No seguimento das comemorações dos seus 75 anos, a Rádio Renascença convidou uma das mais ilustres vozes mundiais para encher o Pavilhão Atlântico. O conceituado José Carreras subiu ao palco e trouxe consigo duas convidadas muito especiais: a nossa Carminho e a agradável surpresa da América Ailyn Pérez, que se juntaram à Orquestra Sinfonietta de Lisboa e ao Maestro David Giménez para encher a sala de magia.

A carreira de Carreras não deixa muitas dúvidas, em grande parte devido ao sucesso do trio Os Tenores, que fundou ao lado do italiano Luciano Pavarotti e do espanhol Placido Domingo; nem por isso deixou de lotar salas de concerto, de ópera e festivais um pouco por todo o globo, assim como de arrecadar discos de ouro e platina. O músico conta com uma vasta discografia que inclui as impressionantes mais de 150 gravações e 50 óperas completas. Do seu percurso vale ainda ressalvar uma luta contra um cancro, que o levou a fundar e presidir intimamente a Fundação Internacional de Leucemia José Carreras, sediada na sua terra natal, Barcelona.

A noite reuniu na sala de espetáculos variadas personalidades, da política à socialite, assim como verdadeiros e antigos nomes da rádio, nomeadamente da Renascença. O Presidente do Grupo, o cónego João Aguiar Campos, fez questão de receber os convidados em sinal de celebração dos 75 anos, e acima de tudo, da música.

Devido a algumas dificuldades técnicas, apenas pudemos chegar a tempo de assistir ao fim de Vurria, cantada eximiamente por Carreras. Durante todo o espetáculo podemos atentar que, apesar de já não ser o jovem fulgurante que foi em tempos, José Carreras continua a dedicar-se “de alma e coração” ao seu ofício, especialmente tendo em conta as adversidades que enfrentou. Tal sentimento está presente na forma como se entrega a Rosó-pel teu amor.

Nesta primeira parte, tivemos também o prazer de ouvir Ailyn Pérez interpretar Je veux vivre da ópera de Romeo et Juliette de Gounod e Quando men va da ópera La Bohéme de Puccini. A soprano de Chicago encantou a audiência com a sua voz tão delicada quanto ampla, demonstrando um portentoso controlo e, acima de tudo, uma constante sensação de felicidade por fazer parte deste espetáculo.

A primeira parte terminou com a música The Impossible Dream, do musical Man of La Mancha do americano Mitch Leigh, que deixou uma estranha sensação de esperança na sala, pelo poder que Carreras incutiu na sua atuação e em especial nesta última música. Destaque ainda nesta primeira parte para as duas peças orquestrais conduzidas sem mácula pelo experiente maestro David Giménez.

Antes de dar início à segunda parte, Carreras felicitou a Rádio Renascença pelos seus 75 anos e disse estar orgulhoso por fazer parte da comemoração de uma rádio com tamanha história. Com isto dito, a sua interpretação de Passione fez jus ao nome, tendo a seguir vindo ao palco uma das cada vez mais conceituadas cantoras de fado em Portugal, Carminho, para cantar Pedras da Minha Rua.

Para Carminho, bastou cantar em português para chegar de perto a quem ouvia. A força das palmas fez-se ouvir à entrada da jovem fadista, que deixou bem claro o seu registo e a sua propensão no mundo da música. Ainda assim, acompanhou o tenor nos duetos Ave Maria e Pomba Branca, de Paulo de Carvalho, apesar de ser visível que o seu timbre e a sua forma de cantar por vezes foram engolidos pela instrumentação orquestral, muito mais cheia do que a utilizada no fado.

Outros grandes momentos se seguiram, como Jurame, cantada por Peréz, com aquela angústia e romantismo tão latinos, e o seu dueto com Carreras em Duo y jota, da zarzuela El Duo de la Africana, onde foi clara a química entre os dois cantores. A segunda parte findou com  Carreras a cantar Core n’grato. Mas mais música viria, com os protagonistas da noite a surpreenderam o público que os ouvia com um ligeiro prolongamento do espectáculo.

Com os presentes, tanto o público como os cantores e a orquestra, visivelmente regozijados depois de tamanha sessão de boa música, concluímos que esta noite foi de celebração. Pela grandiosa carreira de Carreras, pela exultação do talento nacional por parte da orquestra e de Carminho, e pelos 75 anos daquela que é uma das mais influentes e historicamente importantes rádios do nosso país. Seria bom que a Rádio Renascença fizesse 75 anos todos os anos, para que nos brindassem com mais concertos destes.

Texto por António Moura dos Santos e Sara Cardoso

Fotografias por Sara Cardoso