O cenário é simples, a personagem é só uma e a língua mistura palavras de vários países africanos, Brasil e Portugal. Um monólogo de um caçador de onças arrependido, amargurado e sozinho. Fala para um homem que visita o local onde vive. Convidou-o para a sua casa, o sítio onde dorme. Faz-se acompanhar de uma garrafa de cachaça que bebe entre contos e relatos das suas vivências e peripécias.

O caçador não é mais caçador de onças desde o dia em que conheceu a onça mais bonita do sítio, Maria Maria. Passou a estar do lado delas, intitulando-se mesmo de seu parente. A visita de várias personagens ao local onde vive fazem a sua história de predador, depois de ter sido deixado sozinho pelo seu patrono, nhô Guedes, que o enviara para caçar onças.

José Artur Pestana interpreta pormenorizadamente cada gesto que relata, enquanto caçador e enquanto onça. O deslizar, o preparar para caçar, os urros e os sons de satisfação do animal são bem percetíveis ao espectador. O público é preso pelo olhar intenso e o movimento detalhado do ator.

O fim trágico deixa o espectador até com pena do caçador, apesar de todos os seus delitos desmistificados ao longo da peça. O caçador que virou onça para poder estar mais perto da sua amada, Maria Maria, acaba por ver o “feitiço virado contra o feiticeiro”, tendo um fim rápido e, ao mesmo tempo, sofrido.

O texto é baseado na obra de João Guimarães Rosa e a encenação é do sueco Jorge Listopad. Meu tio o Jaguar estreia esta noite no Teatro Nacional D. Maria II e está em cena até dia 1 de julho, de quarta a sábado às 21h05 e ao domingo, às 16h15.

Fotografias de: Filipe Ferreira