Passava pouco das 23 horas e 30 minutos do corrido dia 25, quando os Linda Martini pisaram o palco ainda fresco do renovado Ritz Clube, em Lisboa. Mau grado o sincronismo com a abertura do Rock in Rio 2012, a pouco e pouco o salão destacado para o concerto foi ganhando forma, tendo roçado muito de perto a lotação máxima. O concerto teve uma duração de aproximadamente uma hora e 20 minutos e contou com a irreverência e boa disposição de um público essencialmente jovem-adulto.

 

“Não foi na Semana Académica é no Ritz Clube”: palavras de  André Henriques (guitarra/voz) que abriram caminho ao ritmo epilético de Cronófogo, um dos singles do EP Intervalo. A plateia mostrou-se solidária com a observação um tudo-nada irónica que, no fundo, deixou ainda em aberto a controvérsia gerada na sequência de um cancelamento algo enigmático por parte da organização da SAL 2012.

A banda portuguesa de math rock (com origens vincadas no punk rock) não deixou passar ao lado o facto de esta atuação significar, em grande medida, uma espécie de regresso do filho pródigo. Segundo Hélio Morais (baterista), foi precisamente no Ritz Clube que a banda – como hoje a conhecemos – deu os seus primeiros passos em direção à sua formação: “há 11 anos atrás vimos aqui bandas que foram grande influência para nós”. Neste sentido, o concerto acabou por ser norteado por alguns vestígios de saudosismo e nostalgia, tendo efetivamente algumas das músicas sido endereçadas a amigos da banda em jeito de agradecimento. Linda Martini foi sinónimo de Ritz Clube e vice-versa.

Não terá certamente sido ao acaso a escolha do Ritz Clube para saudar a atuação da banda portuguesa. O painel de luzes foi constantemente preenchido por tons quentes e até mesmo melancólicos que, em simultâneo com a simplicidade do espaço, proporcionaram um ambiente profundamente intimista. Por isso e pela energia contagiante – que, durante todo o concerto, foi característica partilhada pelos quatro elementos da banda – o público foi-se envolvendo gradualmente no espetáculo, merecendo a condecoração de “quinto elemento“. Prova disso mesmo, foi o primeiro de variados moches, que detonou com a chegada do terceiro tema da noite, Nós os outros.

Além dos moches, não foram raras as vezes que a plateia ousou pegar no microfone e colaborar com os Linda Martini. E, se inicialmente este “pegar no microfone” era totalmente metafórico, com o aproximar do fim do concerto a expressão ganhou contornos literais e as cerca de 400 pessoas presentes fizeram-se ouvir nas colunas do Ritz Clube.

A comunicação entre a audiência e a banda foi especialmente louvável: de salientar um piropo vindo de uma pessoa do público que, dirigindo-se ao baterista Hélio Morais, afirmou “És o maior!“, ao que este respondeu modesta e comicamente “Isso é porque estou em cima do estrado”. Além de Hélio Morais e André Henriques, Cláudia Guerreiro e Pedro Geraldes revelaram-se incansáveis tanto no plano técnico como no plano do show em si, já que a excentricidade dos seus movimentos em palco foi também responsável pelo delírio na plateia. A atmosfera extasiante, que se fez sentir de início ao fim, culminou com a subida ao palco de um sem-número de espectadores. Primeiramente interditado o acesso ao palco por parte dos seguranças, foi dos próprios Linda Martini que chegou luz verde para que se efectivasse a ligação total entre público e músicos. Foi o ponto alto da noite.

O alinhamento foi diversificado e comportou 15 temas, sobretudo constituintes do álbum Casa Ocupada e do já mencionado EP Intervalo. Para fechar a sua atuação, a banda brindou a plateia com dois covers interpretados em inglês. A avalanche de aplausos que se seguiu, acompanhada de alguns brados de encorajamento e um ou outro cartaz que foram cair no meio do palco, foi, do ponto de vista do Espalha-Factos, totalmente merecida, não só pelo espírito galvanizante e bem humorado, como pela maturidade, que foram  as chaves para uma atuação de sucesso. Podemos arriscar dizer que os Linda Martini são cada vez mais uma consagração no panorama das bandas portuguesas de rock da atualidade.

Fotografias por Carlos Vieira