Assim foi a noite de metal & futebol com Madball, Steal Your Crown e Devil In Me, no passado dia 21, no Santiago Alquimista. Um evento promovido pela Xuxa Jurássica.

“Até os comemos!”, “Carrega, Ronaldo!”, os vitupérios ecoavam pelas paredes do salão nobre do Santiago Alquimista, reverberando nas gargalhadas dos presentes que, entre dois dedos de conversa e alguma névoa na transmissão, iam torcendo, euforicamente, pelos jogadores da seleção nacional, aquecendo as gargantas para o arraial que se avizinhava, mitigando quaisquer quezílias futebolísticas desviantes em prol do rejubilo comum.

Felizmente, ganhámos nós. Já de barrigas cheias e corações quentes, inflados pelo regozijo patriótico, os aficionados do movimento começavam a aglomerar-se junto ao palco onde os Steal Your Crown iriam abrir as hostes, munidos do último trabalho de estúdio Thrones Of Infamy. Apesar de não se apresentarem na sua mais profícua forma, uma vez que o guitarrista Bruno se encontrava ausente, por razões laborais, os SYC iniciaram as hostilidades com Lay Low, a faixa de abertura do primeiro longa-duração, seguindo-se Enough Is Enough e o hino Streetly Street, ambos do EP Royal Punishment.

Ainda que não estivesse de lotação esgotada, compreensível por ainda estarmos no início da noite, deparávamo-nos com uma sala bem composta, preenchida pelo 2step incessante e os coros vociferados pelo público, em constante interacção com Dice e Gil, que relembraram a importância do movimento hardcore underground nacional, em franco crescimento, que merece ser melhor financiado e apoiado. Algum feedback fez parte da actuação dos senhores da Margem Sul, resultante do volume excessivo de som, tendo sido solucionado com o decorrer das festividades.

Após alguns interlúdios comunicacionais, presentearam-nos com Hard Times e Walk Tall. Para finalizar, Loyalty Can’t Be Bought e o habitual dinamizador de multidões, SYC, para fechar uma presença, ingloriamente, curta.

Seguindo no alinhamento, encontramos os mais recentes adónis da cena extrema nacional que, depois de terem tocado com os Born From Pain ou os Trapped Under Ice, tomaram, de rompante, os mosh pits, uma vez que, como refere o vocalista Poli, “deixem-se lá desse karaté”. Iniciando o seu contributo com uma sample de Damien Marley, embrenhando-nos na mística urbana jamaicana, irrompe uma incólume descarga de fúria, Back Aginst the Wall, do albúm de 2007, Brothers In Arms, apoiado, em uníssono, pela sala que ia enchendo.

Com um som bem mais apelativo, os Devil In Me justificaram a azáfama mediática que, ultimamente, os tem rodeado com um portentoso espectáculo de comunhão do movimento hardcore, com sangue novo e sangue velho unidos pela paixão às sonoridades mais extremas. Como Poli referiu, num dos seus diálogos, é necessário abraçar os jovens que agora se reúnem ao colectivo, que criam novas bandas, que lutam para fazer prevalecer a sua vontade no universo musical contemporâneo.

Num set fortemente preenchido pelos temas do novo álbum The End, como Beast, From Dusk ‘Till Dawn ou Push Twist And Turn, houve ainda tempo para alguns clássicos, como Only God Can Judge Me ou Live Fast Die Young, não tendo, no entanto, a incursão passado pelo primeiro álbum Born To Lose. Para o fim, The End e Brothers In Arms, cantado por todas as gargantas do Santiago Alquimista.

Por fim, o tão aguardado retorno aos palcos, afastados de território luso desde 2010, os norte-americanos Madball, pero latinos 100%. Na sala já cheia, as hostilidades iniciaram-se com Get Out, um ribombante estoiro de agressividade, demonstrando que, apesar das mais de duas décadas no activo, ainda têm alguns truques na manga. Serpenteando entre o castelhano e o inglês, Freddie “Madball” Cricien provou que a barreira linguística é insuficiente para a inexistência dialética de diálogo, sendo acompanhado em todos as letras, até por forasteiros que se aventuravam numa subida ao palco e se apoderavam do microfone.

Deambulando pela discografia já longa, ouviram-se For My Enemies, Empire, da última gravação de longa duração, e Hold It Down. Paragem para conversa, um chorrilho de elogios para a organização, as bandas anteriores e a vivacidade constructiva do movimento hardcore português, “most importante of all, you got passion”, sublinhou Freddie. Houve ainda espaço para o famigerado Infiltrate the System e 100%, o hino internacional para o pluralismo anti-xenófoba, sentimento que muitas vezes é associado à música urbana mais extrema.

Para finalizar, Set It Off e Heavenhell, entoados em coro por toda a plateia, do álbum homónimo e de Legacy, respectivamente, fecharam o set dos nova-iorquinos. Os fãs, insatisfeitos, eclodiram em assobios e aplausos, requerendo a volta do colectivo norte-americano, que acabaram por aceder, retornando ao palco para mais dois temas, finalizando com Poli, dos Devil In Me, a participar das lides vocais do último tema, Pride.

Em suma, o regresso, há muito aguardado, dos gigantes latino-americanos reflectiu-se numa festividade representativa do movimento de hardcore internacional, da comunhão do movimento e da paixão sentida pelos aficionados, assim como da afirmação das bandas portuguesas como epíteto musical capaz de ombrear com qualquer nação.

*Por opção do Autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945