Foi na companhia de cerca de 400 pessoas que os Força Suprema actuaram ontem, na sala da República da Música, em Alvalade.

O Megashow Força Suprema, nome dado ao evento pelo grupo, apresentou-se de uma forma especial. “Especial porque é o primeiro espectáculo nosso. A ideia foi concebida por nós, não há intermediários na organização. É tudo da nossa autoria”, afirma antes do concerto Don-P, membro do conjunto que, apesar de não cantar, se afigura como um dos alicerces da sua estrutura, assegurando várias tarefas no backstage.

 Mas voltemos atrás. Os Força Suprema, surgidos em 1997 em Queluz, são actualmente um dos mais reconhecidos colectivos de hip-hop do país. Agregando diversas influências, o rap é o pilar da sua música, misturado com o simbolismo de estilos angolanos como o kuduro e o kizomba.  “Seríamos hipócritas se não assumissemos que Boss AC e Black Company são duas grandes influências. Mas por termos muitas influências, quase podemos dizer que somos uma cachupa com bacalhau. Não é rap. É Força Suprema”. Compostos por NGA, Don-G, Masta, Prodígio e Don-P, o seu último álbum, De Corpo e Alma, data de 2006. Mas isso não significa falta de trabalho. Os álbuns e as mixtapes a solo multiplicam-se. A última, Mais quente que o Fogo 6, de NGA, saiu no início do mês, e garantiu cerca de 15 000 downloads nos primeiros dois dias. “Queremos que os admiradores nos peçam um novo trabalho, queremos sentir essa vontade por parte dos fãs, porque é isso que nos impele a trabalhar. Temos estado muito empenhados nos trabalhos a solo, mas queremos que nos exijam um novo álbum de conjunto. Sei que capacidade não nos falta”.

O evento foi mais do que um concerto. Começou cedo, por volta das 16h30, com uma sessão de tatuagens e piercings, que se prolongou durante a noite. Uma vertente que, para Don-P, foi também uma novidade. “É um conceito inovador, nunca realizado em Portugal”. Vários foram os fãs que aproveitaram para tatuar o corpo, enquanto aguardavam a chegada dos quatro magníficos. Alguns gravaram até mensagens de tributo ao grupo, demonstrando que o apreço pelos Força Suprema é eterno.

O recinto ia-se compondo, lentamente. O calor aumentava, e os primeiros ritmos soavam, pela mão do dj de serviço. Ritmos africanos, mesclados com samples de house e reggae music iam entretendo os presentes, garantindo os primeiros movimentos da tarde.

Ao mesmo tempo, o público espreitava a banca de venda de t-shirts, localizada junto à oficina de tatuagens. Esta era uma das outras surpresas preparadas pelo grupo. T-shirts com a inscrição “Força Suprema”, lado a lado com camisolas de Masta ou NGA. Os artigos iam fazendo a delícia daqueles que ali passavam. Muitos dos fãs traziam mesmo a indumentária com o nome dos rappers, realçando a sua presença e a dimensão do carinho que têm para com os artistas.  

Era agora altura da primeira actuação da noite. Os escolhidos foram os Swcker Boys. A crew, nova atracção da linha de Sintra, mistura duas das principais vertentes do hip-hop: a dança e o rap. O público, maioritariamente jovem, aproxima-se do palco em catadupa, sentindo o chamamento do primeiro beat. Os membros do Swcker, vestindo casacos inspirados no uniforme do exército, iniciam a actuação com grande vigor, dançando e encantando, apresentando as suas rimas. Influenciados pelos Força Suprema, e compostos por jovens artistas, transportam para a música as vivências das ruas da Linha de Sintra. Com alguma projecção em Lisboa, o conjunto ia animando a plateia, que seguia o ritmo e acompanhava as letras. Enérgicos e sincronizados, os oito rapazes faziam-se acompanhar por duas raparigas, também elas cantando e dançando. “Eu amo o hip-hop, eu amo o hip-hop”, garantia uma das canções.  Com um estilo característico da cultura rap, os Swcker Boys abandonariam o palco com uma considerável ovação, e um grande reconhecimento. “2007 comecei a fazer a minha cena/Mas nesse ano tive um pequeno problema/Porque apesar de ser graúdo ainda era miúdo/E a minha mãe me dava cocos pra continuar no estudo/E memo assim não tou arrependido, porque tempo no estudo não é tempo perdido/E hoje em dia é tempo reconhecido que graças à minha mãe nem tive tempo de ser bandido”.

A noite prosseguia, animada e acalorada, e era a vez de Tekilla, um dos mais afamados mc’s do hip-hop nacional, assumir o controlo. Amigo pessoal dos Força Suprema, a sua participação já estava anunciada. Contando com a colaboração de Agir num dos temas, Tekilla apresentou algumas das faixas do seu novo álbum, Contra Factos não há Argumentos, prestes a ser lançado. Apelando à descontracção e relaxamento dos presentes, e garantindo que “vocês não estão aqui no meio de estrelas, podem estar à vontade”, foi o elemento perfeito para preceder os artistas mais aguardados do evento.

Os ânimos exaltavam-se, e a ansiedade subia de tom. A maior parte do público, oriundo da Linha de Sintra, esperava ansiosamente a chegada de NGA, Masta, Prodígio e Don-G. E eis que essa chegada acontece. Uma gigante ovação toma conta da sala. Masta e Prodígio são os primeiros a subir ao palco. Comunicativos e descontraídos, como é seu hábito, cantam e encantam com as primeiras duas músicas. Don-G logo chega para os acompanhar, incendiando as almas. Faltava um dos elementos, talvez o mais aguardado: NGA. O “Rei da Linha de Sintra” entra e inicia com Tattos e Jantes, uma música do seu próprio repertório. NGA é verdadeiramente venerado pelo público, que o puxa e por ele grita, num sufoco de emoções e vontades.

Numa viagem de cerca de hora e meia por parte do repertório dos Força Suprema, a primazia foi dada a músicas a solo dos quatro magníficos, principalmente de NGA, Prodígio e Don-G. Numa mescla de ritmos e beats, houve espaço para canções românticas e calmas, influenciadas pelo kizomba – como Nossa última noite, Pensa em Mim e Minha carta de Amor -, e outras que, contando algumas das vivências do grupo, transportam o quotidiano de jovens boémios e apaixonados pela arte. Com duas invasões de palco pelo meio, consequência da adoração dos fãs, houve tempo para temas como Tou fumado, Uma Mboa, Bebem bué, ou We Made it, um dos momentos altos da noite. Para fechar, e já em apoteose, Qual é o Mambo, música recente de NGA, que obteve um enorme sucesso. Uma noite quente, com grandes momentos, que marcará a cultura hip-hop nos próximos tempos.

Depois do concerto, tempo para sondar NGA: “Estou cansado mas muito feliz. De uma forma geral acho que o público gostou. Tenho que agradecer à equipa toda.” Questionado sobre a projecção que o projecto tem vindo a ganhar e sobre as motivações dos cinco artistas, o Rei da Linha de Sintra é claro: “É como uma benção. É bom porque hoje percebo que temos fãs de todos os tipos, de todas as idades, de todas as cores. Para conseguir isto temos que pensar fora da caixa. Temos sorte porque só fazemos música. Mas a paixão é tanta, que é impossível dedicar-nos a outra coisa qualquer”.