Foi no passado domingo que os portuenses Dealema actuaram no renovado espaço do Ritz Clube, para regojizo da meia centena de fãs que ali marcavam presença.

Um dos mais importantes colectivos de hip-hop nacional viajou até Lisboa para apresentar o seu último álbum, A Grande Tribulação, lançado em 2011. Ainda que o concerto se tenha atrasado cerca de uma hora – certamente na expectativa de garantir a chegada de mais admiradores -, foram poucos os que se deslocaram à Rua da Glória  para assistir ao espectáculo de Fuse, Mundo, Maze e DJ Guze. De notar também a ausência de Ex-peão, mc nortenho e membro do grupo, que continua a recuperar de uma lesão na mandíbula. Mas tais desfalques não impediram os artistas de proporcionar uma intensa hora de música, carregada de ritmo e sentimento.

Fuse, Mundo e Maze dão as boas-vindas aos lisboetas. Com DJ Guze na mixagem, lançando os beats, os Dealema arrancam com uma música do álbum homónimo. A cena Toda, um clássico do conjunto, faz a plateia libertar os primeiros rasgos de energia, ainda que a timidez se mantenha. “Isto é um concerto entre amigos, sintam-se à vontade”, sugeria Mundo. O público aproxima-se uns passos, e a profecia continua, desta feita com Bofiafobia, numa crítica assumida à actuação policial e à sociedade da punição. Os mc’s movimentam-se, sincronizados com o beat, vociferando palavras, quadras, saídas em catadupa. Família Malícia e Mais uma Sessão são os sons que se seguem, ambos retirados de Arte de Viver, EP do ano transacto.  Comunicativos e divertidos, desabafam que o seu primeiro concerto em Lisboa foi ali mesmo, no Ritz Clube, em 2000.

Os anos passam, mas a motivação e a qualidade continuam. Mundo à direita, Maze à esquerda e Fuse no centro,  prosseguem a caminhada, agora ajudados por Ana Correia no tema A Fonte, extraído de A Grande Tribulação. Líricos e acelerados, ritmados e extasiantes, o percurso ruma em direcção a O que é Feito, numa menção à desilusão provocada pelo descrédito da cultura hip-hop. Maze assume o controlo, soltando Brilhantes Diamantes, um clássico protagonizado a meias com Serial, cuja temática se relaciona com a podridão da sociedade capitalista, desprovida de valores humanos e solidários. Léxico Disléxico e Tributo surgem logo de seguida, entre o timbre grave e potente da voz de Fuse e a pujança lírica e verbal de Mundo e Maze.

Os 50 fãs respondiam, perdendo a timidez, acompanhando as letras, destruindo os grilhões da vergonha. “Ia só pedir-vos que acabassem aqui com este fosso. Venham cá para a frente”, dizia Mundo. E em boa altura. Era hora de Sala 101, épico tema do álbum V Império, de 2007. A comunhão perfeita acontece, e o espectáculo atinge um estado superior, transcendente.

Regressando a Grande Tribulação, altura de Vigilância, música impregnada de crítica social, de desprezo pela sociedade de vigia, de punição, de formatação. Depois de estimulados pela plateia, e num claro sinal de união e interacção, uma pequeno momento, à capela, com Fado Vadio. “Às vezes tentamos pôr duas mil pessoas e não há este fantástico ambiente. Muito obrigado”, diriam.

A profecia dealemática chegava à recta final. Espalhada a mensagem e reforçados os avisos, o espectáculo aterrava com Última Criança e Nada Dura para Sempre. Os messias retiram-se, mas voltam para uma última canção: Tempestade Mental. Depois de atravessadas as montanhas e os desertos áridos, os Dealema provavam o porquê de serem um dos colectivos mais adorados do panorama nacional. Quem sabe não esquece. E estes senhores são sábios.

Fotos por: Alípio Padilha