Da velha Fábrica ASA ficaram as paredes e o teto. E o chão e o espaço grande e adormecido. Nunca antes a antiga fábrica de lençóis se tinha imaginado habitada por vírus informáticos ou um homem azul. É arte contemporânea experimental, dizem. A Capital Europeia da Cultura manda que estejam cá. E bem. Emergências 2012 foi inaugurada ontem.

Emergências: de emergir, nascer. Emergências: de urgente olhar e pensar.

Num discurso inaugural, emocionado e acolhedor, Marta de Menezes, comissária da exposição (ou a artista que selecionou as 18 obras nacionais e internacionais da mostra, se trocarmos por miúdos) diz ter-se apaixonado por cada uma das peças escolhidas para viverem durante três meses em Guimarães.

Ciência e tecnologia em arte. Esta é, diz quem sabe melhor do que ninguém, uma exposição que se foca não num tema em particular mas nos meios de expressão, nos materiais e na forma como estes podem ser utilizados pela arte contemporânea para nos oferecer maneiras de compreender a sociedade. Há peças com “conceitos complicados, menos complicados, mais emocionais, mais políticos, mais sociais”. Mas que tocam. De uma maneira ou de outra. Era isso que se pretendia, aliás. Uma descoberta sensorial.

A exposição foi pensada em todas as dimensões. A entrada com cortiça, lã e plantas: “materiais crus mas fundamentais para qualquer português”. A baixa luz, que, se por um lado dificultava a leitura dos cartazes informativos por parte de olhos mais velhos e cansados, por outro, estava pensada por um arquiteto de luz para ser parte de uma estimulação de sentidos calculada.

E viu-se um homem sentado dentro de um cubículo de vidro a transpirar um líquido azul. Dava-se palpites. “Eu acho que é um boneco”. “Um smurf ou um avatar?”, entre risos. Era um homem mesmo. E a obra dá pelo nome de Bleu Remix. O artista é Yann Marussich. Os mais informados vão passando informações aos menos preparados e assim mais incrédulos e desconfiados. “Ele conseguiu desenvolver um químico que faz com que todos os líquidos do corpo se tornem azuis”. Há contemplação e espanto.

É tempo de olhar mais além. Um comboio controlado através do telemóvel. Um quarto de privação de sentidos (“It’s scary!”). Uma cidade jogável. Um vírus informático. Airbags sociais. Um recitador de poemas automático. Algas que produzem energia. Ainda mais. Há olhares interpretativos, outros resignados. Os olhos mais atentos ainda por lá viram, de mãos dadas, a passear, Sofia Escobar, a vimaranense ‘emprestada’ a Londres e transformada em Christine do Fantasma da Ópera.

Idiomas diferentes. Português, inglês, castelhano. Os artistas, presentes, vão, com esforço mas com sorrisos de satisfação, tentando explicar os “o quê” e “porquê” das suas obras. Não é fácil ver e analisar todas as peças em exposição e chegar ao final com uma conclusão total e esclarecida. Mas é certo que se sai com mais do que quando se entrou. É a descoberta de um mundo que vive ali. Tão diferente, tão perto.

Está à disposição de ser visto e revisto (não fosse a entrada livre) até setembro. E vale a pena.