As portas do Ritz voltaram a abrir-se às noites de boa música. Desta vez, ao som da orquestra Tora Tora Big Band, na apresentação do novo álbum, Salteado. A noite foi de glamour. A passadeira vermelha estendeu-se perante um clima de cumplicidade e, simultaneamente, descontração. Tornou-se inevitável o pé de dança.

A noite desenhou-se em tom revivalista: para uns, foi o fim do jejum de alguns anos sem visitar o Ritz Clube; para outros, a intimidade com alguns elementos da banda ou, ainda, o apego já ancestral ao groove intrínseco a Tora Tora, foram determinantes para a preferência por um serão alternativo. Tiveram todo o cabimento o braço-dado e o clichéprimeiro as senhoras”. E, destemidamente, seriam estas, principalmente na segunda parte, a inaugurar a pista de dança.

Para nós, que nunca os havíamos ouvido mais gordos, tornou-se numa agradável surpresa. As suspeitas de que uma eventual monotonia poderia descer sobre um palco onde, por vezes, foi desafiante distinguir o fim de uma música do início de outra, foram-se dissipando: a perspicácia do conjunto patenteou-se através de um sem-número de solos instrumentais (onde reinou, aqui e ali, a arte do improviso), abrindo possibilidade para praticamente todos os membros da banda brilharem; a voz consistente e arrebatadora e a formosura da convidada Mariana Norton foram truques na manga para o enamoramento da plateia. A convidada especial perfumou o palco e a sala, ao protagonizar os temas Elephant´s Run e Odd Dogg. Estes dois aspectos revelaram-se fundamentais para completar uma atuação exímia no plano técnico, de inegável mérito.

Reconhecemos a nossa insipiência enquanto degustadores do estilo de Tora Tora Bing Band. Por vezes, a arte da conquista só é verdadeiramente consolidada quando há arte paralela no apreciar. Ficou, no entanto, a água na boca, muito por responsabilidade do encore, que foi o culminar de uma escalada galvanizante na desinibinição dos corpos. O cenário de festa no final do concerto – mas não o final de noite no Ritz – assemelhou-se em muito ao tom festivo dos momentos geralmente proporcionados pelo grupo Kumpania Algazarra. O regresso de Tora Tora Big Band aos palcos é inequivocamente promissor.

No final do concerto, o Espalha Factos teve o prazer de conversar com a banda.

Espalha-Factos: O que acharam do concerto? Sentiram que a reacção aos novos temas por parte do público foi positiva?

Cláudio Silva: Sem dúvida. Desde que faço parte da banda, que é há pouco tempo, acho que foi o melhor concerto que demos.

EF: O espaço em si contribuiu para que assim fosse?

CS: Talvez… É a primeira vez que toco aqui também, estava criado um bom ambiente, e essas condições ajudam sempre para que os concertos sejam um sucesso.

EF: Como surgiu o conceito e a nova formação da banda?

Francesco Valente: Surgiu tudo por volta de 2001, 2002, ja ninguém se lembra quando (risos). Na calçada de Santana, onde viviam alguns dos membros fundadores, entre os quais eu, o Lars Arens e o Johannes [Krieger], tínhamos já tido outras experiências de música noutras bandas e tínhamos a curiosidade de fazer uma big band que tivesse a ver com jazz mas também com grooves mais modernos e dançáveis e fazer algo multicultural, uma vez que os membros eram de vários países – americanos, brasileiros, dinamarqueses, etc..

EF: Na produção do álbum foi fácil concregar tanta diversidade, quer ao nível musical quer até cultural?

FV: Não foi muito difícil, porque já vínhamos de 5 ou 6 anos a tocar juntos, com este conceito. Foi só manter o conceito e renovar a banda, porque tinha ficado parada dois anos e meio, por problemas com a editora:  falência, discos desaparecidos dentro de uma gaveta… Ficámos um pouco desmoralizados, porque deixámos de ter discos à venda, e deicidimos parar um bocado. Na altura de recomeçar, o ano passado, recompusemos a banda, conhecemos novos músicos – no curso de música da Escola Superior de Música, mais novos que nós. O formato mantém-se mais ou menos igual, mas começámos a ensaiar temas novos, daí a ideia de fazer um novo disco e voltar a entrar no circuito.

EF: Como surgiu o convite à participação especial da Mariana Norton?

FV: Nos últimos anos tivemos uma vivência muito importante no contexto da Escola Superior de Música, onde tivemos espaço para ensaiar, tocar com os novos colegas, novos membros. Ela também fez parte deste circuito e foi aí que surgiu esta experiência de aprendizagem coletiva, uma vez que ela tem desenvolvido connosco as suas qualidades canoras.

EF: De onde provêm as vossas mais importantes inspirações? Quais são as vossas principais influências?

FV: Cada um tem um peso diferente. No geral, os compositores são dois: Johannes e Lars [Arens]. São eles os dois que compõem e nós damos as nossas dicas em termos de interpretação, às vezes de estrutura ou de grooves, e chega a uma coisa escrita, mas depois temos de transformá-la em algo vivo. E se o Johannes puxa um pouco mais para grooves latinos e afro, o Lars vai mais para o jazz mais moderno, com compassos diferentes mas também exóticos. Têm escritas muito diferentes, mas são os dois muito bons músicos.

EF: Apesar de todas as dificuldades de implementação de estilos não comerciais, sentem o vosso trabalho recompensado?

FV: Sim… Quer dizer, depois de 10 anos devíamos ter tido pelo menos um concerto no Porto (risos), que é a segunda maior cidade de Portugal. Eu acho que esta orquestra – e digo isto porque colegas de outros países que são grandes músicos o dizem – é uma grande banda. Não são palavras minhas. A orquestra merece muito sair daqui [zona de Lisboa]. Agora que temos três discos, que não é pouco, que temos um repertório enorme, que o podemos também adaptar a todo o tipo de situação: em festivais, onde já tocámos, auditórios, teatros salas, bares… Tudo. Acho que tivemos sempre um bom acolhimento do público aqui em Lisboa. Tocamos muitas vezes fora de Lisboa, mas acho que devíamos ter mais oportunidades de tocar em salas grandes de outras grandes cidades, embora em Portugal não haja muitas. Às vezes é preciso sorte e  encontrar as pessoas certas. Mas a gente acredita que pode dar a volta ao mundo. Com esta banda pode fazer-se tudo: temos auto-confiança, sabemos que podemos dar muito, basta apanhar o clique certo. Apesar de não termos tido isso, fizemos sempre o nosso trabalho, compusemos, arranjámos e gravámos as músicas juntos, acho que estamos no caminho certo. Depois o futuro se verá. Estamos a fazer tudo com grande empenho e entusiasmo.

EF: Acham que conseguiam ter dado um concerto como este sem olhar para a pauta?

FV: Acho que sim. É uma questão de querer. Querer é poder. Está tudo treinado à partida, mas é óbvio que depende também do momento. Se o solista decide sair muito da estrutura pré-estabelecida pode acontecer a banda acompanhar esse desvio. Normalmente temos as músicas muito definidas, estruturas às vezes muito complicadas, mas há sempre aquele momento de improvisação, de interacção, onde a secção rítmica deve corresponder ao solista e às vezes quando ele foge da estrutura podemos nós também sair. Os solos muitas vezes são abertos, e depois logo se vê. Nos também temos músicas que se prestam à abertura total.

EF: Apesar da pouca participação vocal, pretendem veicular nas músicas alguma mensagem específica?

FV: Viver a música, expressar a liberdade… Como foi dito,  fugir do circuito comercial que impõe às bandas fazer um disco que tem de vender, tem de ter um single que tem de furar. Às tantas anda-se a vida inteira à procura do single perfeito para fazer dinheiro. Obviamente aqui não se trata disso. Somos nos próprios os produtores artísticos, da nossa música, somos nós que decidimos que tipo de música de música fazer, que tipo de fusões escolher, que tipo de grooves incorporar. Somos muito mais  livres de fazer o que queremos. Para além de exprimirmos uma mensagem de liberdade, tentamos mostrar a ideia de que pessoas de diferentes países podem produzir beleza, através da multiculturalidade.

 EF: Já têm muitas datas para a apresentação deste novo álbum?

Temos várias, não muitas. Porque também com esta…. Não digo a palavra! (risos). Como todas as bandas, temos problemas com datas. Não temos muitas. Poderia ser melhor, mas está bom.

Reportagem por Pedro Pereira e Rui Ramalho.