Londres, 1968. O rock n’roll construía-se, passo a passo, riff a riff, na efeverscência musical da capital britânica. Laboratório propício para o desenvolvimento de novas sonoridades e a criação de inovadoras melodias, fruto da panóplia cultural e artística que moldava a cidade, surgem, neste contexto, os Led Zeppelin. Inventores de uma musicalidade própria, mesclando estilos distintos, assumiram-se como percursores em diversos campos, abrindo portas para um mundo novo, onde o hard rock, desinibido, se destacava, libertando-se das amarras que o mantinham cativo. Uma guitarra, um baixo, uma bateria e uma incofundível voz. Quatro ingredientes  essenciais que, unidos, desenharam a história de uma das maiores bandas do século, hoje revisitada pelo Gira o Disco.

Um início com pompa e circunstância

A década de 1960, testemunha de um significativo conjunto de alterações artísticas, observava atentamente as mudanças ocorridas no panorama musical, que marcavam uma ruptura definitiva com o passado. Embora se tratasse de um ramo em constante mutação, onde as ideias revolucionárias fervilhavam diariamente, a segunda metade do decénio trouxe consigo uma nova concepção e metodologia aplicável à música. O diletantismo do começo do período dava lugar a uma forma mais elaborada, minuciosa e coordenada de escrever letras e organizar melodias. Prova disso era o surgimento de inúmeras bandas de rock, principalmente no meio universitário de Londres, que agora localizavam ambos os elementos no centro das suas preocupações. Aglutinando uma variedade considerável de influências, grupos como The Who e Rolling Stones, ou compositores como Eric Clapton davam cartas no ambiente cultural e boémio da capital. É deste leque que emergem os Yardbirds, liderados, em 1968, por Jimmy Page e Chris Dreja. Com ex-membros como  Jeff Beck, a banda vingava em terras de Sua Majestade, trilhando um caminho de blues rock, muito em voga na altura.

Divergentes quanto ao futuro do projecto, e abalados pelo fraco sucesso comercial, Jimmy e Chris abandonam o barco para abraçar um novo plano: formar os New Yardbirds, no Verão do mesmo ano, com o entuito de cumprir um contracto feito para a realização de concertos na Escandinávia, correspondente à época dos Yardbirds. Page, jovem mas muito experiente guitarrista, toma as redes à banda, convidando Robert Plant, membro dos Band of Joy, para actuar como vocalista. Com um passado complicado e pobre, Plant falaria ao tablóide britânico Daily Express de um período muito conturbado, durante a vida dessa banda: «Éramos melhores a roubar gasolina dos carros do que a agitar o público num espectáculo. (…) Chegámos a um ponto em que precisavamos de roubar para não morrer de fome», afirmou. «Levávamos garrafas de leite das portas das casas em Manchester às 5 horas da manhã, antes das pessoas acordarem».

John Bonham, baterista, fazia também parte dos Band of Joy, e integra os New Yardbirds, juntamente com Robert. Chris Deja sai do grupo pouco tempo depois, no final do verão de 1968, para se tornar fotógrafo. Rapidamente é encontrado um substituto, mas não um substituto qualquer: trata-se de John Paul Jones, antigo conhecido de Jimmy Page, da época em que tocavam juntos como músicos de estúdio, auxiliando grupos como Rolling Stones. Estava assim definitivamente formado o quarteto, que dava os primeiros concertos na Escandinávia. Porém, pouco tempo após a união, eis que chega a necessidade de alterar o nome. Deja, ex-membro, argumenta que o conjunto só estava autorizado a utilizar a desginação New Yardbirds para a digressão no Norte da Europa. Aproveitando a afirmação de Keith Moon e John Entwistle, que diriam que um supergrupo composto por eles, Jimmy Page e Jeff Beck, se afundaria como um balão de chumbo – “would go down like a lead balloon” -, decidem chamar à banda Led Zeppelin, deixando cair o “a” da palavra “lead” para impedir equívocos de pronúncias alheias.

Poucos dias após o seu primeiro concerto como Led Zeppelin, na Universidade de Surrey, o grupo inicia a gravação de um álbum, de título homónimo, que sairia em Janeiro de 1969, com o selo da Atlantic Records. Led Zeppelin I distinguia-se pela sua notória influência de blues e rock, e pela introdução de amplificações distorcidas, conferindo à sonoridade uma pitada de exotismo. É ainda de referir a utilização da harmónica, instrumento privilegiado nas décadas de 1950 e 1960, ali tocada por John Paul Jones, o baixista. Numa admirável harmonia entre diferentes influências, os Led Zeppelin davam-se a conhecer ao mundo, com músicas como Baby I’m gonna leave you, Dazed and Confused– onde se destacava o electrizante solo de guitarra de Jimmy – ou Comunication Breakdown. O sucesso do disco foi imediato, principalmente nos Estados Unidos da América, onde ganhavam agora uma soberba projecção. Durante a digressão por terras norte-americanas, onde abriam para outras bandas, acabaram por se tornar a maior atracção musical dos espectáculos, conquistando o público do rock.

O segundo álbum e a retirada espiritual

Com um ritmo de criação e produção estonteante, editam, ainda em 1969, o seu segundo trabalho, conhecido como Led Zeppelin II. Inteiramente produzido por Page, e lançado em Outubro, seguia os passos do progenitor, Led Zeppelin I, adoptando uma sonoridade blues, onde a guitarra e a voz se elevam a um nível superior, digno de reparo. Embora herdado, o som do álbum é dono de um registo mais cru e pesado, com o hard rock a intrometer-se, exigindo espaço. Whole Lotta Love, um dos maiores sucessos da carreira da banda, é uma das músicas do disco. Aliando os majestosos riffs de Jimmy à explosiva e contagiante voz de Plant, que vocifera a necessidade de dar amor (I wanna give you my love), Whole Lotta Love seria lançado como single em diversos países, com especial destaque para a recepção americana, onde a música foi catapultada para a primeira posição das tabelas. De Led Zeppelin II fazem também parte canções como Heartbraker ou Moby Dick, caracterizadas pela sua densidade instrumental e velocidade rítmica. Os concertos eram cada vez mais extensos e agraciados, frequentemente compostos por versões de Elvis Presley, outro dos ícones inspiradores do quarteto. No Texas Pop Festival, em 1969, os Led Zeppelin chegaram a actuar durante 4 horas consecutivas, expondo toda a sua energia.

                        httpv://www.youtube.com/watch?v=jEP-_L3ZyGk

Chegava a altura de reflectir sobre um novo álbum. Esgotados pelo stress urbano, que desgasta qualquer um e retarda o processo criativo, decidem retirar-se para Bron-Yr-Aur, uma remota cabana em Snowdonia, no País de Gales, onde retomam ideias e descobrem outros caminhos, influenciados pela paisagem bucólica circundante. Sem electricidade nem água canalizada, enveredam por uma sonoridade mais acústica, incorporando influências da música folk e celta, tradicional do país. Servindo para revelar a polivalência de Page, capaz de encantar, com a sua guitarra, em estilos bem distintos, o retiro espiritual dos Zeppelin repercutiu-se na gravação do seu terceiro álbum, Led Zeppelin III. Lançado a 5 de Outubro de 1970, contém faixas como Immigrant Song, uma das mais aclamadas músicas do grupo, Celebration Day ou Bron-Y-Aur Stomp, tema inspirado na casa do século XVIII, e cujo nome significa, em galês, “peito de ouro”.

Led Zeppelin no País de Gales, aquando da estadia em Bron-Yr-Aur

Led Zeppelin IV, Houses of the Holy e a Swan Song Records

O quarto álbum traria consigo uma mestiçagem musical sem precedentes no universo Zeppelin. Juntando as diferentes inspirações estilísticas dos quatro músicos, é possível experienciar, ao ouvir o trabalho, um vasto leque de sensações e emoções, potenciadas pelo mesclar de vários géneros de rock: do hard rock de Rock And Roll ao progressive rock de Stairway to Heaven, espreitando, em Black Dog, alguns resquícios primordiais de heavy metal, está também presente uma vincada vertente folk, exponenciada em The Battle of Evermore, letra com base na obra O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien. É, indubitavelmente, um dos álbuns mais agraciados da banda, residindo o seu expoente máximo em músicas como Four Sticks – assim denominada por John Bonham ter utilizado quatro baquetas aquando da gravação – ou Stairway to Heaven (considerada por muitos a maior obra-prima da história do rock n’roll, pela sua complexidade rítmica e melódica). Conhecido como Four Symbols ou The Fourth Album – visto nunca lhe ter sido atribuído nome definitivo -, e lançado em Novembro de 1971, garantiu o reconhecimento internacional dos quatro magníficos, que viviam, à epoca, o auge musical.

                       httpv://www.youtube.com/watch?v=9Q7Vr3yQYWQ

Houses of the Holy, o quinto álbum, surge em Março de 1973, e marca a ruptura com a editora Atlantic Records, que continuava a agir à revelia da banda, principalmente na definição e lançamento de singles. Com um registo mais experimental, priorizando músicas longas e melodias progressivas, é notória a primazia dada ao uso de sintetizadores, trabalhados por John Paul Jones. Encaixando estilos musicais nunca antes explorados, como o reggae, presente em D’yer Mak’er, e integrando trechos de piano, como aquele que compõe No Quarter, os três concertos dados no Madison Square Garden na digressão de apresentação serviriam, mais tarde, para a edição de um filme, intitulado The Song Remains the Same.

Os Zeppelin, em concerto.

Entretanto, os quatro jovens adultos, consumidos pela fama e o luxo, levavam uma vida de excessos. Entre noitadas e viagens de jacto particular, os Zeppelin, expondo a amplitude da sua riqueza, alugavam pisos inteiros de estâncias hoteleiras, que depois danificavam, ao partir materiais e peças decorativas, sem qualquer respeito nem consciência das circunstâncias. Exuberantes, magnificientes, adoptavam o lendário estilo de vida que caracterizava os anos 1970: sexo, drogas e rock n’roll.

A banda em 1971 - John Paul Jones, Jimmy Page, John Bonham, Robert Plant

Em 1975, após rescindir contrato com a Atlantic Records, o grupo cria a sua própria editora, a Swan Song Records. Swan Song era o nome de uma música nunca lançada, que daria origem, posteriormente, a Midnight Moonlight, do primeiro álbum dos The Firm, banda pós-Zeppelin criada por Jimmy Page.

Physical Graffiti, Presence e o álbum ao vivo

Physical Graffiti é editado logo em Fevereiro de 1975, sob a chancela da Swan Song Records. E a carreira dos Zeppelin prosseguia, de vento em poupa. Na senda daquilo que melhor sabiam fazer, o álbum é mundialmente admirado, recebendo as mais polidas críticas. Dono de êxitos como Custard Pie, In My Time of Dying, Kashmir ou Boogie With Stu, representa um momento apoteótico da carreira dos britânicos, consagrando-os como a maior banda de rock da época. Maximizando as potencialidades instrumentais dos seus integrantes, com a genialidade da bateria de Bonham, a mestria dos acordes de Page e a mutliplicidade característica de Paul Jones, tocando baixo, órgão ou harmónica, o trabalho não seria o mesmo sem a arrepiante voz de Robert Plant, que se assumia como principal compositor do grupo.

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1976, tempo de abrandar o ritmo, de repousar. Os Zeppelin aproveitam o período de descontracção para gravar algumas das cenas que fariam parte do filme, ainda não editado. Enquanto isso, Plant sofre um acidente de viação, que lhe vale uma prolongada lesão num tornozelo. Impedidos de subir aos palcos, já que o vocalista estava momentaneamente incapacitado, o conjunto voltou a estúdio para preparar a gravação de Presence, sétimo álbum de originais. Com uma sonoridade característica, a fazer lembrar os primeiros álbuns, a veia blues rock da banda sobressai na gravação, com preponderância para as composições de Page, que se sobrepunha a Robert, ainda em recuperação. O trabalho sai em Março desse ano.

 No fim do mesmo ano, altura para o lançamento do álbum ao vivo The Song Remains the Same, juntamente com a edição do filme. Com base em três espectáculos da banda em Madison Square Garden, Nova Iorque, a obra revisita uma série de momentos importantes da história dos Led Zeppelin, agregando, em imagens, o fulgor e a energia inesgotável dos seus concertos.

Led Zeppelin, durante um concerto em Madison Square Garden

A morte de Karac, In Through the Outdoor e o início do fim

No início de 1977, Robert Plant é confrontado com um duro golpe, que ameaça pôr termo à banda: a morte do seu filho, Karac Pendragon, de seis anos. «Todos nós estávamos a pensar o que aconteceria a seguir, porque a ilusão já tinha tomado o seu curso. Eu já tinha perdido o meu filho e pensei: “preciso mesmo de decidir o que fazer” (…) eu estava bem com a ideia de simplesmente abandonar a banda», diria o vocalista, anos mais tarde. Ponderou ser professor, mas John Bonham demovê-lo-ia. Avançam para a gravação de In Through the Outdoor, lançado a 20 de Agosto de 1978, data do aniversário de Karac. O álbum continha All My Love, tema de homenagem ao rebento de Plant.

Com uma extensa legião de fãs por todo o planeta, que os seguia atentamente, e centenas de concertos esgotados, com um público em polvorosa para assitir às suas electrizantes performances, os Zeppelin pareciam dispostos a perdurar. Mas eis que, dois anos volvidos, em Setembro de 1980, emerge o acontecimento mais trágico da sua história enquanto banda: morre John Bonham, o lendário baterista, asfixiado pelo próprio vómito, depois de uma noite de excessos. Assim terminava a carreira de um dos mais fascinantes e adorados grupos da História da música.

Impulsionadores de uma nova musicalidade, donos de uma invejável capacidade rítmica e instrumental e de uma força hercúlea, os Led Zeppelin assumiam-se como messias de uma inovadora sociabilidade, de um romper de preconceitos, de um quebrar de distâncias. Um afinado grito de revolta, que, repudiando a ignóbil Guerra do Vietname, abria caminho para outro paradigma. Com as suas letras extasiantes, falando de mulheres e aventuras nocturnas, sentimentos ou estados de espírito, impunham o seu arrojado modo de olhar o mundo.

Ainda que separados pela morte do baterista, os elementos vivos voltaram a juntar-se em três ocasiões, contando com a participação de Jason Bonham, filho de John, que substitui o pai na bateria: 1985, 1994 e 2007. E sempre com o espírito que assimilaram na década de 1960. Quem sabe não esquece. It’s been a long time since they rock n’roll.  

                    httpv://www.youtube.com/watch?v=FeJkDewhTEw&ob=av2n

*Por opção do autor, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945