O Teatro Gil Vicente foi o segundo palco da artista para apresentar o novo espetáculo Dirtday!, depois da passagem por Guimarães. Com a utilização de cores, luz e sons provenientes de vários instrumentos, Laurie Anderson questionou sobre Darwin, a ciência do sonho, a política e a humanidade a uma plateia quase lotada.

Para entrar no mundo de Anderson é necessário desligar-se da realidade por uma hora e meia e não se trata de uma obrigação a partir do momento em que o telefone fica esquecido no fundo da mala. Em Dirthday! faz-se pouco uso de vídeos e de músicas para dar lugar à narração, colocando-a como o elemento mais poderoso. A melodia do violino e do sintetizador acompanham o discurso. A realidade ficou do lado de fora da sala de espetáculo do Teatro Gil Vicente quando a artista entrou num palco recheado de velas no chão, com um cadeirão no lado esquerdo e os instrumentos dispostos no lado direito.

“The sight of a feather in a peacock’s tail, whenever I gaze at it, makes me sick”, disse Darwin um ano depois de ter publicado a obra Origem das Espécies sobre as caudas dos pavões. Por outras palavras, a teoria do cientista para explicar a evolução e sobrevivência dessas mesmas caudas recaia na escolha das fêmeas. Os pavões mais bonitos, com caudas compridas, seriam os escolhidos pelas fêmeas para acasalarem. Os genes dos parceiros escolhidos passavam para as gerações seguintes. É este o primeiro tema escolhido pela artista para começar a questionar a Ciência e a Humanidade, do conjunto de histórias escolhidas para contar e com os Estados Unidos como cenário de fundo. 

Laurie Anderson #1

Um texto em português correu na tela de fundo consoante o discurso de Anderson, apesar de algumas falhas de coordenação ao longo do espetáculo. E a partir deste momento, são narradas e questionadas várias histórias com intervalos musicais. E se as fêmeas escolhessem um outro atributo do pavão para se sentirem atraídas? Quais seriam as consequências dessa nova escolha para o mundo animal? O que são os sonhos? Se dormi cerca de oito horas por noite então os meus sonhos têm cerca de 21 anos? Foram algumas das questões e reflexões colocadas pela artista numa bolha criada logo nos primeiros momentos em que as luzes na plateia se desligaram.

Ao contrário do que se seria de esperar não há espaço para atuação de nenhum tema de Homeland, último disco lançado por Laurie Anderson em 2010. Existe a valorização do quotidiano e o mais podre do ser humano. Substitui a palavra Terra por Dirty, por outras, Sujo no discurso. Utilizado o sintetizador para criar a voz do alter-ego Fenway Bergamot, declara que o planeta quer livrar-se dos seres humanos. O dueto entre o masculino e feminino de Anderson é um dos êxtases desta narrativa.

No meio de tanta melancolia, proporcionada pelo som do violino, a história de Lolabelle traz um sorriso à plateia. Falecida há cerca de um ano, os vídeos da cadela de estimação da artista a tocar piano tornam-se nos momentos mais cómicos para darem lugar logo de seguida a questões sobre a religião, sobre a morte. Qual é a relação entre a morte e o amor? Com a história de uma pessoa que chamou os amigos para narrar histórias quando lhe restavam apenas 24 horas para o fim da vida, a intérprete levou os conimbricenses para uma reflexão sobre o verdadeiro significado do amor. 

Laurie Anderson #2

Com uma boa dose de voz, narração e melancolia, Dirtday!  oferece pureza e reflexão a todas as pessoas sentadas nas cadeiras. Numa geração tão dedicada è tecnologia, às redes sociais, à superficialidade das relações construídas a partir de um computador, Laurie Anderson oferece pensamentos com uma boa dose de simplicidade. Com a gestão do tempo realizada de uma forma tão débil nas novas gerações, são oferecidos minutos de reflexão e de sonoridades límpidas. Uma verdadeira obra de arte.

Fotografia por Patrícia Cordeiro