Blunderbuss, título do primeiro álbum a solo do homem-das-mil-bandas, é o nome que se dá, em inglês, a uma arma de fogo arcaica, arraçada de mosquete, daquelas que têm que ser carregadas com a devida carga de pólvora antes de cada tiro. Há uns anos, White, que figurava entre os vinte primeiros de uma lista que apurava os supostos melhores guitarristas de todo o sempre, foi apelidado de maçarico; não no sentido português (e pejorativo) do termo, mas sim referindo-se à maneira como ele trata a guitarra, frenética e demoniacamente, como um motor de explosão – como uma arma de fogo.

Se os The White Stripes eram, ao mesmo tempo, “a banda mais genuína e mais falsa de sempre”, isso era culpa de White, um Joker do rock, vestido de vermelho da cabeça aos pés, a tocar blues com mais de cem anos em guitarras a cair de podre e com o pé pesado no pedal de distorção. O objecto lírico de White era sempre um “ela” muito vago, qualquer coisa entre o mais sadicamente carnal e o mais imaculadamente platónico. Podia acreditar-se em tudo o que White dizia nas suas canções, e ele fazia por isso, mas dificilmente era tudo verdade.

Blunderbuss acentua essa característica: a teatralidade de White. Canções como Love Interruption, em que ele diz “I want love to / Roll me over slowly / Stick a knife inside of me / And twist it all around”, mostram um Jack masoquista, ora cínico, ora quase neurótico.

Contrastando, e contrariando tudo o que disse até agora, a música que dá o nome ao álbum, Blunderbuss, é uma balada chorosa, em que Jack confessa um amor proibido, começando e acabando da mesma forma, sem grandes exaltações de espírito ou tom de voz, sempre com o tom de mártir desconsolado. Esta vaga de baladas indecisas entre o insulto e o lamento, com harmonias e glissandos de uma amabilidade hostil, estende-se a canções como Hypocritical Kiss ou I Guess I Should Go To Sleep.

Está bem patente que este Jack, bem destilado, é a soma de todos os Jacks que ele já foi, um por cada banda em que já esteve metido e das quais foi força motriz: Sixteen Saltines soa a uma canção polida e trabalhada, que ficou guardada na gaveta para revisão desde os tempos do Elephant (2003) e, por tal, é a canção dissidente deste álbum. Poderosa, com uma letra críptica, estranhamente inspirada num episódio familiar, parece ser uma canção só para dizer “não estou a andar para novo, mas ainda não me esqueci como se faz e o rock não é para meninos” – um presente insosso para todos aqueles que achavam que o Jack tinha alguma obrigação em continuar o trabalho que havia terminado com os White Stripes.

Freedom at 21, indiscutivelmente uma das melhores canções do álbum, traz vislumbres dos Dead Weather. O riff passivo-agressivo e a letra perversa de confessor masoquista, “Cut off the bottoms of my feet / Make me walk on salt”, é algo que não estávamos à espera. Sim, tudo bem, no desenrolar das faixas vemos que cada uma é tão diferente que pode ser igualmente inesperada, mas Freedom at 21 consegue esticar as nossas noções sobre Jack White e a música que ele faz, como aconteceu com o álbum de 2005, Get Behind Me Satan. Curiosamente, as críticas ao facto de White ter posto a guitarra num plano secundário para este álbum, fazem lembrar as vozes que tentaram rebaixar a qualidade desse álbum quase todo acústico dos White Stripes.

Continuando com as canções, o travo a salão de faroeste ou a folk romântico dos Mississipi Sheiks aparece em faixas como Take Me With You When You Go, que fecha o álbum com reminiscências dos Raconteurs e até um sabor singelo a Beatles.

O génio anacrónico de White vai-se arrastando por canções como I Guess I Should Go To Sleep ou On and On and On, injectando harmonias infecciosas de uma instabilidade sentimental louvável, até que se levanta e enche a sala com o tom atrevido de que já tínhamos saudades – começa a tocar I’m Shakin’, meio camuflada entre tanta canção de ferida aberta, uma cover bem poderosa da original de Little Willie John, lançada em 1960, onde Jack mistura o R&B nuclear da canção com um coro feminino e um riff cheio de fuzz. Esta súbita torrente de energia transborda para Trash Tongue Talker, um soco de canção, ao som da qual, se fecharmos os olhos e fizermos um esforço, conseguimos imaginar um Ray Charles vergado lá de cima dos céus a esticar o beiço e a dizer “not bad”.

“No one can blow the shows / Or throw the bones / That brake your nose / Like I can” – é verdade e é o mote da melhor canção do álbum, Weep Themselves To Sleep, onde White mais se mascara de vítima quando já toda a gente sabe que é ele o vilão, com um piano que mais parece estar a levar um enxerto de porrada e uma guitarra que se derrete nos seus dedos e guincha um sôfrego solo com a estridência de sempre.

httpv://www.youtube.com/watch?v=X7K2I1Q4-AM

Um álbum que em nada desaponta a massa de fãs do Mr White e que em tudo aponta outro caminho para o bluesman mais reinventivo dos últimos 15 anos, Blunderbuss é uma ode ao amor-ódio, um sorriso cínico na cara das canções lamechas a transbordar de azeite; é um caleidoscópio de violência e indulgência, uma espécie de jogo polícia-e-ladrão. Só que agora é a duas mãos, ou como ele diz: solo rollin’.

8/10

* Por opção do autor, escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945.