O Grupo de Teatro Miguel Torga (GTMT), da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, levou ao FATAL, que tem decorrido desde o dia 4 deste mês no Teatro da Politécnica, a peça Seis Personagens à Procura de um Autor, de Luigi Pirandello. O Espalha Factos falou com o encenador, Sérgio Grilo.

Uma encenadora, sempre frenética, tenta ensaiar os seus actores para uma peça de teatro quando quatro estrondosas pancadas se fazem ouvir como um anúncio de que algo inesperado surgirá. É neste momento que aparecem seis personagens, de uma mesma família, vestidas com excertos das suas falas escritas em branco sobre roupas pretas, de luto, condição que se revelará inalianável a este agregado familiar.

Irrompem o ensaio de teatro da encenadora que se mostra, primeiramente, furiosa por imperdoável interrupção, pedindo à família uma explicação para tal acontecimento. Esta família explica, então, que é composta por personagens inacabadas que procuram um autor para escrever a sua história de vida.

No início, a encenadora julga que os intrusos são apenas “doidos”. No entanto, o seu interesse é depois captado pelo relato do sofrimento que é sentido pela vivência em comum das seis personagens: um pai que se mostra arrependido, procurando o perdão, uma mãe a definhar de tristeza, um filho legítimo que nunca se sentiu amado e três filhos bastardos, entre os quais uma irónica enteada.

A encenadora aceita, entusiasmada, escrever uma peça sobre a vida destes seis elementos. É desembrulhando e colocando um tecido vermelho no chão que são reconstituídos episódios de um passado vivido pelos membros da família, em conjunto com os actores da companhia de teatro, enquanto o “ponto” da companhia dactilografa a história. Segundo Sérgio Grilo, “Onde o espectáculo emerge é nas cenas [da vida das seis personagens]. Eu aí vi-me numa grande dificuldade: Como é que distancio aquilo que é a execução de uma cena dum processo de ensaio? Resolvemos trabalhar plasticamente, apostando nos recursos cénicos como o desenho de luz, o som – tudo isto para desenvolver a história em crescendo. Mostrar ao espectador o que é um processo em evolução.”

Sérgio Grilo aborda esta parte específica de Seis Personagens à Procura de um Autor – a da reencenação dos episódios do passado da família –  recorrendo a diferentes linguagens corporais dos actores do GTMT de maneira a que fosse, segundo ele, “Mais física, mais marcada, para dar um ar mais hiper-realista. [Os actores do GTMT] mudam de registo”.

No entanto, com o trabalho de encenação e representação por parte da encenadora e dos actores da companhia, as seis personagens começam gradualmente a perceber que o que se passa em palco não é reprodução fiel da realidade. Contrariando essa acusação, a encenadora defende que um actor é “menos real, mas mais verdadeiro”.

A encenação do GTMT revelou-se madura tanto pela parte dos actores, “supostos” amadores, como também pela parte do encenador, Sérgio Grilo. A construção da peça assentou, por exemplo, em notáveis jogos de luzes que ajudaram em intervalos peculiares: um falso, outro forçado. Com isto, o encenador explicou a intenção de “incluir o espectador dentro de um elemento de um ensaio. Mais do que de um ensaio, de um espectáculo”.

Os actores do GTMT de maior destaque – particularmente a actriz que representava a encenadora e os quatro actores que representavam as personagens que compunham a família (as outras duas personagens que perfazem as seis eram bonecos inanimados) – são aqueles que trabalham com Sérgio Grilo há mais tempo, há mais que dois ou três anos: têm acções de formação e workshops da faculdade e, segundo o orientador do grupo, são pessoas que têm, portanto, recursos para fazer Seis Personagens à Procura de um Autor, afirmando que “esta peça é difícil. Portanto, para eles que estudam e que estão a tirar um curso de medicina é particularmente complicado. Sem estes recursos é praticamente impossível. [Estas formações dão-lhes] a noção do que é o teatro, como funcionam as personagens, quais as várias metodologias”.

Quando confrontado com a questão da relevância da existência de grupos de teatro académico e do papel do FATAL, o encenador Sérgio Grilo declara: “Eu acho que o teatro nas escolas, nas faculdades, em tudo o que é associações tem uma relevância incrível. Para já, porque nós precisamos de educar o nosso público a ir ao teatro. Temos de explicar às pessoas que o teatro se ensina como a música. Isso é uma coisa que ninguém apreende. [No teatro] há metodologias que são centenárias e que instruem as pessoas a fazer teatro. E isso é muito importante que se passe nas associações e nas faculdades para que depois haja cada vez mais pessoas a ir ao teatro, para que haja cada vez mais iniciativas teatrais com este peso como o FATAL – hoje estava uma sala cheia! – que, de alguma maneira, mobilize pessoas às salas e as encha, que dê o desejo às pessoas de ver teatro.

É de maior importância e urgência o apoio e integração na sociedade portuguesa de inciativas como o FATAL que celebram a cultura. É nestes contextos que há a troca de saber, de experiências e vivências que elevam cada indivíduo a ser, mais do que um “cadáver adiado que procria”, um ser pensante, consciente e crítico em relação àquilo que o rodeia.

*Por escolha da autora,  o artigo foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945.*