Estreia hoje pelas 21h30 no Teatro Aberto a peça de Michel Tremblay, Pelo Prazer de a Voltar a Ver, uma homenagem à figura da mãe traduzida e encenada por Marta Dias, com as ilustres interpretações de Luís Barros e Sílvia Filipe.

Em Pelo Prazer de a Voltar a Ver, o dramaturgo sobe ao palco para recordar a sua fonte de inspiração e a força vital que o encorajou a sonhar. Durante a retrospetiva, o dramaturgo retrata a sua mãe. Ele não só conta a sua história, como também universaliza a imagem materna, descrevendo as peripécias quotidianas com as quais o espectador se identifica. Essa fusão entre os elementos autobiográficos do dramaturgo e a universalização da mãe está presente em toda a peça.

A sua formação enquanto autor foi influenciada pela relação íntima com a mãe. O gosto pela leitura foi-lhe transmitido por esta educadora, que se envolvia nos romances de cabaceira irrealistas, enquanto o filho criticava e questionava a veracidade dos acontecimentos narrados, desprovidos de sentido. Ela era uma contadora de histórias que, escapando à realidade, narrava os seus contos com pormenores exacerbados e um toque de dramatismo.

Ele assistia às suas narrações intermináveis, deliciando-se com a torrente de palavras em forma de divagação. Na sua simplicidade e raízes humildes, esta mãe afastada das luzes da ribalta, sonhava sempre, nunca deixando de o surpreender.

Ao longo da viagem ao passado, observa-se não só o crescimento do autor, mas também a evolução da mãe. Ela começou a analisar as obras literárias e peças de teatro com maior profundidade, colocando questões sobre o processo interpretativo e filosofando acerca do seu significado.

O ritmo da peça é contagiante, devido à forma como esta foi construída. Os monólogos informais e sinceros intercalam com os diálogos nesta jornada pelos momentos mais marcantes da sua juventude. Por um lado, o dramaturgo sai do palco e imerge na audiência, interpelando diretamente o público. Por outro, ele enquadra-se nas várias situações, em que contracena com a mãe, tal como se o espectador tivesse acesso às suas memórias e pudesse vasculhar o baú das recordações.

Pelo Prazer de a Voltar a Ver é a primeira peça de Marta Dias, no âmbito da encenação, proposta por João Lourenço. Segundo a encenadora, o processo de tradução desta peça canadiana foi um desafio. Marta Dias reinterpretou o guião juntamente com os atores, introduzindo elementos novos baseados na sua experiência pessoal. O cenário elaborado por Rui Francisco integra elementos audiovisuais (projeções), estruturas decorativas e objetos móveis, que deram vida às diversas cenas idealizadas primeiramente para um espaço vazio só com uma cadeira.

O espetáculo estará em cena na Sala Vermelha do Teatro Aberto de 25 de Abril a 25 de Maio e é uma excelente proposta para presentear a mulher mais importante da nossa vida: a mãe.

Fotografias: Rita Sousa Vieira