Wuxia é um género literário e cinematográfico que mistura fantasia e artes marciais. Wu significa “marcial” ou “militar” e xia, significa “honrado” ou “herói”. Com uma origem que se perde no tempo, as histórias Wuxia contam as lendas de guerreiros de artes marciais, que com um grande sentido de honra, muito estudo e supressão dos seus próprios sentimentos em nome de um bem superior, conseguem ultrapassar todas as adversidades. Heróis de Outrora, Heróis de Agora é uma retrospectiva cinematográfica de como o século XXI (2000-2010), foi repescar estas estórias milenares e as actualizou aos dias de hoje, sem desprezar os seus antigos valores.

Há géneros que não conhecem barreiras. No entanto, é difícil imaginar wuxia sem ser, bem, na antiga China. Depois de anos afins de wuxia finamente coreografados e o sucesso de O Tigre e O Dragão, em 1998, o vizinho sul-coreano resolveu apostar no género, esperando talvez, a mesma recepção por parte das audiências. O resultado foi um hibrido sino-coreano que tenta emular a noção de espectáculo chinesa sem esquecer as fortes qualidades dramáticas da Coreia. O resultado foi um Bichunmoo de pouco menos duas horas, demasiado melodramático para seu próprio bem e demasiado falso para seu mal.

Na China do século XIV, sob o domínio Mongol, um jovem cresce, desconhecendo o destino dos seus pais. Jinha (Hyeon-jun Shin), como é apelidado, apaixona-se por Sullie (Hee-seon Kim), a filha ilegítima de Taruga (Hak-cheol Kim), um General Mongol. O namoro da juventude, a princípio tolerado, torna-se insustentável quando a mãe de Sullie morre. A mãe dela não era mais do que uma concubina e o seu destino pertence inexoravelmente ao seu pai. A sua beleza atrai Junkwang (Jin-Yeong Jeong) que se cruzara acidentalmente com Jinha e formara amizade com este. Quando descobre quem é o seu rival, não hesita em fazer tudo ao seu alcance para separar os amantes. Jinha é atacado mas sobrevive e passa os próximos anos planeando o momento da vingança. Há cenas de luta, com armas, com um golpe original e cenas com recurso a arma mas pouco mais. O essencial é o romance. O acessório a acção.

Tristão e Isolda, Romeu e Julieta e Jinha e Sullie. O seu destino é trágico como o dos amantes da lenda e da literatura. Infelizmente para as audiências, o seu romance nunca se torna mais do que um bocejo, em comparação com os nomes anteriormente mencionados. Lembram-se de Espada Quebrada e Neve Flutuante de Herói? Acreditem que quando acabarem de visualizar o filme também terão uma sensação de déjà vu. Na altura não consegui identificar o que era que me fazia recordar de modo tão intenso aquele par romântico mas outros críticos identificaram o meu foco de ansiedade. Contudo, o que Bichunmoo ensaiou, Herói sublimou. Jinha e Sullie podiam ter sido o casal trágico de referência mas não foram! E a sala de edição não foi nada amável. De três horas e meia de filmagens em bruto foram espremidos 113 minutos que explicam o facto de a estória ser a tempos confusa. E da hora e meia que foi recortada, muitas são as dúvidas sobre a qualidade do que foi extinto da versão que passou nos cinemas. Se Bichunmoo já é longo e fastidioso, nem queiram imaginar o que seriam as três horas e meia. Por outro lado, não sabemos se as opções de edição foram as melhores. Há sempre a possibilidade de que cenas marcantes e elos de ligação, colagens importantes, tenham sido eliminadas sem dó nem piedade. De qualquer modo, resiste uma peça que aparenta todos os sinais de ter sido brutalmente esquartejada.

Jinha varia entre jovem abandonado, doce mas corajoso com o homem duro e vingativo por quem poucos terão consideração e, muito menos, considera-lo-ão um herói. É por isso que é tão difícil entender o que viu Sullie nele, quando o presente é tão distante do passado. Quanto a Sullie, é interpretada por Hee-seon Kim, de quem já falámos na película The Warring States e onde demonstra, mais uma vez, ter nascido com lágrima fácil. Estive a esta distância de contar as cenas em que Sullie chorava. Tudo o mais é cliché atrás de cliché. Maus malévolos ao infinito, intriga e inveja, sacrifícios por amor, passados trágicos, segredos de artes marciais cobiçados por todos… Qual novela, com enredo circular. Só que apenas dá para andar aos círculos até certo ponto. E mais de duas horas já é exagero. É bom para novela mas é por lá que deveria ficar.

3/10
Ficha Técnica
Título Original: Bichunmoo
Realizador: Young-jun Kim
Argumentista: Young-jun Kim
Elenco: Hyeon-jun Shin, Hee-seon Kim, Jin-Yeong Jeong, Bang Hyep, Yu-jeong Choi e Hak-cheol Kim
Género: Acção, Drama, Fantasia
Duração: 113 minutos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.