Foi com algum saudosismo mas muita alegria que, no passado domingo, 81 mil pessoas assitiram ao último dia da 5ª edição do Rock in Rio Lisboa. Bruce Springsteen e Xutos e Pontapés garantiram um encerramento pujante, minado de rock e inauditas lembranças.

À primeira vista, o domingo poderia ser sinónimo de diminuição de afluência. Véspera de trabalho, concertos a acabar tarde, cansaço acumulado… Vários fatores faziam prever um festival menos concorrido, reservado aos acérrimos admiradores de Bruce ou Xutos. Mas, ao chegarmos à Bela Vista, percebemos que o cenário era diferente: avizinhava-se mais um dia de enchente.  Famílias dispostas a abdicar de algumas horas de sono para se rejubilarem com os ídolos de várias gerações.

Os concertos no Palco Mundo iniciaram-se religiosamente às 19 horas, como vem sempre acontecendo desde que, no dia 25 de maio, os Sepultura abriram as hostes  do espetáculo. No dia de fecho da cidade do Rock, os Kaiser Chiefs são a banda convidada para impelir à libertação das primeiras energias, cumprindo a tarefa na perfeição. Presença habitual no nosso país, e com uma passagem pelo Rock in Rio em 2008, os Kaiser mostraram por que são considerados um dos mais importantes grupos de indie rock.

Feitos de uma interminável energia e comunicando durante toda a atuação, os britânicos levantaram a aura da plateia, proporcionando um dos melhores momentos do festival. Orelhudos hinos como Never Miss a Beat, Everyday I Love you Less And Less ou I Predict a Riot faziam a delícia dos presentes, numa mescla perfeita entre letra e poderoso instrumental, composto por guitarra, baixo, bateria e teclas. Ricky Wilson, o poderoso vocalista do coletivo, é um verdadeiro frontman. Sempre mexido e divertido, dono de uns invejáveis pulmões, corre e dança, canta e toca, como um irrequieto miúdo de 12 anos. A reação do público, porém, afigurava-se pouco entusiasta, principalmente com as faixas do novo álbum, The Future is Medieval. Explodiria apenas com a chegada de Ruby, um dos mais afamados temas dos meninos de Leeds.

A ela se segue Angry Mob, num raivoso coro, que antecederia o apogeu do espetáculo. Ricky, à procura de novas atividades, foge de palco, trepando as grades e escalando o lado esquerdo do recinto, até chegar ao slide. Irrompendo heroicamente, sobrevoa a multidão enquanto canta Take My Temperature, para gáudio do público e desespero dos seguranças, que posteriormente o seguiram até ao palco. Insólito feito, que daria o mote para o último tema, Oh My God, entoado com um cachecol português nos ombros, enquanto se desfila pelo meio da multidão. Uma hora de intenso concerto, que acabaria por saber a pouco, mas que certamente ajudou a enriquecer a legião de fãs que esperarão os Kaiser Chiefs nas próximas passagens por Portugal.

Eis que chegava a vez dos James, banda de Manchester que recua até aos anos 80 para garantir um movimentado espetáculo, pleno dos êxitos que os tornariam famosos. Os britânicos, liderados por Tim Booth, cujo aspeto se mantém inalterado há vários anos, iniciam com Ring The Bells e She’s a Star, impondo toda a sua pujança e força, sem que o avanço da idade se intrometa na tarefa.

Gesticulando e comunicando, Tim Booth prossegue, numa esquizofrenia de movimentos que acompanhariam temas como Gettin’ Away With It e Johnny Yen, sincronizados pela multiplicidade instrumental do grupo, composto por nomes como Saul Davies, Jim Glennie  ou David Baynton-Power. Mesmo depois de tantos concertos em Portugal, o público segue os James, cantando as músicas e embelezando-se com as exibições plenas de fulgor e coração.

Antes de terminarem, tempo ainda para Tomorrow, que precederia uma das declarações mais sentidas do evento. Saul Davies, o guitarrista e violinista do coletivo, residente em Trás-os-Montes, deixou duas perguntas a Pedro Passos Coelho, primeiro ministro de Portugal, por si apelidado de “coelhinho”. “Porque é que nós temos aqui em Portugal velhotes que não têm dinheiro suficiente para pagar a conta da luz? Porque é que no norte há escolas que fecham porque o Governo não tem dinheiro suficiente para pagar aos professores? O nosso Coelhinho tem os sonhos da população portuguesa nas mãos dele. Que tenha cuidado”. A plateia manifestou-se, concordando com o músico, e aplaudindo. Sit Down seria o clássico que poria o ponto final na atuação, para rejubilo de fãs e leigos, a quem o tema também soava familiar.

A espera apertava, agora que se aproximava uma das bandas mais aguardadas da noite. Os Xutos e Pontapés, banda portuguesa que marcou presença nas cinco edições do Rock in Rio Lisboa, atraiu uma enorme legião de fãs à Bela Vista, que arrastava consigo cônjuges, filhos, netos, sobrinhos e amigos.  Muitos são os admiradores que os seguem para todo lado, de Norte a Sul, incapazes de perder uma atuação.

O espetáculo começou com uma pequena libertação de fogo de artifício, harmonizada com os sons iniciais de Contentores, música escolhida para abrir o concerto. Tim, Zé Pedro, João Cabeleira, Gui e Kalu entravam, sorridentes, prontos para mais uma noite de rock n’roll transmitido na língua de Camões. “Boa noite Rock in Rio”, bradaria o vocalista e baixista do conjunto, quando emanavam as primeiras notas de Não sou o único, um dos muitos clássicos tocados pelos Xutos, e que marcaram a vida de todos.  A plateia acompanha os temas, incapaz de se manter indiferente ao chamamento que ecoa pelo recinto. Ninguém esquece a letra de À Minha Maneira ou Homem do Leme, e isso repercute-se no sonoro coro que persistiu durante toda a performance.

Os riffs de João Cabeleira e Zé Pedro acompanham as bonitas palavras recitadas por Tim e Kalu, que simultaneamente se esmera na bateria, com estrondosas passagens e uma perfeita sincronização. Viajando por uma carreira recheada de êxitos, o coletivo, dotado de uma contagiante energia e um admirável ritmo – mesmo após 33 anos de rock -, surge com Circo de Feras, tema do álbum homónimo, de 1987. “Está a ser fantástico tocar para vocês”, diria Zé Pedro. Kalu assume o controlo do microfone para cantar Tonto, do álbum Direito ao Deserto, de 1993. “Sempre quis fazer isto, vamos lá ver como corre!” exclamava, risonho. Até ao final, e com um público notoriamente entusiasmado, tempo ainda para Dia de S. Receber, com Kalu a soltar um desabafo político (“Coelhinho se eu fosse como tu, pegava na troika e enfiava-a pelo… Coelhinho”), numa noite profícua para esse tipo de manifestações.

A encerrar, e com exaustivos coros, Chuva Dissolvente, Maria, A minha Casinha –c om direito a novo fogo de artifício –  e Para Sempre, momento propício a abraços e carinhos entre casais. O tempo esgotava-se, mas a energia dos Xutos permanece. Para sempre.

A multidão condensa-se, o grande momento aproxima-se. The Boss está prestes a iniciar o concerto em Lisboa, quando a organização avança o número de pessoas que o esperam: 81 000. A impaciência adensa-se, aumenta, com os admiradores expectantes pela chegada de Bruce Springsteen, um dos maiores nomes do folk rock da história da música, e dono de registos tão importantes como Born to Run, Born in The U.S.A ou Devils & Dust. A expetativa aumenta, sonoros assobios emanam da plateia, como que chamando pelo ídolo. “Boa noite Lisboa”, diria Bruce, mal entra em palco. Acompanhado da melodiosa E Street Band, de New Jersey, a actuação arranca com We Take Care of Our Own e Wreckin Ball, tema do álbum homónimo de 2012.

Embora pouca gente demonstre conhecer o novo trabalho do Boss, ninguém recusa mexer-se e abanar os braços, indubitáveis manifestações de regozijo pela possibilidade de assistir a um memorável espetáculo. Alguns repetentes, comparando concertos anteriores, outros menos entusiastas – como era o caso de um rapaz de 12 anos, visivelmente insatisfeito, enquanto o pai tentava estimulá-lo-,  assim se ia desenrolando o concerto, com um notável groove e muita animação. Comunicando frequentemente  em português, de um modo esforçado mas honesto, prosseguia a batalha, com Death to My Hometown, My City to Ruins ou Because the Night. Juntando-se à numerosa banda, e tocando lado a lado com violinista, guitarrista e baixista, Bruce mexia-se em palco, transmitindo harmoniosas vibrações, contagiando os poucos que ainda pareciam reticentes. Waiting on a Sunny Day – com a participação de uma criança de 9 anos – e The River impeliam Springsteen a movimentar-se, sempre sorridente e atencioso.

Para fechar o palco e o festival, Bruce reservaria canções tão lendárias como Born in The U.S.A, Born to Run ou Glory Days, deixando o público maravilhado, e proporcionando momentos inesquecíveis, com notas sincopadas, músicos tecnicamente perfeitos e uma grande dose de entretenimento. Nada mais se podia pedir a um experiente artista, encarregue de encerrar um dos maiores eventos de música do mundo.