JP Simões é o artista dos sete ofícios em Íntima Farsa. Textos, músicas e letras estão a seu cargo, no São Luiz, para a peça em que lhe cabe ainda o papel de protagonista. O objetivo parece ser tornar exterior o que é tão íntimo. Como é que isso se faz?

Em cena, João é um escritor de romances e peças de teatro. Mais que isso, é o protagonista que põe durante toda a peça em evidência o seu íntimo psicológico revelado nas conversas que tem com o psicanalista (será que é mesmo ele que as tem?) e nos seus sonhos, por vezes mais perturbantes que a realidade. O seu interior é o seu verdadeiro mundo. Como diz, “às vezes, acho que venho à realidade só para fazer compras”. Cá dentro é que tudo acontece e nunca se sabe qual das realidades, se a interior se a exterior, é a farsa.

É assim com João e é assim também com o casal amigo, que o compreende. Não que ele lhes seja inteligível, mas também para eles, por uma razão ou outra, o mundo se cria a partir do pessoal, do sonho e das reflexões. Só a mulher de João quer uma vida normal, sem álcool, crises e alucinações, com estabilidade e filhos a correr pelo parque. Ela é Bárbara, ou Patrícia, ou Marta, ou o que se lhe quiser chamar, já que todos lhe trocam um nome sem que ela ou alguém sequer se dê conta. Um pormenor interessante, com tudo o que pode querer dizer, na construção das personagens de JP Simões.

Neste turbilhão alucinado de crises interiores, a personagem de Aurora, que nunca realmente aparece, investe-se de um encanto natural e inspirador pela sua capacidade de levitar e de com um sorriso ser a pessoa bonita e compreensiva. Esta capacidade é o estado mais próximo daquilo que as outras personagens fazem com as suas divagações. Mas se ela levita calma, os outros caminham numa viagem de turbulências.

No final, o desenlace abre-nos possibilidades na forma de ler a peça e sobretudo, apela à promiscuidade que há entre o íntimo e a farsa e o exterior objetivo a que teimamos chamar realidade ou verdade.

Somada a ótima banda sonora (a que já JP Simões nos tinha habituado em Ópera do Falhado), com os diálogos com toques de humor e ironia, esta é uma obra que espelha o artista e a personagem que é JP.

A encenação e a luz de Victor Hugo Pontes e Nuno Meira (respetivamente) são aprazíveis num texto que peca pelos seus momentos maçadores. A conversa com a intenção de exteriorizar o pensamento das personagens é, por vezes, demasiada e dispersa a atenção e entusiasmo do público.

Uma ótima ideia, que suscita em nós o pensamento e a reflexão, num texto por limar.