O desejo de liberdade, nas suas formas mais selváticas, vagueia por Manhattan, no novo filme de David Cronenberg. Ao protagonista Robert Pattinson é dada a oportunidade de se afastar da personagem que o tornou famoso, na saga Twilight, entrando num projecto muito diferente de qualquer um em que já tenha estado envolvido. Já o realizador, parece ter voltado às origens com este Cosmopolis.

Com produção portuguesa, de Paulo Branco, o filme trouxe Cronenberg, Pattinson e Don Dellilo, o autor do livro que lhe deu origem, a Lisboa, que marcaram presença nas duas antestreias da passada terça-feira. Cosmopolis tem dividido a crítica um pouco por todo o mundo, mas é certo que ninguém lhe fica indiferente.

Depois de Um Método Perigoso, filme que se afastou um pouco da originalidade característica do realizador, Cosmopolis é, claramente, um regresso ao passado e aos filmes que marcaram a carreira de Cronenberg, como Videodrome (Experiência de Alucinante). Aqui, não há medo de mostrar nada, nem obsessões, nem violência, nem sexo. Ainda assim, o mestre parece estar ainda algo “tímido” em Cosmopolis.

O filme segue Eric (Robert Pattinson), um jovem milionário de 28 anos, que quer atravessar a cidade por um corte de cabelo. Mas o dia escolhido não é o melhor para a sua limusina fazer esse percurso, e, durante aquelas 24 horas, muitas mudanças acontecem.

A adaptação do romance de Don Dellilo por Cronenberg oferece-nos uma história cativante, com momentos verdadeiramente emocionantes ou mesmo inesquecíveis. Cosmopolis é um filme de limites, ou devo dizer, sem eles. Um corte de cabelo é a premissa e razão para atravessar a Manhattan no dia da visita do presidente, com a cidade num caos.

E é através do protagonista que todos os limites são testados. Por ele e pela própria sociedade. O jovem milionário revela uma ambição desmedida, quer por dinheiro, como por sexo, ou mesmo pela arte. A insistência na compra da Capela Rothko é um óptimo exemplo disso. Eric procura sempre mais, algo novo, mas vive meio perdido entre as suas obsessões.

Durante a atribulada jornada até ao barbeiro, no dia menos propício possível, Eric cruza-se com diversas personagens que se encontram com ele na sua limusina, acrescentado cada uma delas sempre algo mais à história. Através das conversas que se estabelecem podemos conhecer melhor a personagem principal, as suas manias, bem como descobrir um pouco sobre cada um dos intervenientes. Todos eles estão ali por um motivo.

É num único dia que a vida de Eric muda por completo. À medida que experiencia toda a revolta e loucura que acontece à sua volta, o protagonista começa a desafiar-se a si mesmo. O medo da morte, que residia na sua obsessão pela saúde, pela segurança, vai desaparecendo à medida que nos é revelado o seu outro lado, um que quer provar a dor. O trailer do filme revela-nos já muito desse lado da personagem principal.

Os encontros que Eric tem nesse mesmo dia com a sua mulher espelham igualmente a sua personalidade dúbia. O seu olhar alienado, consegue, por vezes, inquietar. Mas não é unicamente ele que parece esconder algo, também ela não parece ser a mais equilibrada das pessoas, sempre com a obsessão (afinal de contas justificada) de que o marido a trai. “Cheiras a sexo”, repete ela por diversas vezes.

O que talvez possa distrair ou deixar os menos entendidos na matéria um pouco mais entediados com Cosmopolis são todas as conversas sobre economia que vão decorrendo. Contudo, esse é um dos temas centrais para toda a história. A queda do yuan e a consequente queda de tudo o que está perante os nossos olhos. Tudo parece começar a desmoronar-se, aos poucos, ao longo deste dia. Desde Eric à própria sociedade. É inebriante assistirmos aos protestos dos anarquistas nas ruas, e ao aparente fascínio do jovem ao vê-los querer levar à letra a citação que surge no início de Cosmopolis: “A ratazana tornou-se a moeda de troca”.

Ainda quanto ao protagonista, ele parece encontrar uma espécie de liberdade sem limites fora do carro, dentro do qual tudo está sobre o seu controlo. Lá fora esse controlo escapa-lhe, mas a sensação de liberdade é consideravelmente maior. Nesta viagem rumo ao barbeiro, tudo isso se vai adensando até ao final. Um final, definitivamente, brilhante e completamente imprevisível, com os diálogos mais marcantes do filme.

Cronenberg não quis descurar o elenco, apesar da escolha um pouco surpreendente de Robert Pattinson para protagonista. Juliette Binoche encanta-nos com uma interpretação que, apesar de curta, é apaixonante, aliada à sua beleza. Paul Giamatti prova-nos uma vez mais o excelente actor que é, dando tudo o que tem na pele do misterioso Benno Levin. É muito o brilho que emana de Giamatti. No elenco, destaque também para outros nomes: Samantha Morton, Kevin Durand, Emily Hampshire, Sarah Gadon ou Mathieu Amalric.

Quanto a Pattinson, as dúvidas eram muitas quanto à estrela de Twilight. A fama não abonava muito a seu favor e a dificuldade em deixar de estar associado ao vampiro que o catapultou para a ribalta é realmente muita. Cosmopolis será o primeiro passo para que o actor tudo faça para deixar de ser associado a Edward Cullen. Apesar de ser inevitável a comparação, Robert Pattinson não se sai mal como Eric. Não brilha (passo o trocadilho), mas consegue transformar-se bem num jovem obsessivo, colocando perante nós um ar alienado que não nos deixará confortáveis. Mais perto do final de Cosmopolis, o jovem actor parece soltar-se, fazendo esquecer toda a sua filmografia anterior.

As cenas de violência, mais gráficas, estão de volta, se bem que não no seu expoente máximo, e parece que temos Cronenberg a querer regressar ao “body horror” que o caracteriza. Também a influência da tecnologia está presente em Cosmopolis – muito longe, por exemplo, de Videodrome, é certo –, retratada, neste caso, no carro do mais equipado e futurista que há, recheado de computadores e aparelhos electrónicos. Já em termos técnicos, o realizador nunca deixa ficar mal. Também a direcção de fotografia, a cargo de Peter Suschotzly é de grande qualidade e a banda sonora de Howard Shore, responsável por tantas bandas sonoras de filmes memoráveis na história do cinema e de quase todos os filmes de Croneneberg, confere ao filme uma envolvência ainda maior.

Cosmopolis é um filme carregado de metáforas, com um protagonista que nos guiará por muitas transformações em apenas 24 horas. Não é uma obra-prima do realizador, mas não deixa de extasiar, de chocar ou mesmo de apaixonar. Um filme para amores e ódios, um retrato de uma sociedade perturbada, do lado obscuro de cada um de nós.

7.5/10

Ficha Técnica:

Título Original: Cosmopolis

Realizador: David Cronenberg

Argumento: David Cronenberg, a partir do livro de Don DeLillo

Elenco: Robert Pattinson, Juliette Binoche, Paul Giamatti, Sarah Gadon, Samantha Morton, Mathieu Amalric, Kevin Durand, Jay Baruchel, Emily Hampshire

Género: Drama

Duração: 108 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.