O 1º de maio de ontem contou com o arranque do 8 ½ Festa do Cinema Italiano no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra. A tela reservou-se unicamente a Terraferma, a mais recente obra de Emanuele Crialese.

O programa teve início às 18h30, no Teatro Académico Gil Vicente (TAGV), com a apresentação do livro Este Frio e Outras Histórias, o novo trabalho de Paola D’Agostino – de origem italiana, a autora vive e trabalha em Lisboa desde 2000 –, presente durante o evento, por parte de Rita Marnoto e Clelia Bettini, ambas docentes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com leituras a cargo de Sara Campina.

A abertura oficial da 3ª edição conimbricense deu-se às 21h30, com a presença de uma equipa representativa da Universidade de Coimbra e do seu Instituto de Estudos Italianos, do TAGV e da própria organização do evento, com Stefano Savio, diretor artístico da Festa do Cinema Italiano, que, numa sala adequadamente bem composta, justificou a exibição de Terraferma como uma “escolha representativa do que em Itália se passa, também no cinema”, considerando-a, assim, uma “ótima mostra”.

TERRAFERMA 6/10

Esta mais recente obra de Emanuele Crialese, que em Portugal ganhou notoriedade graças a Respiro (2002), tem lugar na Ilha de Linosa, um pequeno recanto italiano que vive da pesca marítima e, em época sazonal, do turismo. A narrativa centra-se na família de Filippo (Filippo Pucillo), um rapaz de 20 anos que nunca saiu da ilha onde nasceu, na sua mãe Giulietta (Donatella Finocchiaro), que separada do ex-marido procura uma nova vida noutro local, e no seu avô Ernesto (Mimmo Cuticchio), de idade avançada e já adoentado.

O desenvolvimento da história toma lugar a partir do momento em que um barco de lotado de imigrantes ilegais é avistado e Filippo e o seu avô auxiliam alguns deles, sem deixar ninguém para trás, como ditam as regras do mar. A família entra em conflito com as forças policiais em plena época turística, o que prejudica o seu negócio.

O filme aparenta, inicialmente, não ser mais do que uma comédia leve e descontraída, com uma premissa cativante, mas o seu desenvolvimento mostra-nos que a intenção é diferente, e o problema é esse. Se de uma modesta comédia passamos a um drama de proporções sérias e profundas, algo está errado. Não há equilíbrio em Terraferma. O ideal seria ver Crialese optar por uma das vias: a comédia ou o drama – preferencialmente a segunda, que muito mais teria para oferecer.

Apesar disso, o argumento, ainda que com arestas por limar, é de qualidade e não funciona erradamente, de todo. Os cenários são um primor visual, mas as aparentes limitações técnicas tornam-se, esporadicamente, enjoativas. As personagens são exploradas de forma suficiente e as doses de humor, que se querem mais contidas,  ajudam-nos contudo a simpatizar com estas.

Quanto ao final, estamos impossibilitados de afirmar que cai na banalidade. Aqui podemos até afirmar que não há final, já que este fica a nosso cargo. Sabemos que a inconclusividade é, muitas vezes, um ponto a favor no que toca a certas obras, mas o exagero também deve conhecer limites. Terraferma deixa-nos sem saber qual o seu fim. Queremos que tudo acabe bem, mas também sabemos que dificilmente isso acontecerá, o que nos deixa algo inconformados.

Hoje, dia 2 de maio, a homenagem ao cinema de Itália tem continuidade com a exibição do documentário Global Mafia, de Dario Parazzoli, pelas 17h00, na Sala de Carvão da Casa das Caldeiras, onde estarão presentes os autores, membros da Students’ Union da Faculdade de Ciências Política da Universidade de Milão. Pouco depois, às 18h30, o TAGV recebe a sessão especial de curtas metragens Il Corto e, pelas 21h30, encerra este segundo dia com Scialla!, o filme de Francesco Bruni que venceu, em Lisboa, o Prémio do Público.