Foi num início de noite ameno e ainda solarengo que se deu uma sessão de música dedicada àqueles fartos da contínua amálgama indiferenciável expelida diariamente pelas rádios, procurando formas de música que saiam do actual espectro formatado em que as mesmas batidas, as mesmas ideias e os mesmos personagens continuam a repetir-se e a fazer o gáudio ao quem não procura por algo diferente. Felizmente, cabe a bandas como os The Mars Volta provar que a criatividade ainda existe e recomenda-se, e que ainda há uma fatia demográfica ávida por algo diferente e único.

Ainda decorria o Espanha-Irlanda do Sul (pobre Irlanda) quando Le Butcherettes subiram ao palco. Apesar do esparso público, a banda, que marcou passagem no festival Paredes de Coura no ano passado, apresentou o seu garage punk de influência indie com garra e panache assinaláveis. Assente numa secção rítmica portentosa, constituída pela metronómica Lia Braswell na bateria e pelo incontornável Omar Rodriguez Lopez (que, de resto, também ajudou a produzir Sin, Sin, Sin, o último álbum da banda) no baixo, a música de Le Butcherettes atinge o seu expoente máximo com a mexicana Teri “Gender Bender” Suarez.

A vocalista, guitarrista e teclista, trocando funções consoante as músicas, é claramente o centro das atenções para quem assiste a esta banda. Apesar do seu aspecto inocente, a vocalista esperneia, deita-se, dança, ginga, faz malabarismos no teclado, abana a cabeça, grita (às vezes um pouco esganiçada), geme, provoca, enfim, mostra de que fibra são feitas as verdadeiras rockers.

Numa disposição algo invulgar, com a bateria à beira do palco e perpendicular ao público, o conjunto foi soltando música atrás de música, com poucas interrupções, sendo o seu alinhamento maioritariamente composto por material de Sin, Sin, Sin. Beneficiando de um som muito bem equilibrado (em especial de um baixo ribombante e espesso), músicas como The Leibniz Language e I’m Getting Sick Of You ganharam outra densidade e peso ao vivo, Tonight e Empty Dime convidaram à dança através das suas melodias e do seu balanço e o concerto acabou de forma arrebatadora, com Teri a terminar de cantar Henry Don’t Got Love em a cappella e sem microfone para um Coliseu rendido.

Le Butcherretes, no Coachella 2012

Era então tempo para assistir aos cabeças de cartaz, The Mars Volta, que vinham a Portugal pela segunda vez, depois do concerto em 2008, também ele no Paredes de Coura. Com um alinhamento maioritariamente composto por músicas do mais recente álbum Noctourniquet, os The Mars Volta tiveram um início algo morno com The Whip Hand e Aegis, devido a um som muito confuso e abafado, que tornou a voz de Cedric Bixler-Zavala pouco perceptível. Não obstante esta situação, o público respondeu efusivamente e o som melhoraria substancialmente ao longo do concerto.

Ao vivo percebemos facilmente porque é que os The Mars Volta são uma das propostas na vanguarda do rock progressivo moderno. Apesar de se perderem alguns pormenores técnicos de ordem sónica no meio da azáfama musical, as performances da banda ganham muito nos seus momentos de improvisação musical, seja pela performance de bateria incrível (quase desumana) de Deantoni Parks ou pelo trabalho de guitarra único de Omar Rodriguez Lopez (aqui uma figura de destaque, ao contrário da presença comedida na primeira parte do concerto), que ora se desdobra em solos intensos ora leva à criação de paisagens sonoras evocativas e fantasmagóricas, transportando os ouvintes para lugares longínquos (Marte talvez).

Por entre os momentos mais calmos de Trinkets Pale of Moon e Empty Vessels Make the Loudest Sound e as mais directas Dyslexicon e Molochwalker, Cedric Bixler-Zavala mostrou o excelente frontman que é, tendo uma performance vocal impressionante e uma energia inesgotável, facto comprovado pela sua descida ao fosso para junto da audiência e pela forma como dança quase possuído pela música com o seu sapateado característico. De realçar ainda a comparação que fez entre o Coliseu dos Recreios e uma nave espacial, fazendo-nos questionar se aquele chá que tinha junto do palco não continha nenhuma substância ilícita.

Depois de todo o material de Noctourniquet (donde ainda se destaca o single The Malkin Jewel, uma das músicas mais pesadas do concerto), foi tempo de encerrar com as mais antigas The Widow, cantada em uníssono, e Goliath, acabando o concerto em beleza. Mas apesar de todo o brilhantismo da actuação e os grandes momentos proporcionados apenas por músicos deste calibre, fica a perdurar na boca um sabor algo amargo, visto ter sido uma actuação de apenas hora e meia. Os fãs bem fizeram expressar a sua ânsia por mais música, batendo em conjunto com os pés no chão e assobiando bem alto, mas os The Mars Volta não voltaram para o palco. Esperemos agora que talvez um dia os At the Drive-In possam privilegiar o público português com a sua presença.