DIA 5 – 1 DE MAIO

Terça foi Dia do Trabalhador, mas nem por isso o Indie Lisboa abrandou. Na Culturgest, a Competição Nacional de Curtas chega ao fim com Noite e Outras Cartas ou o Amor Inventado. Seguiu-se o documentário Raul Brandão era um grande escritor, uma encomenda de Guimarães Capital Europeia da Cultura a João Canijo. Tempo ainda para a competição portuguesa de longas com Em Segunda Mão, no Cinema Londres e A Casa, no Cinema S. Jorge.

NOITE – 7/10

Um jogo de sombras onde o silêncio impera. As aparências e o choque com os sentimentos vividos em silêncio são os pontos de partida para Noite, de Flávio Pires. O espectador é confrontado com um protagonista que é músico numa banda de metal. Os estereótipos conduzem a julgamentos infundados e à criação da ideia de um homem violento. Mas, ao regressar a casa, este músico é o pilar da sua avó, vítima de uma doença grave. A desconstrução das crenças baseadas em aparências é o ponto forte desta curta, que nos mostra que todas as pessoas são mais do que aquilo que mostram. Há muita história no silêncio de cada um de nós.

OUTRAS CARTAS OU O AMOR INVENTADO – 7,5/10

O documentário de Leonor Noivo, Outras Cartas ou o Amor Inventado, procura juntar as partes de um sentimento intangível como o amor. A partir de um livro Novas Cartas Portuguesas, publicado em 1972 e causador de um processo judicial que ficou conhecido como As Três Marias, a criadora procura trazer a obra para o presente e analisar a sua importância. Rapidamente se afasta do livro, utilizando apenas citações deste, e procura ter várias gerações a falar sobre o amor. O percurso seguido ao longo do filme não é propriamente bem definido, mas também não o é o sentimento em discussão. Vale pela sinceridade e abertura com que se fala do tão famoso sentimento.

 

RAUL BRANDÃO ERA UM GRANDE ESCRITOR – 7,5/10

João Canijo assina Raul Brandão era um grande escritor, um documentário criado para Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012. O realizador regressa à freguesia de Nespereira, em Guimarães, terra que o escritor adaptou como sua. Ao contrastar com filmagens atuais com imagens de arquivo, o que se pretende é perceber que marca deixou Raul Brandão na terra onde viveu. É engraçado perceber que o escritor é reconhecido na localidade, mas a sua obra permanece um mistério para muitos. Mais do que um retrato desta freguesia, é a imagem de um país que parece ter esquecido um dos seus ícones.

EM SEGUNDA MÃO – 8/10

O desejo de viver a vida do outro, onde a felicidade parece sempre maior, é o mote do filme Em Segunda Mão de Catarina Ruivo. Jorge é um escritor com o hábito de olhar pelas janelas dos prédios vizinhos e imaginar a vida (e felicidade) daqueles que lá habitam. Um gravador descoberto num hotel leva-o à casa de Laura, onde observa uma vida quase perfeita em que gostaria de estar presente. Jorge sofre uma transformação e entra na vida de Laura e do filho André. O que era perfeito, com o passar do tempo, deixa de sê-lo. E é aí que Jorge descobre que não foi ele o único que mudou de vida: alguém ocupou a sua vida anterior. Um trabalho esteticamente muito bem conseguido complementado por uma história original e com densidade. Um filme para pensar o quão perfeita será a nossa própria vida.

 

A CASA – 6/10

Júlio Alves é quem assina o documentário A Casa. Ao longo de dois anos, o realizador acompanhou o dia-a-dia de três trabalhadores da construção civil e acompanhou o desenvolvimento da obra. Uma habitação constrói-se à nossa frente, ganhando vida. O filme vale sobretudo pela diversidade de planos que jogam com o caráter geométrico da habitação e com a luz natural que com eles joga. Os pormenores imperam ao longo de todo o filme. Outro dos pontos positivos é o facto de dar uma visão muito natural do quotidiano destes trabalhadores. É uma história que se conta por si mesma nos silêncios.