Com demasiada frequência, os artistas contemporâneos limitam-se a criar um modelo e a explorá-lo exaustivamente, ao ponto de este perder o interesse e, sobretudo, o sentido. Tal não tem acontecido na obra de Yayoi Kusama, apesar da sua tendência para conceber motivos repetidos; é que a sua obsessão por abarcar o mundo tem-na conduzido a utilizar variadíssimos media, da pintura à escultura, do desenho à performance, do filme à instalação. O seu universo está agora ao nosso alcance, numa retrospetiva que tem lugar na Tate Modern de Londres, até ao dia 5 de Junho.

À entrada, recebe-nos uma notável coleção de desenhos iniciados na década de 50. As suas formas abstratas e orgânicas e galáxias inquietantes são, na sua maioria, o resultado das obsessões e alucinações que Yayoi Kusama parece canalizar nestes trabalhos de incrível perícia.

Os padrões de bolas são uma marca distintiva da sua obra que remonta à infância no Japão; para Kusama, são também um símbolo de paz e amor que aplicou às mais diversas superfícies: ao seu próprio corpo, aos dos participantes nos happenings e performances desenvolvidos nos anos 60 e 70 em Nova Iorque e ainda a animais, casas, árvores e rios, entre outros. A conotação popular e divertida das suas polka dots adquire outras dimensões quando estas bolas são reduzidas a pontos infinitamente prolongados em telas. É o caso da série Infinity Net, desenvolvida ao longo de toda a sua carreira e cujas composições delicadas e habilidosamente executadas, onde predomina a cor branca, constituem de igual forma uma tentativa de transmitir e libertar as alucinações experienciadas pela artista. Perante essas redes infinitas, enquanto espectadores, quase experienciamos o delírio ao tentar focar o olhar.

A mesma lógica repetitiva e obsessiva surge na série de escultura flácida Accumulations, constituída por objetos – desde sapatos a sofás – cobertos com formas fálicas e primitivas formadas por tecidos recheados. O conceito do objeto encontrado de Marcel Duchamp (posteriormente apropriado pelos surrealistas) está evidentemente presente, uma vez que se trata de artigos utilitários cujo aspeto prático é suprimido. Por outro lado, estes não deixam de ser elementos associados à domesticidade feminina que surgem contaminados pela sexualidade masculina, um assunto consistentemente perturbador na vida (e obra) de Yayoi Kusama.

A perfeita conjugação entre a sua personalidade excêntrica e a vivência artística nova-iorquina da década de 60 surge extensivamente documentada nesta exposição, onde são mostradas fotografias e filmes dos happenings e orgias organizadas por Kusama. Naqueles eventos, a artista afirmou-se enquanto uma espécie de shaman, conduzindo “rituais” em que os jovens nus se pintavam uns aos outros com bolas.

Regressada a Tóquio nos anos 70, Yayoi Kusama vive numa instituição psiquiátrica desde 1977, onde tem continuado a trabalhar incessantemente. Destaca-se o impressionante grafismo das grandes telas pintadas Love Arrives at the Earth Carrying with It a Tale of the Cosmos (2009), onde se verifica um retorno aos motivos orgânicos, zoomórficos e celulares, agora acompanhados por rostos-máscara que nos transportam para a origem do mundo ou até para formas primitivas de vivência.

Nos exercícios mais recentes, é notória a tendência para criar ambientes e instalações que propiciam a imersão do espetador em universos sem fim. Especialmente concebida para esta exposição, Infinity Mirrored Room – Filled with the Brilliance of Life (2011), uma sala escura de espelhos e de luzes LED cintilantes deixa-nos sem norte, hipnotizados pelos nossos múltiplos reflexos e momentaneamente desejosos de ficar para sempre no mundo de Yayoi Kusama.

Desde pequena, Kusama queria “obliterar o mundo com [as suas] bolas”, como se dessa forma pudesse controlar os seus medos e traumas. Resultante de um extenuante esforço físico por parte da artista, a sua obra é, afinal, uma forma de terapia e de libertação. A exposição da Tate Modern é ela própria uma experiência laboriosa que, contudo, nos deixa completamente envolvidos pela doce loucura de Yayoi Kusama.