A Controvérsia de Valladolid é o trabalho que comemora os 40 anos do Comuna Teatro de Pesquisa. João Mota é quem encena esta peça da autoria de Jean-Claude Carrière estreada a 25 de abril no Teatro S. Luiz e por lá ficará até 6 de maio.

Estamos na cidade de Valladolid nos inícios do século XVI. A Espanha é dona e senhora das índias, os novos territórios por eles descobertos. Frente ao cardeal (Álvaro Correia), Frei Bartolomeu de las Casas (Carlos Paulo) e o professor Sepúlveda (Virgílio Castelo) debatem-se sobre uma questão fulcral: serão os habitantes das Américas seres humanos como os espanhóis?

E a partir desta muitas outras se levantam, questionando o próprio espectador sobre a condição dos índios colonizados ao nível social, religioso, económico e humano. Serão eles filhos de Deus? Serão seres inferiores? Será que são tão sensíveis como nós? Será que sofrem ou têm capacidade de rir? Será que têm alma? Ao longo do debate, as duas posições discordam sempre, mas com argumentos justificados.

O texto desta peça é rico e faz-nos pensar sobre um assunto, apesar da distância histórica dos acontecimentos apresentados. Procuramos encontrar nós próprios a nossa posição face ao outro ser humano que nos é desconhecido. É interessante acompanhar o debate e perceber os motivos que estão por detrás das próprias posições. A estrutura de sessão de julgamento mantém-se do princípio ao fim.

O Cristo crucificado é testemunha constante do decorrer dos acontecimentos, inserindo-se num cenário que opta por um híbrido entre o minimalista e um palco mais preenchido. O cenário não se altera ao longo da cena mas é aproveitado pelos personagens pelo dinamismo que conseguem criar com as suas alegações.

O grande destaque ao nível de interpretação vai para Carlos Paulo, com uma personagem que deambula entre os monólogos e a acusação a quem defende que os indígenas são seres inferiores. Frei Bartolomeu é uma personagem que marca pelo caráter humano e por uma visão estratégia. A própria religião católica que pratica, supostamente assente no amor e no convívio pacífico, é por este posta em causa pelos atos dos espanhóis na ocupação do território.

Mas Carlos Paulo não teria uma personagem tão peculiar se do outro lado não estivesse Virgílio Castelo com o seu mordaz Sepúlveda. Este professor, sustentado por correntes ideológicas demarcadas, recorre às mais diversas estratégias para dar provas da falta de alma dos índios. Uma dessas estratégias é trazer uma família de nativos para Espanha e dar conta da sua falta de humanidade. Apesar de estas personagens se remeterem ao silêncio, delas recebemos uma interpretação muito forte, marcada por expressões faciais e momentos de sofrimento.

Serão os índios realmente humanos? A resposta só é dada pelo cardeal no final das alegações, numa última sessão. A História traz-nos hoje essa certeza. Apesar das diferenças entre o contexto atual e o início da década de 1550, a temática de A Controvérsia de Valladolid mantém-se extremamente atual. É preciso garantir que os outros, que os estranhos, sejam tão humanos como nós.

Fotografias: Rita Sousa Vieira