A Natureza e as tormentas de cada um andam de mãos dadas com a própria morte nos 150 minutos de um filme profundo e visualmente fantástico. Era Uma Vez na Anatólia chega-nos da Turquia e percorre os medos dos seus personagens, conseguindo igualmente fazer vir ao de cima os do próprio espectador. De Nuri Bilge Ceylan, realizador de Uzak – Longínquo, Climas ou Os Três Macacos (com sessões no Espaço Nimas nos próximos dias 4, 5 e 6 de Maio, respectivamente), Era Uma Vez na Anatólia chega hoje finalmente a Portugal.

O filme misterioso e cativante, que ganhou o Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes do ano passado, acompanha, durante uma longa noite, um grupo de polícias e detectives numa árdua busca por um cadáver enterrado nas estepes da Anatólia. Com a exumação deste corpo, também medos e pensamentos há muito escondidos nas cabeças destes investigadores obstinados serão desenterrados.

Um argumento forte aliado a imagens de uma beleza arrepiante fazem com que toda a possível lentidão dos acontecimentos nos passe ao lado, dado o nosso envolvimento na história. Enquanto a polícia procura um corpo, durante toda a noite, em vários locais isolados da Anatólia, vão-nos sendo introduzidas diversas personagens, de entre as quais se destacam o Doutor Cemal, o Prosecutor Nusret, o Comissário Naci ou o presumível assassino Kenan. O médico funciona quase como um guia nesta nossa viagem à Anatólia, parece, como nós mesmos, sentir-se um estranho ali e é com ele que a maioria da personagens vai falando (o condutor, o Prosecutor), dando-se a conhecer ao longo do filme, principalmente pelas conversas que têm. É assim que vamos conhecendo cada um, e partilhando as suas angústias.

Durante aquela longa noite, já por si sinónimo de medo, as conversas sobre a morte multiplicam-se, e ficam no ar muitas interrogações à sua volta. Cada um surge com os seus medos, culpa e tormentas e a noite adensa-os. A morte persegue as quatro personagens principais não só durante aquela noite, mas parece estar, de alguma forma, sempre presente nas suas vidas, como vamos a perceber ao longo de Era Uma Vez na Anatólia.

O elenco tem interessantes prestações com especial destaque para o Doutor Cemal, a personagem com que mais iremos simpatizar, interpretado por Muhammet Uzuner, Taner Birsel como o Prosecutor Nurset e Firat Tanis que veste a pele do próprio suspeito. Mais do que as próprias palavras, em alguns casos, são os olhares dos três que denunciarão muito do que cada um sente.

Era Uma Vez na Anatólia será, provavelmente, um dos filmes de maior beleza visual a que poderemos assistir nos cinemas este ano. Com uma fotografia nocturna fabulosa, a cargo de Gökhan Tiryaki, onde em nenhum momento a iluminação é descurada, o filme detém uma beleza incrível. E, de noite, é a Natureza que sai privilegiada, sendo-nos apresentada mostrando o seu mais puro e natural encanto. Dois magníficos exemplos disso mesmo são a sequência de uma maçã a rebolar pela erva até ao curso de água ali perto ou as folhas das árvores a cair quando o vento aumenta. São momentos quase hipnóticos que muito dirão ao espectador.

Da noite, por entre os campos desertos da Anatólia em busca de um corpo, ao dia, numa vila cheia de dificuldades, Era Uma Vez na Anatólia, com título de conto de fadas, com quem apenas partilha os cenários meio bucólicos, meio fantásticos, faz-nos reflectir, ao mesmo tempo que nos fascina, por entre paisagens nocturnas onde somos convidados a mergulhar.

8/10

 

Ficha Técnica:

Título Original: Bir zamanlar Anadolu’da

Realizadores: Nuri Bilge Ceylan

Argumento: Nuri Bilge Ceylan, Ebru Ceylan, Ercan Kesal

Elenco: Muhammet Uzuner, Taner Birsel, Yilmaz Erdogan, Ahmet Mümtaz Taylan, Firat Tanis

Género: Crime, Drama

Duração: 150 minutos

Crítica escrita por: Inês Moreira Santos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.