Em 2005, Luís Miguel Rocha lançou O Último Papa, que o catapultou para o sucesso e tornou o primeiro autor português no top de best sellers do The New York Times. Com 36 anos e dois livros depois, o escritor natural do Porto continua a dar cartas na literatura com a ‘fórmula Vaticano’.

EF: A Sarah e o Rafael são as personagens da sua vida?
L.M.R.: Eu tenho muitas personagens muito queridas. A Sarah e o Rafael são, sem dúvida, algumas delas. E no livro que estou a escrever agora estão tão intensas que nem sei o que vai acontecer. Há personagens que eu gosto muito… Gostei muito do Gavache, achei-lhe muita graça. Apareceu-me agora uma personagem nova também muito engraçada, com uma tara especial. Eu até dos vilões gosto. Nos meus livros há um capítulo, que tem aparecido sempre, não sei porquê, em que se explica porque é que o vilão é vilão.

EF: Há sempre uma explicação?
L.M.R.: Há. Às vezes não tomamos determinadas atitudes porque sim, mas porque há um fundo no passado que nos faz ser assim. E isso fascina-me. Acho que ninguém é mau todo o tempo – ninguém é bom todo o tempo. Às vezes fazemos coisas porque o passado nos condicionou e não temos hipótese. É por isso que gosto muito dos vilões. Há um professor, em Faro, que esteve a analisar a minha obra e me disse, a respeito de um capítulo em que eu descrevia o vilão: “Acho que este capítulo foi o que mais gozo lhe deu escrever em todo o livro”. E tinha sido, não sei como é que ele descobriu. Os capítulos em que vou à profundidade das personagens são os que mais gozo me dão. Têm muito menos ação, mas mais profundidade, mais espessura. Permitem conhecer a personagem.

EF: Os leitores são importantes para a sua escrita?
L.M.R.: Muito. Quando escrevo é para os leitores, não escrevo para mim, embora quando estou a fazer investigação para escrever o livro esteja a procurar respostas para mim próprio, para me satisfazer. Ou quando tenho os historiadores ou os jornalistas a fazer uma dada investigação sobre determinado tema… estão a procurar respostas para eles, mas também para as minhas perguntas. E o engraçado é que, às vezes, mesmo não estando por dentro logo de início, faço as perguntas certas. Estamos embrenhados na investigação de tal maneira que tenho dúvidas e quero respostas. E quando me dou por satisfeito começo a escrever o livro.

EF: Quando tem a informação toda?
L.M.R.: Só quando tenho a informação toda, não é durante. A pesquisa é toda feita antes. Não pesquiso absolutamente nada durante a escrita do livro, são duas fases distintas. Sou uma espécie de escritor ‘de empreitada’, não me levanto à uma da manhã porque estou inspirado e vou escrever. Eu levanto-me de manhã, escrevo de manhã até à tarde. Depois paro e não escrevo mais nada durante o dia, só volto a abrir a loja no dia seguinte.

EF: E tem sempre em conta os leitores.
L.M.R.: Sim, penso sempre nos leitores quando faço investigação, quando estou a escrever os livros. E normalmente a Sarah ajuda-me, no sentido em que ela é o elo de ligação com os leitores. Ela sabe tanto da história como o leitor, ou seja, nada. E o leitor agarra-se a ela porque, à medida que ela vai sabendo, ele também sabe. Já não é o mesmo com o Rafael. O Rafael sabe sempre demais, à exceção d’A Mentira Sagrada, em que ele anda muito atrás. No próximo, já anda demasiado à frente. O Rafael está-se pouco marimbando para o leitor e para o que o leitor sabe… a Sarah quer saber mais, a verdade. É ela que permite ao leitor conhecer a história.

EF: Disse uma vez que “um escritor nunca tira férias”. Nem mesmo quando não tem um computador por perto. Escreve em qualquer local, em qualquer meio?
L.M.R.: Escrevo em qualquer lado. Por acaso devia ter trazido o meu bloco de notas para escrever… Tenho de terminar o livro. Há pouco diziam-me: “devias ter trazido o computador, não estás a dar autógrafos, estás a escrever!”. Não, escrever a computador não consigo, só passo a computador. E eu era um herege que escrevia os livros no telemóvel. Agora escrevo num caderno de notas, como toda a gente. Não dá para apagar, mas tenho a minha própria sinalética… Criei um conjunto de sinais que me permitem saber o que tenho de fazer quando estiver a passar aquilo. E sim, quando estou a criar, nunca paro. Imagina que as personagens vão fazer um trajeto dentro de uma cidade – normalmente são trajetos que eu faço, vou mesmo aos sítios, não os vejo no Google Maps – e não sei o nome das ruas. Escrevo “ver trajeto”. Ou seja, dou indicações a mim próprio para verificar mais tarde, porque acho que o truque está em não parar. Por isso, se forem ver o livro que está nos meus apontamentos e o livro final, são duas coisas completamente diferentes. É impressionante.

EF: Considera que os seus livros são apreciados mais pelo tema do que pela escrita?
L.M.R.: Sim, sem dúvida. A questão é que já vou no quarto livro sobre o Vaticano e as pessoas cada vez compram mais, o que quer dizer que também gostam da forma como escrevo. Se tivesse havido um retrocesso de vendas, pensaria que era só pelo tema. Mas não, se as pessoas estão cada vez a aderir mais, é porque de facto escrevo bem. No entanto, há que estar ciente de que o tema do Vaticano é fortíssimo.

EF: A Mentira Sagrada trouxe-lhe o reconhecimento aguardado em Portugal? Ou continua a ser lá fora que recebe um maior feedback das suas obras?
L.M.R.: Eu acho que o sucesso em Portugal sempre existiu, é um bocado mito dizer que nunca houve. O Último Papa vendeu 50 mil livros em 2006… um autor completamente desconhecido. Não posso dizer que não tive sucesso, era é pouco conhecido. E era completamente inexperiente, não sabia lidar com os leitores, dar entrevistas, fazer apresentações de livros, nada. Só sabia escrever. Depois comecei a perceber que um escritor é muito mais do que isso.
Há mercados muito maiores que Portugal, portanto o feedback tem de ser muito maior lá fora. No entanto, eu tanto quero ser publicado nos Estados Unidos, um mercado excelente, como na Croácia ou na Roménia, onde nem sequer me pagam. Quero é ser publicado.

EF: A Filha do Papa é a próxima aventura da saga. O que pode adiantar acerca do livro?
L.M.R.: É sobre um Papa do século XX que teve uma filha, que ainda está viva. Em si, isto não é nada de mais. Não condeno minimamente o Papa por ter tido uma filha, porque de facto percebe-se porque é que existe o celibato. Não tem nada a ver com santidade nem com tentações do corpo. Agora existe, mas não existiu sempre – os Papas é que decidiam, durante um tempo, se os padres podiam casar ou não. Até que se decidiu que não podem. Porquê? Se os padres casavam, a herança ia para a esposa ou para os filhos. Se não podem casar… fica para a Igreja. Nunca ninguém diz isto. Por isso, o facto de terem filhos não me choca nada. Acontece que, ao descobrir este Papa, ao investigá-lo, fiquei totalmente apaixonado por ele. Acho-o um Papa fascinante.

EF: Sente que é a sua ‘missão’ dar a conhecer ao público todas estas histórias?
L.M.R.: Para já, sim. Verdade seja dita, eu podia centrar-me sempre nisto. São dois mil anos de história, imagina as histórias que não existem… milhares. Portanto, eu podia dedicar a minha vida toda a isto. Mas também quero escrever sobre outras coisas.

EF: Então depois de 2013, cumprido o contrato com a editora Putnam para a entrega de um thriller religioso por ano, vai abandonar o Vaticano? Em que outros géneros o poderemos ler?
L.M.R.: Não vou abandonar o Vaticano, vou dar umas férias à Sarah e ao Rafael. Isto se o leitor e as personagens me deixarem. Vou tentar uma literatura histórica, mas também experimental. Quero experimentar coisas novas. O leitor é muito passivo, só lê. Mesmo que uma pessoa não descreva, ele descreve as personagens à sua maneira. Cada um tem a sua própria Sarah e o seu Rafael. E eu quero criar desafios que façam o leitor tornar-se mais ativo na leitura. Por exemplo, quero escrever um livro sobre um disléxico para dar essa experiência ao leitor, para que saiba o que é ser disléxico.

O Espalha-Factos publica aqui a segunda parte da entrevista. A primeira parte pode ser lida aqui.