É homem de poucas palavras, mas contagia com o canto melodioso e o sorriso sincero. Tem na voz o fado e na alma o Alentejo. Nesta noite de 25 de abril, a sua segunda em palco lisboeta, António Zambujo surge de fato e gravata no Grande Auditório da Gulbenkian para apresentar o seu novo álbum, Quinto. “Quero cantar como a rola”, diz uma das canções. Desejo realizado.

Quinto dá o mote para o início do concerto, ao som de Casa Fechada. Desde logo é notória a excelente coordenação dos músicos de Zambujo, do clarinete ao cavaquinho, que oferecem às canções as sonoridades abrasileiradas que tanto caracterizam a sua música. Na guitarra portuguesa, podemos também ver nele a ligação ao fado, sempre presente, mesmo que o seu registo se aproxime da chamada world music. E Zambujo faz questão de apresentar a banda no início do concerto, dando-lhe oportunidade para brilhar do início ao fim.

Seguem-se algumas músicas do novo álbum, como Algo Estranho Acontece e Queria Conhecer-te um Dia, escritas por Pedro da Silva Martins, dos Deolinda. A segunda arranca os primeiros risos da plateia, com a história da “Maria” que nunca chegou a conhecer. Outra das eleitas é Fortuna, coisa que a letra desvaloriza com um simples “não tenho nada em meu nome”. Tem um ritmo diferente do que é habitual nele e conquista nos primeiros segundos de audição.

Flagrante é, possivelmente, a música mais conhecida deste seu Quinto. Divertido, António Zambujo canta a letra de Maria do Rosário Pedreira – “a vergonha passei-a eu, diante da porta aberta estava de calças na mão” -, levando o público a divertir-se com ele. Já a “voltinha” na Lambreta tem um efeito semelhante, conquistando o auditório da Fundação Calouste Gulbenkian nos primeiros acordes. Canta-a sozinho em palco, numa versão ainda mais bonita do que a de estúdio. E é merecida a referencia que faz aos autores deste álbum, entre os quais João Monge, o criador desta Lambreta.

Decide-se a cantar canções tradicionais, mesmo fora do alinhamento, com o espírito alentejano a subir à superfície. Faz de gaivota, continua a divertir os presentes com as suas brincadeiras vocais e as suas expressões faciais. E a certa altura pensamos que a sua voz – mais ‘de rola’ do que a canção o diz – consegue tornar qualquer música numa música bonita. Tão simples quanto isso.

O jogo de luzes é maravilhoso: tanto temos tons claros como escuros, e o protagonista no centro, iluminado pelos holofotes, por vezes unicamente ele. Não abandona o novo álbum, prossegue com Milagrário Pessoal, Fado Desconcertado, Na Rua dos Meus Ciúmes (a única não original) e Noite Estrelada (também de João Monge). Espalha a magia do disco, podemos dizê-lo, transmitindo-a com a alteração das canções na entoação e nos instrumentos.

O regresso a Guia era inevitável. De um belíssimo álbum retiram-se alguns dos êxitos, como a tranquila A tua Frieza Gela, Apelo, Barroco Tropical, Não me dou Longe de Ti, Fado da Vida Bela e a própria Guia. Para perto do final deixa Zorro e Reader’s Digest. A primeira encanta o público, que começa a cantar por cima de Zambujo, a letra de cor na ponta da língua. A segunda, composta por Miguel Araújo Jorge, cumpre o fecho do concerto com toda a boa disposição que o caracterizou.

Eu não tenho jeito para falar”, diz a certa altura. E a falta de contacto com o público durante sete ou oito músicas prova isso mesmo. É certo que encanta na mesma, que ouvir a sua voz é suficiente para nos satisfazer. No entanto, gostaríamos de conhecer melhor a pessoa por detrás da voz, que se soltou mais no final do concerto, revelando que se queria despachar porque tinha “frango assado para o jantar” e que afirma, por se esquecer de agradecer à Gulbenkian, como o seu pai dizia: “quanto mais velho, mais parvo”.

Brinca com as músicas, assobia como um rouxinol, recebe um cravo do público, ri-se de enganos que comete, não sabe o que há de fazer às mãos nas músicas em que não toca guitarra. Volta para um relativamente longo encore, inesperado, em que toca e canta Valsinha, de Vinicius de Moraes, e deixa a lágrima ao canto do olho de muitos fãs presentes.

António Zambujo é um intérprete emotivo, mas discreto, que sabe cativar os presentes com a música e a alma de fadista. Foi um concerto muito simples e agradável de ouvir, mais do que de assistir, propriamente. Ainda assim, de uma beleza inesquecível. E a verdade é que… “vivia tudo novamente”.