O Festival Eurovisão da Canção voltou a chegar ao fim e Portugal voltou a não conseguir ganhar. Infelizmente, e pelas piores razões, isto não constitui qualquer novidade. A negligência da RTP em fazer uma preparação condizente com a dimensão do evento em questão é gritante e são cada vez mais as vozes que pedem a ‘privatização’ da participação no Eurofestival.

A HISTÓRIA

Em quase 50 participações na Eurovisão, o nosso país é o que tem o pior histórico de resultados, sem qualquer vitória ou mesmo algum resultado acima do quinto lugar. A culpa nunca foi dos intérpretes, e nalguns anos até nem da RTP, mas antes de um festival demasiado politizado e que só transparecia as relações diplomáticas entre os vários países europeus.

O envio de canções desadequadas, com raro interesse naquilo que a nível europeu ia resultando foi uma constante nestes anos de participação portuguesa. Constante essa ainda mais notória nos resultados, dada a falta de vizinhança do nosso país, cujo voto ‘tradicional’ vinha apenas de Espanha.

http://www.youtube.com/watch?v=3gVpu4-G5Mg

Nos últimos anos, particularmente depois da introdução do televoto, Portugal poderia ter crescido com a ajuda do voto emigrante – embora isto não chegue, até porque temos de ter em conta as enormes diásporas de países como Arménia, Azerbaijão, Ucrânia, Roménia ou Turquia – e com a facilidade em enviar temas mais populares e apelativos, driblando as escolhas viciadas e conservadoras dos júris de cada país. Nunca o conseguiu.

Entretanto, e após verificar que o televoto contribuía para agudizar a predominância dos países de Leste no topo das preferências, optou-se por um sistema misto – de 50/50 – em que o gosto mais tradicional da escolha nacional podia ser valorizado. Acabámos por perceber que este novo júri não era bem o mesmo que, nos anos 80 e 90 tinha levado à vitória as mesmas fórmulas musicais de sempre. Agora o júri internacional era o eco do gosto dos eurofãs e não da suposta qualidade musical desejada para o certame.

A AUSÊNCIA DE VITÓRIAS

Olhando para as escolhas portuguesas nos últimos anos, parece que o Festival RTP da Canção se encontra, em grande parte, anacrónico, e que, para além disso, a forma como têm sido apresentadas as canções portuguesas continua dissidente daquilo que é bem-sucedido a nível europeu.

No entanto, em 2008, as campainhas de alarme soaram nos ouvidos dos responsáveis pela delegação portuguesa. Podia estar a chegar uma carga de trabalhos. A boa performance de Senhora do Mar, segunda classificada na segunda semifinal da Eurovisão 2008, aclamada pelo público presente em Belgrado e amplamente elogiada pela imprensa no local, podia trazer o Festival pela primeira vez ao nosso país.

http://www.youtube.com/watch?v=3oq6tvvTO6M

A esperança fez-se ouvir na voz da comentadora Isabel Angelino, que chegou a dizer que tudo indicava «sermos nós os próximos anfitriões», e o país vibrou com a participação – quinto programa mais visto da televisão portuguesa nesse ano – mas, no fim de contas, um sorteio azarado e que colocou a canção a seguir ao intervalo comercial, bem como o eterno voto ‘vizinho’, acabaram por afastar a música portuguesa das suas ambições vencedoras.

No entanto, o aviso estava dado, bastava subirmos ligeiramente o nível da nossa participação e conseguíamos figurar entre os favoritos.

Não se deixou voltar a acontecer – no ano seguinte, os Flor-de-Lis tiveram uma honrosa participação mas sempre distante de um élan vencedor e com Filipa Azevedo as melhores expectativas colocavam-nos sempre fora da final. Um bom sorteio ajudou e lá acabámos por conseguir classificar-nos em 18.º, não sem antes termos deixado em casa Canta por Mim, a preferida do público e da Europa e terceira classificada no OGAE Second Chance Contest desse ano.

http://www.youtube.com/watch?v=XbI5oxC-EL4

Percebíamos o que se estava a passar – limitações orçamentais e incapacidade por parte da delegação responsável pela Eurovisão estavam a levar a uma autossabotagem da RTP.

A PARTICIPAÇÃO DESTE ANO

O Festival da Canção deste ano foi espelho da vontade portuguesa em continuar longe dos bons resultados. Fechou-se a seleção, que vinha aumentando de qualidade nos últimos anos, a compositores selecionados que foram chamados à última hora e manteve-se um júri penalizador do gosto popular.

Filipa Sousa acabou, ainda assim, por ser uma vencedora unânime. No meio de tantas más canções, a sua boa interpretação e o bom esforço de Carlos Coelho e Andrej Babic, chamados em cima do joelho e após a desistência do compositor Jorge Fernando, acabaram por merecer a aprovação do voto popular e do júri – a escolher corretamente pela primeira vez.

A canção, um fado lounge com toques de tango, não era um sucesso imediato, nem sequer tinha um refrão especialmente orelhudo, mas tinha qualquer coisa que a distinguia, muito além da esquecível balada de 2010 e de tantas outras ao estilo Disney.

Os sons étnicos, bem como a determinação da intérprete, que viveu intensamente a sua experiência eurovisiva e foi merecedora da admiração de todos os fãs, davam esperança para uma boa prestação. No entanto, a pouco e pouco fomos dando conta que pouco ou nada mudaria em relação aos anos anteriores. Filipa é que pagou as despesas promocionais, a música não teve qualquer melhoria da final nacional para a fase ‘eurovisiva’ e a apresentação em palco, coreografada por Marco di Camillis, não trouxe nada que valorizasse a performance. A juntar-se a isto, nem os planos da realização foram bem escolhidos.

http://www.youtube.com/watch?v=DqvSSzd1QhI

Enquanto assim for, em absoluto laxismo, muito difícil será que deem conta das nossas participações, uma vez que, mesmo em Portugal, já são poucos os que ainda conhecem as músicas representantes nacionais.

Resta saber se a RTP continuará a tentar organizar o Festival ou se será possível a sua ‘transferência’ para um dos outros canais generalistas, caso interessados numa adesão à União Europeia de Radiodifusão. Ou mesmo se a privatização de uma das licenças do serviço público permitirá a migração do Festival Eurovisão da Canção e o aproveitamento do mesmo como aquilo que é – o maior espetáculo televisivo mundial.