O segundo dia da 5ª edição do Rock in Rio Lisboa ficou marcado pela enorme afluência do público, incapaz de escapar ao chamamento lançado por bandas como Offspring ou Smashing Pumpkins.

São notórias as diferenças em relação ao primeiro dia de festival, dedicado à música pesada e ao imaginário metal.  Assim que avistamos a Avenida Dr. Arlindo Vicente, passagem obrigatória para aceder ao recinto do evento, no Parque da Bela Vista, apercebemo-nos de uma delas. A moldura humana presente no acesso é gigantesca, incomparavelmente maior do que aquela que compunha o espaço no dia anterior, à mesma hora.

Uma maré de festivaleiros enche toda a dimensão dos acessos, encavalitando-se entre as grades que delimitam a zona dedicada à fiscalização de mochilas e bilhetes. “Uma enchente à antiga”, diriam alguns. Embora a incomensurável afluência indiciasse o surgimento de confusões localizadas, o percurso fazia-se calmamente, sem grandes alaridos. A ansiedade, no entanto, era impossível de esconder, sobretudo por aquilo que o cartaz do dia poderia proporcionar.

A Cidade do Rock está cada vez mais perto, e é por isso o momento ideal para afinar gargantas, entoando os primeiros cânticos da solarenga tarde de sábado. Animados e divertidos, rindo e sorrindo, os fãs de Linkin Park, Limp Bizkit ou Smashing Pumpkins vão contornando a enfadonha espera, deixando os primeiros sinais da energia que, horas depois, libertariam por completo.

Mas, atentando neste público expectante, há um outro importante elemento, combustível das diferenças que inicialmente referíamos. Paira no ar um misticismo eclético, produzido pela heterogeneidade de bandas e gostos musicais que hoje compõe o Rock in Rio, e que se reflete, também, no tipo de indumentárias dos festivaleiros. A mancha negra do primeiro dia dá lugar a uma panóplia de cores e feitios, onde, para além da roupa afecta às bandas participantes, se destacam t-shirts de Led Zeppelin, Nirvana ou Ramones. Alguns universitários, contemplando ainda a dimensão do recinto, desabafavam: “Era aqui que deviam organizar a Semana Académica”.

As 19 horas são o momento exato de entrada em palco dos bem conhecidos Limp Bizkit. Com uma considerável legião de fãs em Portugal, foram muitos os que se deslocaram à zona oriental de Lisboa para garantir a presença no espetáculo de Fred Durst e seus comparsas. A banda, popularizada nos anos 90, não defraudou as expectativas, fazendo as delícias das massas. A transversalidade de gerações é patente: entre os saudosistas que relembram os tempos do liceu e os adolescentes que descobriram recentemente o grupo dá-se uma explosiva fusão.

Abrem-se as hostes com o clássico My Generation, motivo suficiente para se desenharem os primeiros circle pits e se iniciar uma viagem de mosh, que acompanharia todo o concerto. Destaque também para a indumentária de Wes Borland. Como é apanágio do músico, conhecido pelos seus múltiplos disfarces, Wes parecia, desta vez, saído diretamente do palco de um concerto dos Kiss.

Percursores do nu-metal, os Limp Bizkit trouxeram na bagagem grande parte das canções que os tornaram famosos, incendiando os espíritos com temas como Hot Dog, My Way, ou Take a Look Around, do seu mais badalado álbum Chocolate Starfish and the Hot Dog Flavored Water. “Can you feel it, Lisboa?” perguntava Fred, visivelmente encantado com a receção do público português. Depositário de uma energia sobrehumana, o coletivo brindaria os presentes com a balada Behind Blue Eyes, cantada, em uníssono, pela multidão. Para fechar em apoteose, nada melhor do que Rollin, que quase provocava um terramoto na Bela Vista. Este é o melhor dia para os Limp Bizkit desde há muito, muito tempo”, exclamaria Durst.

O dia prossegue, e a festa também. O sol faz-se sentir, em conluio com o calor, e a garganta ressente-se, pedindo que umas cervejas a refresquem. Os festivaleiros, acedendo ao capricho, fazem o gosto à sede. Um salutar convívio propagava-se pelos jardins da Bela Vista, e um espírito de familiaridade e partilha absorvia a alma de todos. Os divertimentos sucedem-se e multiplicam-se, e os presentes aproveitam-nos. Ainda que para o slide ou a montanha russa se previsse um tempo de espera de 2 horas, isso não demovia a multidão de experimentar aquilo a que tinha direito.

Os convidados seguintes para o Palco Mundo chamam-se Offspring e contam com quase 30 anos de carreira. Depois da última passagem pelo Rock in Rio em 2008, os norte-americanos tinham agora cerca de 80 mil pessoas esperando por eles, segundo dados da organização. O sol raia pelas últimas vezes, sincronizando-se com os primeiros riffs de Gonna Go Far Kid, o tema de abertura do concerto. Dexter Holland, de óculos escuros no rosto, saudava os portugueses, e prosseguia com All I Want, do álbum Ixnay on the Hombre. A moldura humana libertava as energias acumuladas, deixando as mãos no ar, trauteando as letras, agraciando a banda.

Embora pouco comunicativos e imóveis durante toda atuação, esquecendo a vertente enérgica que outrora os caracterizava, Noodles e companhia colmataram tal falha com a escolha de temas clássicos e orelhudos para o alinhamento, capazes de pôr qualquer um a cantar e a mexer. Com um entusiasmante rock, os Offspring foram também causadores de vários circle pits no recinto. Ao som de Walla Walla, Original Prankster  ou Get a Job – que pôs toda a gente a cantarolar -, a magia espalhava-se, ainda que alternada com alguns problemas de cariz ténico, que afectavam a sonoridade.

Mesmo assim, o espetáculo continuava, e com muita alegria. Hits como Americana, Head Around You, forjados pelos simples mas impiedosos riffs de Noodles e a assertiva voz de Holland, tinham efeitos na multidão, que se mexia efusivamente. Noodles teria ainda ocasião para referir a sensualidade dos portugueses, antes de se lançarem a Pretty Fly, o maior êxito da banda, e que contou com inauditos cânticos. Para terminar com mais movimento e mosh, nada melhor do que Kids Aren’t Alright e, já no encore, depois de um tímido agradecimento, Self Esteem avivaria a memória dos dias depressivos passados a ouvi-la.

A noite já ia alta quando, de um modo estrondoso, os Linkin Park entram em palco, arrastando consigo sonoras manifestações de contentamento. O carismático Chester Bennington, que partilha as vozes da banda californiana com Mike Shinonda, saúda o público, e a banda surge com uma bandeira portuguesa fixa no palco. Gritos, apupos, sorrisos, aplausos. Bennington e Shinonda, partilhando uma impressionante cumplicidade, cantavam e moviam-se em palco, para regozijo dos calorosos fãs, que esperavam há várias horas por aquele momento. Given up e Faint soltaram os primeiros coros da noite. O conjunto demonstrava que vinha a Lisboa para dar espectáculo e entreter os presentes.

Suados mas incansáveis, os músicos prosseguem o show, entusiasmando toda a multidão que, num rodopio, se movia e declamava cada verso de cada tema. Continuando, e contemplando apenas os dois singles de Living Things – o próximo álbum, prestes a ser lançado -, Burn it Down e Lies Greed Misery (momento menos entusiasmante da performance), os Linkin Park jogaram pelo seguro, apostando em clássicos como Somewhere I Belong, Leave It All the Rest Numb – um dos melhores momentos da noite – e Breaking the Habbit. Calcorreando uma carreira plena de êxitos, a excitação era agora provocada por What I’ve Done, uma das suas mais afamadas músicas. A plateia respondia com muito entusiasmo, movimento e voz. Voz que ecoava, saída das mais recônditas entranhas, derivado do esforço efetuado.

Numa prolongada atuação, que quase perfez duas horas, tempo ainda para Crawling, com Chester descendo até à primeira fila para sentir o intenso espírito que brotava do público, e regressando com um cachecol do FC Porto, para descontentamento de muitos. In the End, Bleed it Out – com uma ponte para Sabotage, homenageando os Beastie Boys – e One Step Closer encerraram o concerto em grande, com fãs extasiados e agradecidos, numa majestosa manifestação de carinho. Abriam-se agora as alas para Smashing Pumpkins.

A entrada em palco, antes da hora prevista, foi silenciosa. A presença de Billy Corgan e respetiva banda, Nicole Fiorentino no baixo, Jeff Schroeder na guitarra e Mike Byrne na bateria, só despertou a atenção do público com as primeiras notas saídas da guitarra de Corgan.

Apenas a banda preenchia um palco nu, iluminado pela alternância de cores primárias, mas não conseguia encher um recinto que após o concerto de Linkin Park foi sendo progressivamente despovoado. Fica a dúvida se, pela censura dos horários de transportes ou se, a julgar pelos espaços verdes a descoberto junto ao palco, esta era a noite indicada para Smashing Pumpkins. Seria de desconfiar à partida, pela ausência massiva de t-shirts com Zero estampado, que o público da Bela Vista não ia para ver o conjunto. A falta de misticismo antevia-se logo pela sobriedade das vestes de Billy Corgan, que nos  habilitou a outro estilo.

Entre os êxitos, cantados num coro a quem faltava pujança, recordaram-se os clássicos como Zero e Today logo a abrir, mas também a imprescindível Tonight Tonight e 1979. Com arranjos diferentes ou versões mais ou menos longas, fica registo da habilidade e da coragem por inserir no alinhamento Never Lost ou Ever Lasting Gaze. Se o público recebia com pouca empatia as músicas que marcam a discografia dos Smashing Pumpkins, o entusiasmo diminuía com a apresentação de novo material que compõe o aguardado Oceania, cujo lançamento está previsto para breve.

A banda (e o público, algum dele dormindo nas encostas do Parque Bela Vista), que voltou para o encore, parecia ter carregado baterias. Disarm e X.Y.U ou as versões de Space Oddity de David Bowie e Black Diamond dos Kiss fecharam a noite.

Billy Corgan não teve pressa em abandonar o palco, não sem antes receber a bandeira de Portugal e de agradecer morosamente ao público que aplaudiu e foi aplaudido. É conhecido o carinho do cantor pelo nosso país. Um concerto em que o ambiente não respondeu ao rasgar do rock da banda de Billy Corgan. Faltou emoção, faltou a chuva – recorde-se as passagens do colectivo por Cascais e pelo Optimus Alive! 2007 -. Faltaram as fãs chorosas na fila da frente.

Reportagem de Daniel Veloso e Rita Sousa Vieira