O Bisonte e Moe’s Implosion proporcionaram uma noite de quinta-feira visceral no Musicbox (Cais do Sodré, Lisboa). Os primeiros fizeram-nos transpirar toda a raiva contra uma sociedade materialista e hipócrita, e já meio abananados, ficámos de rastos – no bom sentido – com a versatilidade e a intensidade oscilante dos Moe’s Implosion.
O Bisonte espera que a sala se aconchegue e abre a noite com a voz de José Mário Branco em FMI, identificativo do trabalho da banda e mote para um alinhamento de gritos de revolta, preenchido com o novo Mundos & Fundos mas sem esquecer o melhor de Ala, o seu primeiro disco.

Entram a todo o gás com Tudo de Bom e um poster de uma revista Playboy que o vocalista Davide Lobão atira para o chão com desprezo (ficou depois afixado num amplificador em Moe’s Implosion). A irreverência não foi mascarada nem se resumiu a um episódio agendado: O bisonte é indomável de princípio ao fim e não dá mostras de cansaço.

No início ficou a sensação de que as letras, que são imprescindíveis, não eram completamente perceptíveis, mas rapidamente o som pareceu ter melhorado. A mensagem passou.

 

Depois de Matilha dos Tristes e com o público a responder à letra, a banda agradece a receção: «É bom ver o Musicbox mais cheio do que na última visita. É sinal que isto está a dar alguma coisa e, principalmente, que vocês estão a dar alguma coisa à música nacional». Em tom satírico, o vocalista acrescenta: «’Música nacional’ soa tão mal, não é?».

A envergadura das músicas seria suficiente para incendiar o público, mas a forma persuasora como Davide Lobão fita e encoraja cada um dos presentes acaba por ser a chave para uma atmosfera de cumplicidade que exaltou mesmo os (aparentemente) mais recatados.  Simula poses sensuais, provoca-nos, pede barulho e explode na voz.

«Se calhar é altura de deixar de acreditar numas coisas e começar a acreditar noutras»: as letras d’O Bisonte estão carregadas de cariz social e político, explítico em Lendas Del Rey D. Sebastião, um dos temas do novo álbum. Mais do que todo o ímpeto, há no grupo nortenho uma séria consciência cívica.

Quase sem nunca abrandar a marcha (só conseguimos recuperar fôlego na intro de 6 estátuas) o ponto mais alto é, previsivelmente, Laia, do primeiro álbum, cantada a plenos pulmões por todos. O concerto acaba com Músculo. Como começou e como foi, aliás, ao longo de quase hora e meia. Não são demasiado brutos nem demasiado barbudos para nos alegrar.

A pausa entre os concertos foi demasiado prolongada, fruto da necessidade da revolução no cenário do palco. Mais do que para poder descansar, temíamos que fizesse esmorecer a energia.  A sala manteve o espírito familiar mas ficou ainda melhor composta, para um concerto que conseguiu intercalar com mestria momentos de distorção depressiva, blues e malhas que simplesmente não nos sentimos capazes de descrever, de sensações tão confusas que provocaram.

Ao contrário d’O Bisonte, a banda apostou num jogo de luzes caótico, que teve um forte papel na inebriação geral.

Em Tip of Tongue sobem pela primeira vez ao palco Francisco Menezes, com o saxofone, e Inês Laranjeira, para acompanhar João Sancho na voz. Gravaram com a banda o álbum Light Pollution e tiveram um destaque bastante positivo no concerto. O saxofone conseguiu ganhar o seu espaço entre as teclas e de braço dado com os solos de guitarra – maravilhosos, ressalve-se. Reconhecemos a Inês de outras paragens pela voz, que continua doce e fofa, mas agora sem o ar frágil de tempos antigos.

Bem patente o prazer enorme de todos os músicos em palco, próprio de quem cria e mostra o produto com alma: um dos guitarristas passou parte substancial da atuação a fazer headbanging, e as imagens do ar triunfante do baterista quando vê um prato prestes a soltar-se não podiam deixar de ser partilhadas.

De facto, a demora entre os concertos valeu a pena. O incontável número de pedaleiras revelou a sua utilidade na quantidade de efeitos arrebatadores. Conseguiu distinguir-se cada som de tantos instrumentos coordenados e cada um deles espicaçou-nos de forma diferente. Os Moe’s Implosion souberam gerir o ritmo do concerto, ora pondo a malta em delírio furioso, ora a invadir as almas de nostalgia. Conseguimos reconhecer algumas influências, como por exemplo If Lucy Fell, estampada na t-shirt do baixista Frederico Severo, mas há mais, muitas mais, numa sonoridade que deambula sem tropeçar em estilos musicais tão distintos que muitos nunca acharam que se pudessem tocar.

Acabam com o refrão cantável de Doctor, 103FM e o instrumental Sexo em Fá, cientes da missão cumprida.

Não é fácil tocar depois d’O Bisonte. É um prazer partilhar palco com ele e, sobretudo, partilhar uma grande amizade”, atira João Sancho, em mais uma mostra de companheirismo entre as duas bandas.

Saímos do Musicbox embrulhados num turbilhão de sensações, e eufóricos, a lamentar o facto de termos de descrever o que tinha acabado de acontecer e a imaginar como teria sido se tivéssemos bebido mais uns copos. Enfim, baralharam-nos todos os sentidos.

Fotografias: Rita Sousa Vieira