Em seguimento do 1º de maio, que deu início à 8 ½ Festa do Cinema Italiano em Coimbra, os dias 2 e 3 viram-se preenchidos por curtas-metragens, filmes e documentários. O balanço final é, seguramente, positivo.

2 DE MAIO, 4ª FEIRA

Às 17h00, a Sala de Carvão da Casa das Caldeiras foi o local escolhido para a exibição do documentário Global Mafia, onde estiverem presentes os autores, membros da Students’ Union da Faculdade de Ciências Política da Universidade de Milão. Esta obra, com a duração de 45 minutos, procura desvendar diferentes interpretações sobre o sistema mafioso italiano e o seu funcionamento no íntimo da sociedade.

A habitual sessão de curtas-metragens IL CORTO, criteriosamente selecionadas pela organização do evento, teve lugar às 18h30 na sala de espetáculos do Teatro Académico Gil Vicente, numa mostra marcada pela imensa disparidade entre trabalhos, tanto a nível de execução como de qualidade.

L’ESTATE CHE NON VIENE 7/10

Três jovens encontram-se na mesma praia que a sua professora, com intenções de chumbar um deles devido ao seu aproveitamento escolar negativo, levando a que o trio seja repartido e o amigo perca um ano, e forçam-na a mudar de ideias, ainda que sem resultado. A situação toma contornos sérios e os amigos não sabem como reagir a este descuido intencional. É uma história promissora bem desenvolvida num modesto quarto de hora e dá-nos a sensação de que resultaria numa interessante longa-metragem, o que é bom. O questionável final em aberto dá, contudo, um toque especial à curta do estreante Pasquale Marino.

A CHJÀNA 6/10

Inspirada em factos verídicos, é a história de Ayiva, um jovem imigrante trabalhador, que, na tentativa de iniciar um dos motins raciais mais significativos de Itália, parte em busca do seu melhor amigo. É o trabalho mais hollywoodesco de entre as cinco curtas-metragens exibidas, obra de Jonas Carpignano, que já trabalhou com Spike Lee em O Milagre em Sant’Anna. As influências são notórias e o resultado é interessante, mas, enquanto curta, não dá para mais.

IN ATTESA DELL’AVVENTO 2/10

É difícil falar de algo que não compreendemos, como é o caso. Trata-se de um ensaio experimental constituído por imagens que, aparentemente, não têm qualquer relação entre si. São vinte minutos muito estranhos, ainda mais quando não há um pingo de contextualização. Vale pelo esforço de criar algo diferente (e isto já é uma prova de generosidade…).

DELLA MUTEVOLEZZA DI TUTTE LE COSE E DELLA POSSIBILITÀ DI CAMBIARNE ALCUNE 5.5/10

Um longo título que se traduz em forma de documentário algo experimental, ao catalogar diferentes testemunhos de vítimas do terramoto que assolou as zonas de Abruzzo, no ano de 2009. É agradável de assistir, mas não satisfaz suficientemente, e é complicado explicar porquê.

IL CAPO 7.5/10

O melhor trabalho apresentado durante a sessão. Tudo decorre na gloriosa pedreira dos Alpes Apuanos, onde o mentor toma o papel de condutor de uma orquestra, liderando a colossal maquinaria numa comunicação muda, mas eficaz. Tudo se move conforme os seus gestos, numa destreza de quem há muito aquilo faz. Podemos afirmar que é excessivamente repetitivo, sem dúvida, mas a sua execução é louvável.

SCIALLA! 6.5/10

A longa-metragem escolhida para a sessão da noite foi uma comédia da autoria de Francesco Bruni, o seu primeiro trabalho enquanto realizador, descrevendo uma história de pai e filho.

Luca é um jovem de 15 anos sem grandes esperanças de um futuro promissor, uma vez que os estudos não são o seu forte. Foi criado sem pai e sempre viveu com a sua mãe, que o inscreveu em aulas particulares com Bruno, um ex-professor. Tudo muda no dia em que a mãe de Luca se vê obrigada a partir e pede a Bruno que tome conta dele, revelando-lhe que o rapaz é seu filho. Assim assistimos a um choque de ideias e gerações completamente opostas.

A relação entre Luca, que continua sem saber quem é o seu pai, e Bruno é desenvolvida ao longo do filme por meio de piadas – algumas forçadas, outras previsíveis e uma ou outra que têm verdadeiramente graça – e situações constrangedoras provocadas pelo choque de personalidades. É nisto que se resume Scialla!, um descomprometido e agradável serão.

3 DE MAIO, 5ª FEIRA

QUI FINISCE L’ITALIA 6/10

A tarde do último dia da 8 ½ Festa do Cinema Italiano conimbricense, que teve início às 18h30, reservou-se a um documentário de origem belga. Desta vez foi tempo de Qui Finisce L’Italia de Gilles Coton, um retrato de retratos. Meio século antes, já Pasolini tinha feito esta viagem pela Itália do pós-guerra, agora Coton decide fazer semelhante tarefa, em forma de comparação.

A ideia é sermos também nós a fazer esta viagem. Os próprios momentos de filmagem dentro do veículo de transporte o sugerem. Conhecemos várias pessoas, algumas envolvidas em casos mediáticos por terras italianas, outras mais desconhecidas. Todas têm algo a dizer e nem sempre os comentários abonam a favor do país.

É um documentário que não consegue criar em nós a empatia e a intimidade que sugere, talvez porque os momentos que passamos com cada figura são tão breves que não conseguimos interiorizar algo de relevante, mas, tratando-se de um road movie, esse risco está sempre presente.

CORPO CELESTE 8/10

As 21h30 presentearam-nos, em forma de encerramento, com a melhor obra da 3ª edição conimbricense da homenagem ao cinema de Itália.

Corpo Celeste é um delicado retrato da vivência íntima no seio da Igreja Católica, aos olhos de Marta, uma menina de 13 anos. A sua família, originária da cidade de Reggio Calabria, regressa à sua terra natal após uma década na Suíça. Marta vive agora com a mãe e com a sua implicativa irmã mais velha e vê-se obrigada a iniciar o curso de preparação para o crisma. Don Mario é o padre da igreja local e Santa é a catequista responsável pelo grupo de jovens.

Marta encontra-se numa fase de dúvidas, questões e incertezas. Começa a sentir interesse na sua sexualidade, que dá os primeiros sinais de aparecimento, e a necessidade de questionar tudo aquilo em que vê envolvida. Naturalmente, o catolicismo e a sua imposição inserem-se aqui.

O desconforto que a jovem sente, desde logo, fruto desta brusca mudança, agrava-se progressivamente ao conhecer quem está verdadeiramente por trás desta organização religiosa. Tanto o padre como a catequista não são quem, inicialmente, aparentavam ser. Marta vê-se envolvida numa teia de hipocrisia e interesses que não favorecem a imagem que tinha da Igreja Católica. Ela não compreende por que é que as coisas funcionam assim e nós também não. Aliás, no fundo até percebemos, mas sabemos que não é assim que é suposto funcionar. Corpo Celeste é desconcertante e é assim que o queremos, cru e verdadeiro.

O balanço final da 8 ½ Festa do Cinema Italiano é positivo. Tivemos momentos mornos e outros mais promissores, assistimos tanto a escolhas negativas como a escolhas positivas, mas podemos falar de uma colheita frutífera. Por agora, resta-nos esperar pela próxima edição. Nós cá estaremos, contando com o que Itália tem de melhor para oferecer.