John Mayer é dono de uma carreira algo alternada, talvez porque sempre fez o que lhe deu na gana. Contudo, as raízes sempre lá estiveram, nós sabemo-lo, e o apaixonado Born and Raised só as veio fortificar, para nosso deleite.

Após os seus dois primeiros trabalhos, Room for Squares (2001) e Heavier Things (2003), nada adivinhava que Mayer nos pudesse oferecer um dos melhores álbuns da década passada. Os dois álbuns iniciais foram obras menores de grande sucesso, fruto da sua musicalidade fácil, letras melosas e refrões catchy. Apesar disso, houve em si, logo desde o início, qualquer coisa que prometia. Havia algo de diferente ali pelo meio, uma qualquer veia oculta.

E o que traz o ano de 2005? A revelação do verdadeiro coração blues do músico, através da formação do John Mayer Trio, contando os talentosos Pino Palladino e Steve Jordan. Um ano depois, somos surpreendidos com o brilhante Continuum, uma verdadeira declaração de amor ao blues, sem colocar de parte a sonoridade pop e as letras formato coração quebrado – mas a verdade é que Mayer nunca o fez e dificilmente o fará.

Naturalmente, Continuum trouxe a Mayer a grande responsabilidade de fazer mais e melhor. Battle Studies (2009) desiludiu nesses termos. É um álbum que funciona quase como uma revisitação aos primórdios da sua carreira. Este quarto trabalho tem, todavia, tanto de pop fácil e rentável como de contagioso, e Mayer sabe como fazê-lo e fá-lo com qualidade e, cada vez mais, de forma madura. É álbum para nos acompanhar durante umas horinhas, pontualmente.

Já o fresquíssimo Born and Raised trouxe ao músico a redenção. É difícil precisar de que baú saiu isto, mas não nos admiremos. Quem o acompanha conhece as suas raízes. Born and Raised está para a folk como Continuum está para o blues.

Queen of California dá-lhe início de forma entusiasmante e cria um cenário adequado. Canção elegante, dá vontade de partir em busca de caras bonitas. É fácil perceber por aqui que o velho Mayer está de volta e de onde desencantou a inspiração para este novo álbum – até a referência a Neil Young está presente.

O pequeno épico de nome The Age of Worry é mais uma interessante lição de vida que Mayer tem para nos ensinar. É um tema que fala da idade das preocupações, para a qual jamais seremos suficientemente velhos, portanto, “que se dane”, vivamos e sorrimos nesta idade. Canção curta, transpira força e pede por um pouco mais, mas é suficientemente inspiradora.

Segue-se o primeiro e único single até ao momento. Shadow Days foi uma escolha acertada, por sinal. Ilustra inteiramente o espírito do conjunto e a maturidade que Mayer tenta atingir com este álbum. Não é mais do que um pedido de desculpas por toda a asneira que fazemos enquanto humanos. Dura, mas não perdura.

httpv://youtu.be/daGcpvxPbCo

Speak For Me é uma das mais bem conseguidas. Funciona como uma espécie de pedido de auxílio, numa geração que celebra o que não é suposto. Melodia absolutamente encantadora, aprimorada por um poema igualmente poderoso. Segundo o músico, resta-nos o passado.

Continuum vem-nos inevitavelmente à memória graças a Something Like Olivia. É blues, extraordinariamente groovy, e foge um pouco ao espírito do álbum, o que não tem de ser necessariamente mau. Não é memorável como outras, mas sabe bem ouvir.

Roda Born and Raised, que dá nome à obra. É Mayer puro, sem sombra para dúvidas, e quase que podia encaixar em qualquer outro seu álbum, mas ainda bem que está aqui. Um perfeito equilíbrio lírico e musical torna-a um dos pontos mais altos da obra. É lamechas, um pouco à moda antiga, mas incrivelmente bela. Para escutar, infindavelmente.

Pelo contrário, If I Ever Get Around to Living e Love Is a Verb não encantam especialmente. Não como a antecessora, pelo menos. Melodias agradáveis, mas é pouco provável que venham a ser as mais rodadas.

Dificilmente é possível lembrar um adjetivo que faça jus a Walt Grace’s Submarine Test, January 1967, a obra-prima de Born and Raised. É um pequeno conto que nos relata o sonho do incompreendido Walt Grace em construir um submarino. Ele consegue-o, à custa de algo. Aqui tudo funciona absurdamente bem, tão bem que não vale a pena discuti-lo, apenas ouvir. A única coisa a lamentar é o facto de que John Mayer dificilmente repetirá algo tão grandioso.

Whiskey, Whiskey, Whiskey é a solução para um Mayer mais desesperado. É suficientemente competente e dá vontade de repetir a dose, mas não tem um brilho especial – e é repetitiva.

Podendo perfeitamente ser parte de Battle Studies, A Face to Call Home é uma réplica mais primária do passado do músico e uma prova da relativa inconsistência desta nova obra. Dificilmente fica na memória.

É a sonoridade country do reprise de Born and Raised que encerra o álbum. Não ocupa um lugar especial, mas a intenção também não é essa, Mayer apenas nos quer dizer que está um homem feito.

Born and Raised é um belíssimo trabalho – notoriamente mais narrativo do que o usual – que apenas incomoda por alguns temas menores. Serve como redenção ao seu antecessor. Não faz o brilharete de um Continuum e está longe de ser tão consistente, mas é poderoso e vale a pena lembrar e relembrar durante muito tempo. Resta saber a faceta que Mayer vai adotar para a próxima.

Nota final: 7,5/10