais.

“Desde que amei, a minha vida foi um desequilíbrio perpétuo. Não era voluntariamente que eu cedia à atracção, era com uma repugnância altiva. Mil coisas choravam dentro de mim, sofria sobretudo o orgulho. Era impossível fazer com ele uma conciliação. Reagiu sempre, protesta ainda. Parece vencido, resignado, mas de repente ergue-se dentro de mim, esbofeteia-me o coração.” 

A confissão é, de longe, a carta mais intensa que a imaginação dos autores produziu. Dotada de uma emoção realista, com a qual o leitor se compadece, a narrativa consegue manter uma decência bastante lógica, dadas as circunstâncias em que é escrita. E é a derradeira carta de revelação dos acontecimentos. Apesar de uma certa banalidade da história, de amores, relações humanas e sociais que se perdem, a sua originalidade está, a meu ver, nestes pormenores de escrita e criação interior das personagens, que Eça e Ortigão tão bem sabem fazer.

O Mistério da Estrada de Sintra é um daqueles livros dos quais não vamos querer saber o final logo no início da leitura. É uma obra para saborear, descobrir e deixar levar – e sofrer, também, com o drama e o romance que se misturam com a história policial. É mais uma grande obra de dois grandes autores de final de século, sublimemente escrita e imaginada, a acrescentar à forma inédita como foi apresentada ao público.

5/5

Ficha Técnica:

Título original: O Mistério da Estrada de Sintra

Autores: Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão

Género: Policial, Romance

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Imagens: filme homónimo de 2007, realizado por Jorge Paixão da Costa.