Há homens assim. Homens esquecidos pelo país, homens demasiado grandes em espírito para um país ainda tão pequeno. Não há espaço para as grandes mentes numa ditadura, são como azeite e água. Um destes homens foi-nos dado a conhecer, no passado Domingo, pela Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012.

Joaquim Novais Teixeira, que o destino não quis que figurasse com as merecidas honras entre a memória colectiva nacional – nem na vimaranense – está por fim reconhecido. Reconhecido e reconciliado, não só com a sua cidade, que tanto amava, mas com a memória de todos nós que a habitamos. Mais do que a memória nacional, necessariamente mais selectiva, Novais Teixeira está finalmente reconciliado com a memória vimaranense. Veio finalmente ocupar aquele cantinho no nosso imaginário que sempre está vago para quem dele merecer.

O filme-documentário de Margarida Gil vagueia entre a ficção e a realidade como Ana e Jacinto vagueiam pelas vielas de Guimarães, num diletante discorrendo de memórias. Socorre-se de uma relação ficcionada para contar uma história bem real. E é notável quão bem estas duas dimensões coabitam a obra sem nunca se atropelarem uma à outra, antes como se uma, com grande naturalidade, completasse a outra.

A partir daqui, abrem-se as portas de uma vida tão respeitável quanto invejável, uma vida que testemunhou e participou de famigeradas lutas que já não são as deste mundo, daquelas que lapidam heróis para a posteridade. Afinal, quem quer realmente viver num mundo onde agências de rating apelidam os estados de lixo? Quem, como Ana, não quer dormir para se alhear de um mundo destes? Que lutas são estas que há hoje para lutar? Para onde nos devemos virar?

Novais Teixeira distinguiu-se pela sua actividade nos meios jornalísticos e intelectuais em Espanha, França e Brasil. Admirado pela sua simplicidade, humor e inteligência por todos os locais onde passou, Novais Teixeira privou com algumas das maiores figuras do seu tempo. Privou, entre muitos outros, com Picasso, Garcia Llorca e foi amigo íntimo de Buñuel. Foi nomeado Secretário de Imprensa do governo da República espanhola e, depois do avanço do franquismo e do nazismo viu-se obrigado a fugir, respectivamente, para França e para o Brasil. Do outro lado do Atlântico, continuou a sua carreira de jornalista e foi dos principais impulsionadores do “cinema novo” brasileiro. Trabalhou também como correspondente e comentador de assuntos internacionais. Regressaria a França no pós-Guerra, onde acabou por integrar o júri do Festival de Cannes e desenvolveu a sua actividade como prestigiado jornalista e crítico de cinema. Por todo o lado os testemunhos são unânimes: Novais Teixeira foi um homem cativante, especial, raro.

O Fantasma do Novais faz de anfitrião, apresentando a figura de Novais Teixeira a Guimarães e ao país. Vem acordar-nos deste pardacento presente e lembrar-nos oportunamente daquilo que podemos atingir, das múltiplas possibilidades das nossas vidas, da importância do lugar de onde vimos, e do que transportamos enquanto sujeitos errantes. Pressupostos que não têm prazo de validade, que devemos ter em mente e valorizar em permanência, mais do que nunca no meio desta inescapável globalização.

Lições de um homem que, há muitas décadas, era já um homem global. Fantasmas destes podem – e devem – assombrar-nos.

Ficha Técnica:

Título original: O Fantasma do Novais

Realizado por: Margarida Gil

Escrito por: Margarida Gil

Elenco: Cleia Almeida, Miguel Nunes, Maria Raquel Correia, Carolina Amaral, Isabel Machado

Género: Documentário

Duração: 90 minutos

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.