Foi no passado sábado que se realizou, na Taberna das Almas, o primeiro Punchfest by mobitto, organizado pela Punch Magazine. Festival polivalente e diversificado, reunindo uma panóplia de actividades artísticas, aliou, entre outras, música e pintura, exposições e filmes de animação. Desenvolvendo um conceito inovador, ainda marginal no país, alertou assim para a importância de apostar em expressões culturais distintas, que harmonizem as relações entre as diferentes formas de arte. Espaço idílico para a realização de um evento cultural, a Taberna das Almas – antiga fábrica de vidro, reabilitada – revelou-se um local acolhedor e familiar, ameaçando tornar-se uma oficina artística de culto em Lisboa.

Eram dois os andares que dividiam o edifício, núcleo duro do festival. O piso térreo albergava o palco e uma pequena zona comercial, enquanto que o superior testemunhava as inúmeras actividades que ali se multiplicavam: exposições de desenho e fotografia, mostras de filmes, pinturas de quadros, e até um espaço reservado à escrita de palavrões e de bandas favoritas, onde os festivaleiros eram convidados a deixar a sua marca.

Mas voltemos ao início. Embora bem organizado e dirigido, o Punchfest não foi capaz de evitar o atraso de cerca de uma hora no começo dos concertos, principalmente devido ao alongar dos sound checks. E esse atraso ditou o encurtamento das duas primeiras actuações, protagonizadas por Chicks Up Front e King Kong. Ainda que o tempo fosse reduzido, os jovens DJs não desiludiram, assumindo-se como potenciais promessas da música electrónica nacional. Com grande parte do público concentrado no primeiro piso, o destaque foi para King Kong. Capaz de contagiar os que ali se reuniam através das suas excelentes batidas, o DJ imprimiu os primeiros focos de energia e ritmo da tarde, exaltando a vontade de dançar da plateia, que respondia com movimento.

Ambiente no andar superior da Taberna das Almas | Dumitru Tira - Punch
Ambiente no andar superior da Taberna das Almas | Dumitru Tira – Punch

Seguiu-se IVVVO, jovem DJ do Porto. Apresentando um set bastante original, ainda que pouco apelativo, foi incapaz de surpreender a nível técnico. As passagens entre músicas muitas vezes não ocorriam, e o público nem sempre se revelou entusiasmado com a música do portuense. Mesmo assim, nota positiva para a performance do nortenho. Sem tempo para respirar, eis que sobe ao palco Exotique, outro dj nacional. Fazendo jus ao nome, Exotique apresentou uma sonoridade algo invulgar, repleta de sampling e sons antagónicos. Destacando-se de outros músicos, incorreu por batidas futuristas e disruptivas, acompanhadas por um Vjing original.

Enquanto Exotique finalizava a sua actuação, altura de espreitarmos o espaço da verdadeira taberna. Num cenário rústico, de mesas de madeira com bancos corridos, permanecem ainda resquícios da antiga fábrica -algumas máquinas de cortar vidro -, miscigenados com as pequenas bancas da Paez, Mez, Cardume e Econ, as marcas que ali apresentaram os seus produtos sem formalidades nem burocracias.

Soam já os primeiros acordes de Stereoparks, enquanto a sala se compõe, garantindo uma considerável moldura humana, até agora diminuta. O chegar da noite trouxe consigo um batalhão de jovens, movidos pelo amor à música e à arte. E a banda lisboeta respondeu sem apelo nem agravo, proporcionando um notável momento musical. Com uma varanda apinhada, no primeiro andar, os Stereoparks ergueram um espectáculo enérgico e melódico, revisitando temas como Crazy T-Shirts, How Much Do You Know About Yourself ou Hang On. Visivelmente influenciados por The Strokes e The Kooks, e donos de uma sonoridade merecedora de atenção, o conjunto surpreendeu pela crueza das guitarras, pela coordenação e destreza na bateria, e pela afinada e intempestiva voz de Gonçalo Teixeira, o vocalista. O público apreciava, cantava, mexia-se. Uma banda com futuro.

Gonçalo Teixeira, vocalista dos Stereo Parks | Dumitru Tira - Punch
Gonçalo Teixeira, vocalista dos Stereo Parks | Dumitru Tira – Punch

Mas nem só de música se fez o Punchfest. Prova disso era o primeiro piso do edifício, reservado a muitas outras manifestações artísticas, e que contava com nomes como o colectivo OFF/CINA e The Lunchbox Creations. Percorremos o andar, atentando em várias exposições. Desenhos de um trompetista em movimento, projectado por João Silva, ou desenhos de vários lifestyles, do punk ao hipster, concebidos por Money Skull. Ao longo da parede estendem-se ainda algumas colagens, da autoria de Sara Feio, que misturam elementos opostos, nonsense. Mariana Cáceres junta-se à corrida do non sense. Mulheres nuas, lançando um olhar felino, que conservam, entre as pernas, uma cabeça de tigre. Frankenstein carregando uma casa às costas. Uma imaginação fértil a da pintora, que expôs os desenhos mais originais do espaço.

Somos consumidos pela grandiosa ovação do público, que agora enche a taberna, aplaudindo a chegada do capitão. É hora do concerto de Capitão Fausto, uma das mais agraciadas bandas portuguesas dos últimos tempos. «Buenas noches», dizem. E não dão tempo para respostas. Logo iniciam uma jornada de rock puro e duro, de folia e divertimento, de velocidade e entrega total. Uma esgotante viagem pelos meandros do rock, capaz de contagiar o mais reticente ou introvertido espectador. Arrancam com Febre, música vigorosa e orelhuda, composta por simples mas assombrosos acordes. Prosseguem, num ritmo apressado, com Sobremesa, outra faixa de Gazela, impelindo o público a saltar entusiasticamente. Casa a Arder assumiria-se como um dos pontos altos, com o seu irrepreensível instrumental, numa comunhão entre bateria e baixo, guitarra e órgão. O grupo, que por vezes faz lembrar Vampire Weekend, toca ainda Teresa (single de Gazela), terminando de uma forma apoteótica. O capitão prova que sabe comandar as tropas.

Domingos Coimbra, baixista dos Capitão Fausto | Dumitru Tira - Punch
Domingos Coimbra, baixista dos Capitão Fausto | Dumitru Tira – Punch

Enquanto esperamos pelo concerto dos doismileoito, prosseguimos a exploração do primeiro piso, desta feita observando fotografias. Com várias mini-exposições de fotógrafos nacionais, como Inês Costa, as imagens reflectem vivências do quotidiano urbano, a monstruosa demência da cidade, entristecida pelos excessos de betão que a compõem. Uma temática assertiva, ou não se localizasse a Taberna das Almas na freguesia dos Anjos, coração de Lisboa.

Aparentemente saciado com a actuação dos Capitão Fausto, o público parecia evadir-se aquando do início da actuação dos doismileoito. O conjunto do norte começou com o seu mais recente single, Conta Comigo, seguindo para Noventas, música que o vocalista Pedro Pode ajudou a ritmar com o seu set de tambores. «A nossa preferida» diriam eles antes de iniciarem Pés Frios, faixa homónima do registo mais apresentado. Quinta-feira chegou em tempo útil, entoada pelo público em uníssono. No final os doismileoito puxaram dos galões, terminando com Bilhete de Ida e Bem Melhor – esta do primeiro álbum -, assinalando o ponto alto de um concerto consistente e agradável.

O final da noite ficou a cargo de Cut Slack e Moullinex, que invadiram a pista com uma aliança entre o electro e o funk. Cut Slack, apresentando o seu EP, editado recentemente pela Duro Records, encheu a noite de sintetizadores e magnetismo electro, fazendo vibrar os resistentes. Moullinex assumiu a tarefa de fechar a noite, à qual respondeu positivamente, reproduzindo sonoridades na senda do synth-pop e electro/new wave, e dando aos sobreviventes um momento de pura sintonia espiritual.

A dinâmica e a criatividade da primeira edição do Punchfest adivinham-lhe futuras sequelas, satisfazendo e angariando públicos bastante heterógeneos, já que interliga uma série de actividades culturais e abraça vários tipos de manifestações artísticas. Um conceito para repetir e perdurar.

* Por opção dos autores, escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1945.

Texto por Daniel Veloso e Francisco Morgado Gomes