E se de um momento para o outro os censores do Estado Novo ganhassem uma voz própria num espetáculo de teatro? Agora é possível com Três Dedos Abaixo do Joelho. A Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II é ocupado por Gonçalo Waddington e Isabel Abreu, numa peça encenada por Tiago Rodrigues no âmbito do Alkantara Festival deste ano.

No fundo juntam-se recortes: documentos, fotografias, nomes, frases marcantes. Vários figurinos aguardam para serem vestidos. Cadeiras dispersam-se irregularmente pela sala. Um serviço de chá no carrinho destinado ao efeito. A ação começa.

Clarifica-se a intenção da peça, a noção do trabalho construído. Não quer ser uma referência, uma obra de arte, um marco na história do teatro. Ainda assim quer deixar a marca, abordando os assuntos que marcaram uma geração que pisou os palcos. É preciso colocar o dedo na ferida, ainda que rindo disso, para perceber que o presente poderá sempre trazer vestígios dos tempos de ditadura.

Uma viagem pelos clássicos da dramaturgia e aos novos valores da representação que queriam subir aos palcos portugueses. Os atores dão voz aos relatórios que Tiago Rodrigues encontrou na Torre do Tombo relativos à censura no teatro na época salazarista e marcelista. Rapidamente se revelam os motivos que estiveram pela não-autorização da exibição das peças ou pela opção de excluir determinadas passagens.

A moralidade de um povo que não devia fugir aos cânones do que era politicamente estabelecido surgia como razão primordial. O medo de que o espetáculo ao vivo conseguisse passar os valores, a mensagem. O reconhecimento do perigo constante e da importância do teatro na sociedade, um canal mais efetivo para transmissão de ideias do que qualquer outro meio – quando as pessoas se juntam para ver teatro a mensagem coletiva torna-se uma ameaça constante ao bem do regime.

A ironia marca o tom desta peça, que não tem medo de forçar o exagero para conseguir tornar efectivo o seu propósito. As palavras e a interpretação associam-se ao vídeo, à música e às legendas para formar um espectáculo na sua completude. A estranheza inicial logo se torna um conforto a que sabe bem assistir. Não se opta pela seriedade, até porque é mais fácil criticar quando se aborda uma postura descontraída em relação ao assunto sobre o qual se debruça.

Torna-se único conseguir compreender o outro lado da questão da censura que tão poucas vezes se fala. Perceber as suas razões: proteger o público de valores desvirtuantes e que o afastariam da suposta felicidade. Compreender a arma teatral nos palcos e fora deles e transpor para o atualidade.

Mas o teatro mantém-se firme apesar de todas as violações que sofreu ao longo dos anos. Uma máquina poderosa, de características únicas. É necessário manter como primordial a vontade de o dignificar, independentemente dos censores que o queiram pôr abaixo. São múltiplas as abordagens, as opções cénicas, as obras, mas uma coisa mantém-se constante: a vontade de mostrar a vida em palco, com todas as suas facetas.

Três Dedos Abaixo do Joelho é um trabalho jovem, fresco, bem-disposto, com um espírito crítico muito peculiar, com uma interpretação dos atores que constitui muito da essência da peça. Até 3 de junho, vale a pena sair de casa e assistir. Nem que seja porque os censores ainda andam por aí escondidos.

Fotografias: Rita Barbosa (capa) e Magda Bizarro (artigo)