Tal como previsto, o segundo sábado do festival surgiu empurrado por uma teimosa chuva, que insistia em permanecer. Mas isso não foi suficiente para intimidar as 69 mil pessoas que se deslocaram ao Parque da Bela Vista, impelidas pela presença de artistas como Bryan Adams ou Stevie Wonder, que garantiram atuações memoráveis.

O cartaz prometia bons espetáculos, plenos de recordações de outras épocas, de hinos intergeracionais, de exuberante música e musicalidade. Contrariamente, a meteorologia não augurava boa fortuna: eram esperados aguaceiros, que acabaram por aparecer logo ao fim da tarde. Mas isso não fez o festival parar. The show must go on, mesmo que tal implique a utilização das coloridas proteções impermeáveis, ideais para minorar os efeitos da chuva. No fim de contas, as águas até se revelariam fortuitas. Serviram para reduzir a poeira do dia anterior, levantada pelo furacão Ivete.

Logo nas primeiras horas do dia, as filas de entrada no recinto alargavam-se, compostas por um mar de pessoas ansiosas por navegar ao som de Joss Stone ou dos clássicos de Stevie Wonder, o romântico incorrigível. Risos e cumplicidade marcariam o início dos concertos no Palco Mundo, onde milhares de famílias já se agrupavam, recusando perder pitada da animação.

E o entretenimento arrancou, pontualmente, com uma banda portuguesa convidada: os The Gift, liderados por Sónia Tavares, detentores de uma invejável carreira e reconhecimento. Driving you slow, um dos seus mais afamados temas, exalta os ânimos logo no primeiro momento, despoletando um trautear generalizado nas filas da frente. Coloridos e comunicativos, os Gift aproveitaram a atuação para mesclar temas de registos antigos com canções dos álbuns mais recentes – Explode e Primavera.

 “É um prazer regressar aos palcos”, diria Sónia, após ausência forçada pelo nascimento do seu filho com Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell. “O bebé está lá atrás, com tampões nos ouvidos. Já se cansou de ouvir a mãe”, acrescentava a artista, divertida. A miscelânia de cores é o elemento mais saliente no cenário de palco do grupo, que incorpora o espírito de Explode, trabalho gravado em 2011.

RGB é a música que se segue, acompanhada por milhares de balões gigantes e uma possante voz. Os mais acérrimos cantam ininterruptamente, provando que o carinho e o interesse os unirão à banda para sempre. Sónia, ao avistar os cartazes da Fundação Gil – associação de solidariedade com crianças vítimas de internamentos prolongados -, deixa o apelo para que o público ligue para o número divulgado. “Já que utilizam os telemóveis para filmar indevidamente, aproveitem para fazer uma coisa boa com eles”. Fácil de entender apareceu, vigorosa, cantada em uníssono pela plateia. A ela seguiu-se Primavera, dedicada pelo teclista Nuno Gonçalves a Sónia, “uma grande cantora”.

Sónia Tavares agradece e prossegue, sorridente e comunicativa, revisitando temas como Question of Love ou Music, a balada responsável pelo fim do concerto. A energia, o azul envergonhado do céu e a colorida moldura apresentada levam-nos a concretizar uma ideia: fez-se primavera durante a hora de atuação dos quatro portugueses.

Brindados por alguns raios de sol que alternavam com a chuva miudinha, os festivaleiros preenchiam todos os tempos mortos, muitas vezes tentando aceder aos divertimentos alternativos, como a roda gigante, ou aos passatempos promovidos pelos patrocinadores, como o karaoke organizado por um banco português. À semelhança do dia anterior, o tempo de espera era prolongado, mas não impediu que miúdos e graúdos se entretivessem com tais eventos, reforçando o sentimento de harmonia familiar.

Ainda há luz quando Joss Stone, descalça, sobe ao palco principal do Rock in Rio. Simpática e sorridente, é já presença habitual no nosso país, mostrando-se bastante extrovertida na companhia dos portugueses. Os fãs, encantados, não escondem a alegria por revê-la, nem a admiração pela beleza da artista, uma verdadeiro ícone da música pop contemporânea.

Stoned Out of My Mind abre caminho a um concerto enérgico e vibrante, marcado pela proximidade do público e a cumplicidade que, com ele, Joss mantém. Embora pouco entusiasmada com os novos temas, a plateia reagia com braços no ar e apupos. Era impossível ficar indiferente à força da natureza que, movida por um registo soul e por uma melodiosa voz, cantou Karma e Put Your Hands on Me. Ficariam ainda reservados uns momentos para uma versão de You Got the Love, originalmente gravada pelos canadianos The Source and Candi Staton, e popularizada por Florence + The Machine.

Aproveitando para sentir a energia dos portugueses, Joss aproxima-se das grades, saudando o público, extasiado pela oportunidade de cumprimentar a cantora. O concerto não termina sem antes se entoar Fell in Love with a Boy, canção que a catapultou, e o reconhecido Right to be Wrong, um dos mais famosos temas da sua carreira, a justificar uma reforçada e sonora salva de palmas. Jovial e descontraída, Joss Stone mostrou merecer a repetência no festival lisboeta, depois da sua primeira participação ter ocorrido em 2008.

A noite cai, o ambiente pulsa. E agora é possivel compreender a amplitude e complexidade de artistas como Adams e Wonder. Atraem variadíssimos estilos, diversos setores sociais, imensas gerações. Desde o bebé recém-nascido que, ao nosso lado, vai dando sinal de si, ao adepto old school, saudoso do seu atribulado verão de 1969. E eis que, sem mais demoras, Bryan sobe ao palco, empunhando uma guitarra. Recebido com uma forte ovação, o artista canadiano – que passou parte da juventude em Portugal, quando o seu pai foi nomeado embaixador – revisitaria todos os seus êxitos, num admirável e admirado espetáculo de duas horas.

Bryan é um autêntico showbusiness man: canta, diverte, mexe-se, toca, comunica, ri, emociona-se. E o público, rendido, vai respondendo, a cada momento, desfrutando de cada letra, cada riff, cada nota. Somebody, a segunda música do alinhamento, faria arrancar a nostalgia dos corações, os sorrisos dos rostos, a energia do corpo. Movimento, cantoria e muita alegria definiam o rumo do concerto, conduzido pelo experiente músico e a sua banda, que interagia constantemente com o público e arriscava expressões em português.

A jovialidade de Adams é notória, e a força e o empenho que imprime a cada atuação é dado adquirido: ao longo de todo o concerto, incansável, movia-se por toda a extensão do palco, dialogando com os músicos, comunicando com os fãs, divertindo os presentes. Embora conte já com 52 primaveras, a desenvoltura e o ritmo que dele se apossam conferem-lhe uma incessante energia, capaz de fazer inveja a muitos miúdos imberbes de 18 anos. A atuação eleva-se com clássicos como 18 Til I die, Summer of ’69 – sonoro coro, êxtase total, palmas sincronizadas, assobios de contentamento – ou Everything I Do, irrepreensível momento, pleno de luz oriunda dos milhares de telemóveis e isqueiros em riste, sincopados com a balada. Durante a atuação, tempo ainda de chamar ao palco uma fã (aleatoriamente?). Vanessa Silva, cantora e atriz, foi a escolhida para entoar When You’re Gone, cantando e dançando em frente a 69 mil pessoas. Heaven veio logo a seguir, trauteado coletivamente.

A panóplia de clássicos não se esgota, baralhando por vezes os aficcionados. Ao nosso lado, alguém tentava recordar-se do nome de um êxito, sem sucesso. “Esta também é boa”, repetia, à medida que outros temas passavam mas o “seu” era ignorado. Afinal tratava-se de Run To You, o primeiro single do álbum Reckless, a obra-prima de 1984, que contou com uma estrondosa ovação. Straight from the Heart e All for Love poriam um ponto final no alargado concerto, que permanecerá por muito tempo na memória de todos. Bryan Adams despede-se com um “beijinhos, Portugal”, e Portugal manda-lhe cumprimentos. Um verdadeiro artista de palco, que terá 18 até morrer.

Para encerrar o palco Mundo do penúltimo dia do festival, quem melhor do que Stevie Wonder? Um singular artista, que há muitos anos não pisava o solo nacional, aproveitou o carinho das dezenas de milhares de pessoas – muitos dos quais teriam vindo por ele – e iniciou um carismático e comunicativo concerto, mergulhado no soul e r&b do astro da música. Oscilando entre a sua keytar e o piano elétrico, entoou logo temas como My eyes Don’t Cry, Contusions ou When I Fall in Love, momento emocionante, e que gerou um forte aplauso em todo o recinto. Dono de uma boa disposição contagiante, Stevie prosseguia, com palavras de conforto para os portugueses. “Se não tiverem ninguém em casa, pensem que eu vos amo”.

Acompanhado por uma numerosa banda, composta por uma série de músicos experientes e estrondosas vozes, Wonder não se acanha, viajando pelo melhor que a soul e a funk proporcionam, reinventando temas, tocando deitado, cantando com garra. Um romântico inveterado, um apaixonado que apaixona todos aqueles com quem contacta. I Just Called to Say I Love You é cantada em uníssono, com casais abraçados, acariciando-se, partilhando momentos de cumplicidade. O amor circula no ar e Stevie propaga-o. É tempo de Master Blaster e Isn’t She Lovely, dois clássicos que deixam o público rendido.

A viagem tinha agora término com as irrepreensíveis Superstition e As, canções incontornáveis no percurso de um dos mais lendários nomes da soul, que assinou o primeiro contrato com apenas 11 anos. É certo que a Motown não se arrependeu. 51 anos depois, Stevie Wonder é um dos maiores artistas da história da musica, encantando plateias como quem encanta serpentes.

Reportagem: Daniel Veloso.                             Fotografias: Rita Sousa Vieira.