A quinta edição do Rock in Rio Lisboa teve ontem início, no Parque da Bela Vista, testemunhada por cerca de 42 mil pessoas.

E não era um dia qualquer. Tratava-se de um dia especial: o dia dedicado à música pesada, ao metal. Como começa a ser habitué neste tipo de festivais, uma panóplia de gerações cruzava o recinto do evento. Pais e filhos, e até mesmo avós e netos compunham o relvado da Bela Vista, unidos pela mesma razão: a paixão nutrida por bandas como Metallica ou Evanescence. Vestidos de preto, envergando t-shirts de míticos colectivos da cena pesada, como os próprios Metallica – que ganharam por larga maioria -, Sepultura ou Iron Maiden, alguns não esqueceram as motorizadas em casa, deslocando-se de Harley Davidson e completando o imaginário da cultura metal.

O Rock in Rio apresentou-se este ano com uma temática mais interessante, inspirada em Nova Orleães e nos seus elementos característicos. Porém, o festival voltou a mostrar profundas lacunas. Entende-se o objetivo ambicioso de tornar este festival uma experiência rica, com mais palcos e mais música e com a zona da Rock Street (colorida, em contraste com a maré de negro) a mostrar-se fervilhante, com atuações filarmónicas de rua, leituras de Tarô, dançarinos, homens-estátua e várias atividades interativas. O que não se entende é a profunda desorganização que se alastra pelo festival, com bandas a trocar de ordem sem prévio aviso e horários desfasados, situação agravada pela existência de um exército de trabalhadores voluntários perdidos e desinformados. À quinta edição do festival, não devem ser admissíveis este tipo de erros.

Num dia subjugado às lides extremas do metal internacional, é de estranhar a presença destoante desta entidade capitular na história da música portuguesa: os Mão Morta, acompanhados pelos Mundo Cão e valter hugo mãe. Contudo, a morbidez cáustica de Adolfo Luxúria Canibal, mesclada com as guitarras distorcidas e as palavras complicadas deixou os metaleiros de cabedal siderados, grudados aos espasmos corporais do vocalista vociferante, enquanto entoava Amesterdão, mais sombrio e atmosférico, ou Novelos da Paixão. Houve ainda espaço para Morfina e Cão da Morte, com Pedro Laginha e valter hugo mãe nas vozes, que pouco se ouviram, durante todos os concertos no palco Sunset.

Começando ligeiramente antes de Sepultura, os Ramp voltaram ao palco Sunset, depois de terem agraciado a plateia do Rock in Rio com a sua presença em 2010. Arrancando com Dawn, os Ramp davam sinais de que ia ser mais um concerto de qualidade, sem grandes surpresas, mas com uma boa adesão por parte do público. Mas houve. Se a colaboração com os Teratron (com Backyard Bully a assumir o posto vocal) parece bem na teoria, com o groove metálico dos Ramp a infundir-se com o electro dos Teratron, na prática resulta numa mixórdia sem que os dois elementos se cheguem a cruzar totalmente.

Partilhando o palco para vários temas, tanto de Ramp (Black Tie) como de Teratron (Go Skitzo), a colaboração não entusiasmou os presentes, que começaram a sair em debandada. Nem a respeitável cover de Firestarter (dos The Prodigy) por parte dos Teratron serviu para aquecer os ânimos. Tal só aconteceu quando os Ramp voltaram para o palco para tocarem, sozinhos, o trio de Blind Enchantment, How e Hallelujah.

Ainda o sol raiava quando a multidão se começou a digladiar para o enterro da mítica banda cadavérica, nos campos da Bela Vista, preparando-se, a infantília burguesa, para mal ouvir o porta-estandarte do movimento thrash metal brasileiro e espernear no mosh pit. Não confundamos com aforismos estilísticos sobre o sugestivo epíteto Sepultura, que já padecem de longo historial, centremo-nos antes na infeliz tentativa de miscigenação entre o tribalismo intrínseco a uma banda sul-americana, exacerbado por Cavalera, e um grupo de tambores reciclados, Tambours du Bronx, que, mesmo sendo interessantes, demonstraram-se pouco mais que uma bidonville musical.

Esta união, obrigou, obviamente, a que também uma faixa dos franceses fosse tocada, o que, num set de cinquenta minutos, intensamente povoado por Kairos, o mais recente trabalho dos brasileiros, só deu azo a um ínfimo regozijo nostálgico, com Refuse/Resist, Territory e, para fechar, Roots Bloody Roots. Esperava-se mais, mais tempo, mais clássicos, mais Sepultura, que não vinha a território lusitano desde 2009 e não chegou a matar saudades. É compreensível a experiência pirotécnica de abarcar elementos que relembrem o imaginário musical popular brasileiro, no entanto, assumiu-se como um devaneio de estúdio, infrutífero em palco, num palco que, mesmo ao fim de todos estes, tem saudades de Cavalera.

Uma das bandas do dia foi, sem dúvida, o panzer germânico chamado Kreator. Durante cerca de uma hora, os alemães deram uma lição de Thrash Metal aos mais incautos, variando o seu alinhamento entre temas mais recentes como Hordes of Chaos e Enemy of God com verdadeiras pérolas old-school como Endless Pain e Pleasure to Kill. Material velho ou novo, mais ou menos melódico, o que interessa é que Millie Petrozza e seus comparsas criaram o caos junto ao palco, com a sua música a causar crowdsurfing e circle-pits de intensidade imensurável.

Como não podia deixar de ser, também os Kreator tiveram direito a uma colaboração, desta feita, tocando um par de temas com Andreas Kisser dos Sepultura. O guitarrista brasileiro, apesar de já ter saído das andanças dos Thrash Metal há algum tempo, provou não ficar atrás do colectivo alemão, tocando exemplarmente um “petardo” como Extreme Agression. Tendo oferecido como presente Phantom Antichrist, o mais recente single a figurar o próximo álbum com o mesmo nome, os Kreator despediram-se do público português com a violência primal de Flag of Hate e Tormentor, prometendo ainda voltar num futuro próximo.

Entre concertos, tivemos ainda oportunidade de assistir ao concerto dos Miss Lava no palco Vodafone. Com o seu Rock cheio de músculo a soar ainda mais pesado ao vivo, os Miss Lava banharam o público com a sua prestação energética de faixas como Ride, Don’t Tell a Soul e Sleep With the Angels. Uma atuação quente, fazendo jus ao nome desta banda que se encontra em clara fase de ascensão.

Destaque também para outra das inovações presentes na quinta edição do Rock in Rio Lisboa: a Jukebox Crew, inseridos num espetáculo de breakdance e que entreteram os festivaleiros durante um bom par de horas, com inconcebíveis movimentos e uma tremenda elasticidade corporal.

Oito anos após a passagem pelo festival, em 2004, os Evanescence regressaram ao Palco Mundo para um concerto pujante e enérgico. Amy Lee, a vocalista da banda, surgia notoriamente entusiasmada com o regresso, reforçando a química que sempre ligou o colectivo norte-americano ao público português. Num cenário aprazível, com uma gigantesca moldura humana, os Evanescence justificaram, deitando por terra muitas críticas, o porquê de serem os escolhidos para preceder Metallica. Amy, um verdadeiro furacão musical, mostrou-se incansável ao longo da atuação, comunicando com o público e circulando por toda a extensão do palco. Acompanhada pelo mítico guitarrista Terry Balsamo, sempre tecnicamente competente, o grupo revisitou êxitos como Call me When You’re Sober – com o público a cantar em coro -, Lithium ou Your Star, escrita aquando da última passagem por Portugal.

Expressivos e vibrantes, os artistas prosseguiam, com uma sincronização admirável, e a adequada intensidade.  Com a profunda voz que a caracteriza, a vocalista continuou, agradecendo a bandeira oferecida pelos fãs e, sorrindo, finalizou com Bring me To Life, a música que os catapultou para a ribalta, acompanhada por um apupo do público. Embora esforçado e digno de reparo, a escassa motivação das 40 mil pessoas presentes marcou definitivamente o concerto dos Evanescence, apenas compreendida pela incontrolável vontade de garantir a chegada do quarteto mais aguardado da noite.

Era altura do surgimento dos cabeça de cartaz, os artistas por quem todos ansiosamente esperavam. Porque, verdade seja dita, mais de 70% do público vinha para assistir aos inconfundíveis riffs de Hammet e companhia.

Não se afigurando como o seu melhor trabalho, Black Album é dos mais importantes, tendo propalado os Metallica para um nível estratosférico de sucesso. Como tal, uma revisão a este marco da música pesada merece ser feita, tendo-se a banda proposto a tocá-lo integralmente ao vivo.

Atuação algo atípica por parte de uns Metallica que até há bem pouco tempo estavam empenhados em lavar a cara e serem de novo aceites dentro da família Thrash. Atípica porque a maioria do material de Black Album não é convidativo ao circle-pit e ao mosh (como se quer no Thrash), mas sim à cantoria em uníssono. Assim sendo, foi uma performance mais direcionada para os fãs casuais da banda e do Metal em geral.

Mas tais contradições não impediram o clássico quarteto de garantir uma impiedosa apresentação. Começando com a passagem de um excerto de O Bom, o Mau e o Vilão, aludindo à temática da morte e da presença em cemitério, os Metallica arrancaram com Hit The Lights, Master of Puppets e Fuel. Num ambiente festivo e familiar, os fãs acompanhavam, entoando as letras e mantendo os braços esticados. Após o apoteótico começo, tempo para iniciar a caminhada de Black Album, tocado de trás para a frente, e que foi introduzindo por um pequeno vídeo, recordando a época da gravação do trabalho. My Friend of Misery, Nothing Else Matters ou God That Failed reconfortaram o espírito dos presentes, rendidos à mestria instrumental de Trujillo, Hammet, Hetfield e Ulrich. Comunicativos e interativos, brincalhões e profissionais, o encore guardava clássicos como Fight Fire With Fire – que contou como uma literal chuva de fogo – One – acompanhada de múltiplos lasers e explosões localizadas – e Seek and Destroy, a habitual última música da banda em palco. Uma demonstração pirotécnica final fez as delícias dos presentes.

Mesmo tendo em conta algumas falhas técnicas localizadas de Hammett e  Ulrich, um concerto dos Metallica é sempre uma grande experiência, e para isso muito contribui a mestria de James Hetfield em comunicar com o público e o poder das grandes canções do grupo, que marcarão para sempre a história do Rock n’Roll. “Metallica loves you, Lisboa” diria Hetfield, antes de se retirar. Olhando para o extraordinário ambiente que se viveu durante o concerto, diríamos que o sentimento é recíproco.

Reportagem de Daniel Veloso, Tomás Quitério e António Moura dos Santos com fotografia de Rita Sousa Vieira.