Electra Heart, segundo disco de Marina Diamandis, mais conhecida como Marina & the Diamonds, traz o “retrato do Sonho Americano, com elementos da tragédia grega” em conjunto com uma forte imagem visual.

Com data de lançamento marcada para 30 de abril, as 12 músicas trazem quatro facetas de uma personagem – Primadonna, Su-Barbie-A, Teen Idle e Homewrecker. O nascimento do novo capítulo na carreira da cantora começou com os fracos resultados do primeiro disco, The Family Jewels, a nível promocional e comercial. Num mercado com forte concorrência, Marina apresenta agora um novo álbum forte em conceito e com novas sonoridades eletrónicas.

O conceito de criar personagens não é novo no universo de música pop. Dita Parlo surgiu no início dos anos 90 para Madonna se expressar livremente com linguagem corporal e sexual. Lady Gaga, nome artístico de Stefani Germanotta, trouxe o hino de amor-próprio para todos os homossexuais, bissexuais e transexuais com a canção e disco Born This Way e Lana Del Rey trouxe o glamour das atrizes de Hollywood e definiu-se como uma “gangsta Nancy Sinatra”. Marina começou a apresentar a sua nova personagem com vários vídeos no ano passado, sem muitas explicações do contexto por detrás. Electra Heart mostrou-se em quatro vídeos uma personagem vulnerável, pronta a magoar-se por amor e com uma ironia elevada.

A ironia ressalta logo na primeira música do disco, Bubblegum Bitch. Com uma sonoridade agressiva e batidas a quererem dar um toque ao estilo de rock é apresentada a vida da nova personagem de Marina. “Oh dear diary, I met a boy/ He made my dull heart light up with joy/ Oh dear diary, I fell apart/ Welcome to the life Electra Heart”.

Mas quando se esperava um pouco de agressividade misturada com ironia, típica ao longo de todo disco, surge Primadonna com inocência em aparência e perversidade na letra. É também o começo de vulnerabilidade em assuntos amorosos. Essa vulnerabilidade atinge o primeiro ponto elevado com a música Lies. Pela primeira vez, o trabalho do produtor Dr. Luke não soa a reciclagem de canções de outras artistas. “I just want it to be perfect/ To believe it’s all been worth a fight/ Lies, don’t wanna know”.

O novo disco de Marina & the Diamonds é um carrossel de emoções, com muitos altos e baixos. É dotado de força, determinação e ambição em Homewrecker, Power & Control, Living Dead mas consegue ser um poço sem fundo quando o assunto são amores, desilusões e mágoas ao escutar Starring Role e Fear and Loathing.

A sexta música, The State of Dreaming, relembra uma carta de suicídio à medida que Electra canta o modo como viveu num estado de sonho. Esse sentimento de entrada na linha final continua com Teen Idle. São desejos enunciados pela cantora e misturados com a sensação de frustração. “I wish I’d been a teen, teen idol/ Wish I’d been a prom queen fighting for the title”. A mudança da direção musical do disco é evidente. Na maioria das canções o estilo new wave, rico em incorporações de música eletrónica na pop, colocou de lado o indie pop caraterístico no primeiro disco de Marina.

A identidade da personagem Electra Heart é colocada à prova com Valley Of The Dolls. “Pick a personality for free/When you feel like nobody, body/ Born with a void heart to destroy with love, oh”.  Verifica-se a reflexão sobre o amor disfuncional, como contou a cantora em diversas entrevistas. Não há medo em cantar sobre isso. Como o mercado de música pop é mais direcionado para o divertimento e para a falta de intelectualidade, a primeira marca de diferença em Electra Heart é a coragem em cantar sobre assuntos negros.

http://www.youtube.com/watch?v=9txg0XicoJ0

A pérola de todo o álbum está incorporada com Fear and Loathing. Depois de todo o carrossel, do filme transmitido com as músicas, existe uma oportunidade para arrependimento. Electra quer viver sem medo e aversão, sente-se sem nada no final de todas as experiências. Liam Howe traz uma produção tragicamente bela, com um instrumental leve de som eletrónico. “Don’t want live in fear and loathing/ I want to feel like I am floating/ Instead of constantly exploding/ In fear and loathing”.

Electra Heart é a personificação do mais podre, perverso e maldoso da génese do ser humano. É uma história. Não é um alter-ego como a cantora tentou explicar. Trata-se de um dos melhores discos de música pop deste ano. É consciente, rico em sensações e também nas composições. Merece um lugar de destaque ao lado de todas as obras musicais. Marina & the Diamonds deu a conhecer os desejos egocêntricos, suicidas e cor-de-rosa de Hollywood nos anos 30 e 40. Ou será mais correto dizer que esses desejos podres acontecem em 2012?

Classificação final: 8/10