Em 2005, Luís Miguel Rocha lançou O Último Papa, que o catapultou para o sucesso e tornou o primeiro autor português no top de best sellers do The New York Times. Com 36 anos e dois livros depois, o escritor natural do Porto continua a dar cartas na literatura com a ‘fórmula Vaticano’.

Faz da escrita a sua vida desde que se apercebeu do efeito que esta provocava nas pessoas. Escreve num bloco de notas, partindo de histórias da Igreja Católica para ficcionar. Afirma surpreender-se com as suas próprias personagens e gostar particularmente da profundidade dos vilões que surgem nos seus livros. Um ano após o lançamento d’A Mentira Sagrada, o autor regressa à tenda da Porto Editora, na Feira do Livro de Lisboa, para contactar com os seus leitores lisboetas. Entre autógrafos e questões curiosas acerca do Vaticano, Luís Miguel Rocha guarda uns minutos para falar do seu percurso na escrita.

Espalha-Factos: Imaginava que a sua vida ia rodar à volta da escrita?

Luís Miguel Rocha: Nunca, não imaginava. Foi por acaso, embora eu já tivesse percebido que a minha escrita provocava algum efeito nas pessoas. Quando andava na escola, decidi escrever uma história muito simples: o que é que acontece a uma moeda que é achada por um miúdo e todo o percurso da vida dessa moeda à medida que é trocada. O miúdo vai comprar um chupa-chupa e passa a seguir-se o dono do café, que entretanto dá troco a um cliente, e por aí fora, até a moeda se perder novamente. A minha professora achou tanta graça àquilo que, a certa altura, já me dava a nota mais um valor, pela forma como escrevia. E isso fez com que eu pensasse: “bem, já estou a ganhar coisas pela forma como escrevo, se calhar posso ganhar mais”.
Na altura estava a ler o Memorial do Convento e escrevi o primeiro capítulo d’A Virgem, porque achava que conseguia fazer igual. Tinha 16 anos, sabia lá o que pensava. Senti-me satisfeito, e uns anos depois fui reler aquilo e achei muita graça. No início não estava a perceber quem é que tinha escrito aquele texto, nem me lembrava que tinha sido eu. Depois terminei A Virgem, publiquei, e foi assim. Entretanto surgiu O Último Papa, já tinha publicado um livro, já sabia como era. E decidi prosseguir.

EF: A Virgem foi então o seu primeiro livro. Como foi completá-lo ao fim de tantos anos?

L.M.R.: Aquele tipo de narrativa é que me atrai imenso. Eu adoro escrever assim. Faz-me lembrar um radialista salazarista muito irónico, que fala à anos 40, com aquele palavreado todo rendilhado. O narrador é um personagem, é ele que decide o que se pode ver e o que não se pode: “agora vamos deixar a privacidade de não sei quem”. Acho muito engraçada toda a construção do livro. O meu único receio era se conseguiria manter aquele registo. E quando percebi que sim, continuei. Aquele é que é o meu registo, que se nota um bocadinho n’O Último Papa, muito menos no Bala Santa, quase nada n’A Mentira Sagrada e foi à vida no próximo livro. Vamos ver se, quando escrever a segunda parte d’A Virgem, consigo retomar.

EF: Está para breve?

L.M.R.: Quando me deixarem. Eu gostava muito. Mas agora acho que até tenho de ler o livro todo para perceber como vou continuar, porque já não sei a história. Há ali muitos mistérios, aquilo acaba num ponto fundamental.

EF: E porquê o Vaticano?

L.M.R.: Fui bafejado, não sei se por uma sorte se por uma maldição, de conseguir entrar em alguns meandros do Vaticano. Em literatura podia escrever uma coisa qualquer. O primeiro livro é sobre o final da monarquia e o início da 1º República e Estado Novo, não tem nada a ver com o Vaticano. Podia escrever sobre muita coisa. Mas às vezes aparecem-nos na vida pessoas, basta uma, para nos mudar completamente e pôr isto de pernas para cima. Eu conheci pessoas muito ligadas ao Vaticano, comecei a investigar também por conta própria… e a partir do momento em que começámos a investigar o Vaticano ficámos de tal maneira fascinados com aquela história que queremos sempre saber mais. E é isso que eu faço: divirto-me a investigar o Vaticano.

EF: Por detrás de um grande escritor, está uma grande equipa. Quem são estas pessoas que investigam para si?

L.M.R.: Tenho um historiador e duas jornalistas que investigam para mim, pessoas que já de si investigavam estas coisas, só que agora falam-me sobre o resultado das investigações. É muito fascinante o que eles descobrem… às vezes até tenebroso. Há informações que temos que, sei, nunca escreverei sobre elas, porque não quero. Porque acho que nem se devem contar. Faz parte de uma seleção pessoal: eu vou decidindo sobre o que quero escrever, com base nas informações que tenho. Neste momento podia escrever dez ou quinze livros sobre o Vaticano se me interessasse.
É importante escrever com rigor e para isso é preciso haver pessoas que façam investigações muito rigorosas e não há melhor do que jornalistas e historiadores para o fazerem. Eu não tinha tempo e tinha de viver em Roma… eles já vivem lá, passam a vida a investigar, são apaixonados por isto. Vão-me contando e às vezes penso: “epá, isso se calhar dá para um livro”. É assim que vamos sabendo curiosidades, percebendo como é que as coisas funcionam.
É preciso perceber que o leitor do thriller é extremamente exigente. É capaz de estar a ler o livro com uma enciclopédia ao lado ou com a Internet ligada ao mesmo tempo, para perceber as coisas. Não é por acaso que, nos livros do Dan Brown, houve um aumento de viagens a Paris. Eu também soube que, no Grande Hotel Palatino, onde se passam os meus livros, houve um aumento de 15% nas visitas de americanos.

EF: Diz que não é o Luís que manda nas personagens, são elas que mandam em si. Mesmo as ficcionadas?

L.M.R.: Todas. Principalmente as ficcionadas. Mesmo que use personagens reais, é sempre a perspetiva do autor daquilo que conhece, a minha impressão. É o que li e investiguei sobre elas que me faz conseguir descrevê-las. Por exemplo, eu não conheci João Paulo II, só posso ter uma ideia dele. Sabemos que estava sempre a esbracejar, por isso já se consegue fazer alguma coisa. Quando não há informações, vamos pela impressão que temos. As personagens ficcionais ganham vida dentro delas próprias.
O Agostinho da Silva dizia uma frase fabulosa: “Sei que sou eu que escrevo, porque estou a ver-me a escrever, mas não sei se sou eu que crio”. Há essa parte de desconhecido em que as personagens ganham vida, mesmo as históricas, e nós não sabemos porquê – todas falam e vivem de maneira diferente, pensam coisas diferentes. E cada uma tem a sua própria agenda: estão sempre a esconder do autor aquilo que querem fazer. Eu próprio fico surpreendido quando, às páginas tantas, penso: “ah, não fazia ideia que eras este”, ”afinal este é mau, não é bom”. E ao ser uma surpresa total para mim, será surpresa para o leitor. Ficava danado se o leitor conseguisse prever uma coisa que eu não previ. Mas tudo é possível. Às vezes pode ser tão perspicaz que já percebeu, eu é que ainda não.

O Espalha-Factos publica aqui a primeira parte da entrevista. A segunda parte pode ser lida aqui.