Os Ena Pá 2000 prometeram um «concerto historicú» no Ritz Clube e a verdade é que a noite de ontem teve mesmo alguns momentos para a posteridade. Com a colaboração especial de 6 convidados de renome e os melhores êxitos na bagagem, foram duas horas muito quentes. Este artigo tem bolinha vermelha no canto.
Em Dezembro, quando o Espalha Factos reportou a apresentação do Álbum Bronco, no Musicbox, pensávamos ter esgotado os adjectivos para descrever a performance de Manuel João Vieira e companhia. Mas o concerto de ontem foi muito, muito diferente. Se, na altura, usámos “cabaret” metaforicamente, ontem a expressão roçou o seu sentido literal.

Nada melhor do que Alice e A mulher portuguesa para o início da rambóia. Numa noite longa, o whisky, a patilha comprida e o moustache de um público maioritariamente quarentão contribuíram para uma sintonia perfeita com o que se viria a passar na sala lisboeta.

O primeiro convidado a entrar em cena foi Tim, que se apresentou assumidamente como um Gajo Normal, música do último álbum da banda, em que teve participação especial. Cumpriu sem excentricidade, desviando modestamente o protagonismo para os Ena Pá 2000. Não tão discreta foi a chegada de Rui Pregal da Cunha que, com Paixão, proporcionou o primeiro refrão cantado a plenos pulmões e braços a cortar o ar. Não obstante a banalidade do tema e o seu cheiro a pó, quando se trata de apelar às memórias, o público é quase sempre unânime.

A vaidade do vocalista dos Heróis do Mar foi facilmente ofuscada por Romina, anunciada como «sobrinha do Alberto João» , que foi a primeira da sala a tirar a camisola em fuga ao calor, surpreendendo até as vontades mais descaradas. Despiu-se de facto, entenda-se. O “brinde madeirense” voltaria a deixar o público de queixo caído na segunda parte do concerto. Mais pormenores sobre a sua envolvência com João Manuel Vieira ficam reservados para quem lá esteve. Romina conquistou discipulado e não tardou até que os mais acalorados da plateia se começassem a desfazer das suas camisas.

Antes de uma curta pausa, tempo para Quero Foder Contigo, tema do alinhamento que nunca se pode contornar.

A segunda parte promete desde logo mais dança, com os temas antigos Um Gajo Muita Fixe e Foz do Arelho a contribuirem para a crescente euforia da plateia.

httpv://www.youtube.com/watch?v=vwzc8N69kqc

JP Simões, à semelhança do que acontecera com a prestação de Vitorino da primeira parte, teve algumas culpas no cartório no que toca ao esfriamento dos ânimos. Com uma participação pacata, recuperou o dueto antigo com Manuel João Vieira Canção do Jovem Cão e trouxe algum decoro ao espectáculo. Estes dois momentos mais calmos permitiram não só restaurar algumas energias, como arrefecer os corpos e acrescentar diversidade à noite. Cai sempre bem umas pitadas de pimenta na língua.

Depois de O meu Cão é Paneleiro, é tempo de sermos brindados com Jorge Palma, possivelmente o nome mais aguardado da lista de «convidados espaciais». Tarda a chegar e o atraso é maquilhado com o tema Os Marcianos. Para evitar mais embaraços, Manuel João Vieira arrasta-o desde o camarim. Com a necessidade de encher chouriços, o icónico Phil Mendrix – que na primeira parte esteve quase sempre escondido atrás das bailarinas acompanhantes – aproveita para brilhar e galvanizar os seus devotos fãs.

As suspeitas em torno da demora de Jorge Palma confirmam-se com a sua entrada, num estado de completa embriaguez. Essa Miúda, em vez de cantada, foi balbuciada e quase “vomitada”. Não deu para esconder a tremenda confusão gerada em palco, com os acordes da banda a não conseguirem sintonizar-se com os sons ébrios (e simulados, por vezes) que saíam da guitarra do músico convidado. Este estado do artista é, infelizmente, cada vez mais frequente e profundamente lamentável, pois vai manchando cada vez mais uma carreira ímpar. As imprecisões técnicas ficaram a nu principalmente neste momento, mas o improviso foi tónica dominante desde o início e nem sempre as coisas correram bem.


A noite compôs-se com Marilú na versão alentejana, quando Vitorino regressa ao palco, e logo a seguir no seu formato original já com todos os convidados de volta. És Cruel põe fim ao concerto – o maior êxito da banda não deixou ninguém parado.

Ritz Clube respirou durante mais de duas horas o odor da boémia e da promiscuidade. Nos rostos de um público com jovialidade para dar e vender, entrevia-se a sensação de lufada de ar fresco, um escape a um tempo que já pouco perdoa. Na noite de ontem isso não se confirmou. O palco foi, do início ao fim, uma passadeira gentil para o desfile do forrobodó e do vício, onde não faltaram os bafejos no cigarro e o copo sempre menos despido que alguns corpos. No fim de contas, o concerto valeu cada cêntimo do bilhete, já para não mencionar o arregalar dos decotes, sem “encargos adicionais para o consumidor”.

«Vamos ganhar à troika» foi o remate dado por Manuel João Vieira, ele que sempre que toma as rédeas nos faz esquecer a desgraça e o augúrio.

O drum n’bass, dubstep e electro deram continuidade à festa no Ritz; ficou a vontade de ser mosca e ter passado pelo camarim.

Texto de Pedro Pereira e Rui Ramalho

Fotografias: Rui Ramalho