A 5ª edição da Festa do Cinema Italiano aglutinou, durante quatro dias, as atenções da massa de apreciadores de cinema vimaranenses, cidade que já não estranha este tipo de militância (estranharia isso sim, porventura, o seu oposto).

A extensão vimaranense da Festa primou, acima de tudo, não pela quantidade de filmes – nunca poderia ser esse o objectivo – mas pela qualidade da seleção, feita com especial cuidado para a cidade que é este ano Capital Europeia da Cultura. “A melhor”, nas palavras de um dos principais responsáveis. Perante tais garantias, espírito aquietado.

A sessão inaugural apresentou-se pródiga em surpresas: uma generosa apreciação do trabalho de Ermanno Olmi pelo amigo, e também ele realizador, Mario Brenta, colocou o público a par do enquadramento da obra – presente e passada – de Olmi, um dos nomes mais respeitáveis do cinema transalpino. Depois, o que poucos contavam: Olmi a acenar ao público por vídeo previamente gravado para o efeito, explicando o filme a exibir, Il villaggio di cartone, a sua última obra.

Para sessão inaugural, este Il villaggio di cartone não foi um «prato» fácil de digerir. É, como efeito, uma obra de profunda reflexividade interior, filmada como se mais nenhuma arte existisse; apenas nós e a áspera realidade, enigmática porque eminentemente humana, labiríntica, dogmática, irracional, cruel. Aqui, Olmi propõe-nos uma desmaterialização do sagrado, da iconicidade religiosa, que acarreta consequências martirizantes para um padre, lançado numa espiral de questionamento da sua fé.

A Festa prosseguiu com Il Mio Domani, um retrato contemporâneo das relações amorosas, pela lente de Marina Spada.

Sábado, dia 5, contou com duas exibições: Corpo Celeste, de Alice Rohrwacher; e de Terraferma, de Emanuele Criasele, presença assídua noutras salas e um dos grandes atrativos desta Festa, epíteto que se veio a confirmar com toda a justeza.

Já no domingo, dia 6, mais duas propostas: primeiro, Sette Opere di Misericordia, de Gianluca e Massimo de Serio, com enfoque na crueza dos bairros de lata, e do desejo de uma jovem clandestina de escapar a um quotidiano asfixiante e onde apenas se sobrevive.

Mas a Festa terminaria em grande com a exibição do belíssimo Il Primo Uomo, uma produção ítalo-franco-argelina baseada na narrativa autobiográfica incompleta de Albert Camus, Le Premier Homme, que o autor não chegara a terminar devido a um acidente mortal de viação em 1960.

E trata-se, efetivamente, de uma magnífica obra a todos os níveis. É uma grande viagem à fase de menino de um dos maiores vultos literários do séc. XX, à fase onde toda a experiência psicológica e sensorial acarreta marcas indeléveis para a vida e a definem inteiramente. A relação com a mãe, a imperscrutável severidade da avó, e sobretudo a memória do pai gerem os movimentos tanto do menino Camus (Jacques Cormery no filme), como do Camus adulto, famoso, e intelectual amplamente reconhecido. O olhar contemplativo é o mesmo, as interrogações que o perturbam permanecem, inabaláveis, no fundo do baú das memórias da sua meninice, que lhe oferece tantas respostas como lança novas inquietações.

O passado nem sempre é um bom lugar, muito menos se ele permanecer recôndito, nas ruas labirínticas de uma Argel colonial, politicamente fervilhante, descontrolada, a tal que é debatida lá longe, em Paris, sem saberem do que estão a falar.

De 3 a 6 de maio, a Festa do Cinema Italiano levou muitos vimaranenses ao C.A.E. S. Mamede e ao Centro Cultural Vila Flor, no intuito de dar a conhecer o (bom) cinema que se vem fazendo em Itália e celebrar a sua riquíssima língua e cultura. Independentemente dos gostos e das avaliações individuais, uma certeza ficou: a de que esta Festa do Cinema Italiano tem espaço na cena cultural vimaranense. Para o ano, assim o esperamos, haverá mais.