Nascidos das cinzas do grupo de Post-Hardcore norte-americano At the Drive-In, os The Mars Volta formaram-se em 2001, pelas mãos do vocalista Cedric Bixler-Zavala e do guitarrista Omar Rodríguez-Lopez, tendo desde então assumido uma posição claramente experimental e bem dentro da área do Prog Rock, género onde são uma das bandas de ponta da actualidade. Noctourniquet, o seu sexto disco de originais, foi editado no passado dia 26 de Março e será hoje alvo de crítica. 

Apesar de apreciar mais o trabalho dos At the Drive-In, admito que os The Mars Volta são uma banda que tenho em grande consideração e estima, em grande parte devido ao seu constante experimentalismo, à sua vontade de quebrar barreiras e conceitos musicais e à sua grande qualidade criativa, bem patente em discos como De-Loused in the Comatorium (2003), Frances the Mute (2005) e The Bedlam in Goliath (2008), registos que considero verdadeiras obras-primas do Prog contemporâneo.

No entanto, não posso dizer que tenha ficado muito feliz com o paupérrimo Octahedron (2009), disco que suscitou reacções muito negativas no seio dos fãs do grupo. Esse desaire, aliado à espera de três anos por um sucessor, levou a que uma grande expectativa se começasse a gerar em relação a este Noctourniquet. Porém, depois de ter ouvido o sexto LP dos The Mars Volta, não posso dizer que tenha ficado muito satisfeito; apesar de ser melhor que o seu antecessor, Noctourniquet mostra uma banda a tomar um rumo que eu não esperava e que não me agrada muito.

Quem conhece os The Mars Volta sabe que a sua sonoridade típica se baseia num Prog Rock aliado a uma fusão de géneros tão díspares como o Jazz ou o Krautrock, e que prima pela guitarra explosiva e tresloucada de Rodríguez-Lopez. Contudo, em Noctourniquet, o grupo mostra-nos um afastamento drástico dessa fórmula, aproximando-se bastante de territórios mais Pop e acessíveis (algo que a própria banda admite). A guitarra, antes em primeiro plano, é empurrada para os “bastidores” pelos teclados e sintetizadores, fazendo deste disco uma obra muito mais afecta ao Electro-Rock.

Ao nível das letras, Bixler-Zavala construiu, através do seu estilo críptico e bem-pensado de sempre, um disco conceptual que fala, segundo o próprio, de abraçar a vida pelo que “ela devia ser”, e de compreender que “todos nós somos artistas”. Ao nível da voz, Cedric também traz o seu registo característico e dinâmico, algo que irá agradar os fãs mais antigos dos The Mars Volta. Na produção, mais uma vez a cargo de Rodríguez-Lopez, assistimos a uma estética angular e com as arestas pouco limadas, mas que ainda assim evita a abrasividade e a crueza, num compromisso de meio-termo que assenta bastante bem na sonoridade geral de Noctourniquet.

No entanto, este álbum tem, a meu ver, limitações graves que prejudicam a sua qualidade no geral. Vi-me a ter alguns atritos com a bateria de Deantoni Parks, que me pareceu por vezes demasiado masturbatória e nervosa. Outro problema que identifiquei foi uma manifesta falta de garra e pujança que Noctourniquet apresenta, especialmente quando em comparação com obras anteriores (e bastante superiores) dos The Mars Volta. Isso, aliado a uma inconsistência que se vai fazendo sentir em alguns pontos do disco, faz com que este disco não vá muito além do mediano.

Quanto às minhas peças favoritas do álbum, a poderosa e épica Aegis, a contagiante e pungente Molochwalker, a suave e contemplativa Vedamalady ou a viciante e explosiva Zed and Two Naughts parecem-me as escolhas mais óbvias. Quanto às canções mais fracas do disco, Dyslexicon, Lapochka ou Trinkets Pale of Moon são as faixas que, a meu ver, se destacam pela negativa neste Noctourniquet.

Resumindo, no seu sexto álbum, os The Mars Volta optaram por reinventar a sua sonoridade e experimentar novos territórios musicais, uma atitude ousada que aprecio muito. Contudo, não posso dizer que tenha ficado muito surpreendido com o resultado apresentado em Noctourniquet. Mais acessível do que os discos mais antigos do grupo, este LP acaba por deixar de fora, a meu ver, alguma da força e garra que caracterizava a sonoridade “clássica” dos The Mars Volta. No entanto, não posso dizer que Noctourniquet seja um mau disco; simplesmente esperava melhor deste grupo norte-americano.

Nota Final: 6,7/10

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945