Wuxia é um género literário e cinematográfico que mistura fantasia e artes marciais. Wu significa “marcial” ou “militar” e xia, significa “honrado” ou “herói”. Com uma origem que se perde no tempo, as histórias Wuxia contam as lendas de guerreiros de artes marciais, que com um grande sentido de honra, muito estudo e supressão dos seus próprios sentimentos em nome de um bem superior, conseguem ultrapassar todas as adversidades. Heróis de Outrora, Heróis de Agora é uma retrospectiva cinematográfica de como o século XXI (2000-2010), foi repescar estas estórias milenares e as actualizou aos dias de hoje, sem desprezar os seus antigos valores.

Quando se fala em wuxia, há nomes nos vêm imediatamente à mente. Incontornáveis são pois, King Hu, os Irmãos Shaw ou, mais recentemente, Zhang Yimou com a sua estética estilizada a fazer lembrar pinturas impressionistas. Deste pequeno lote de realizadores consagrados também faz parte Tsui Hark, ele que mudou indelevelmente o género wuxia e a história da China, confundindo ambos. A sua filmografia de maior sucesso atravessa os anos 70, 80 na qual nos trouxe títulos como Zu Warriors from the Magic Mountain, A Chinese Ghost Story ou Era uma vez na China e, depois de um final dos anos 90 abaixo do nível superior a que nos habituara, regressa em 2010 com Detective Dee and The Mistery of The Phantom Flame.

E é curioso (re)descobrir este realizador, que continua inerentemente igual a si próprio, ao misturar elementos de magia com cenas de acção muito bem coreagrafadas. A isto, não é alheio o nome do director de coreografia: Sammo Hung, uma lenda na China e, mais recentemente, um professor de wushu em Ip Man 2.

Detective Dee and The Mistery of The Phantom Flame ocorre em 689 D. C., numa altura em que Wu Zetian (Carina Lau) se prepara para se tornar a primeira mulher Imperatriz da China. Para comemorar a ocasião Wu Zetian ordena a construção de uma estátua colossal de Buda, comparável a um Cristo Rei para os católicos. Durante a sua construção, um inspector retira inadvertidamente um dos amuletos destinados a trazer boa sorte ao empreendimento e a proteger os trabalhadores e acaba por entrar em combustão espontânea. Não fosse este acontecimento de si estranho, quando surge uma segunda vítima que acaba por morrer aos olhos da futura imperatriz. Com o segundo acontecimento, os trabalhadores ficam com medo e perguntam-se se esta vaga de azares não estará relacionada com a retirada dos amuletos ou se, a própria coroação de uma mulher não será um sacrilégio. Entretanto, Wu Zetian não está disposta a aturar misticismos idiotas e recruta o melhor investigador para o caso. Tão bom na verdade, que esteve na prisão nos últimos 8 anos, a seu próprio mando. Não pode alguém tão influente junto do povo ser deixado em liberdade.


Assim, Dee (Andy Lau) é libertado para investigar o caso das chamas fantasma, sendo vigiado a todo o momento pela servente leal de Zetian, Shangguan Jing’er (Li BingBing) e por um guarda albino Donglai (Chao Deng), com uma atitude tão agressiva quanto o seu aspecto é exótico. Este trio improvável lidera uma investigação que, mal sabem eles, pode colocar em causa a autoridade tal como a conhecem.

Ora se a premissa é interessante à partida, com Dee a demonstrar o intelecto e espírito inquisitivo que se apregoavam, na verdade a película acabou por ter muito pouco de mistério de investigação pois que é bastante fácil adivinhar quem é o culpado. Entra pois um lugar-comum que se abraça com essa noção: o que importa não é o destino mas a viagem. Por entre uma estória de crime no século VII D. C., com direito a técnicas de investigação artesanais, existem cenas de artes marciais de regalar até aquele que não é fã do estilo e o melhor dos efeitos especiais do séc. XX. Resultam pois uma série de anacronismos, tais como armas que não podiam alguma vez ter existido na época e uma série de acrobacias que seriam impossíveis sem os engenhos da modernidade. Não que isso importe na verdade, pois que essas cenas são uma delicia visual.

Se falhas existem em Detective Dee and The Mistery of The Phantom Flame eles encontram-se em um argumento confuso que acaba por resvalar para o melodrama, visto que parece existir uma necessidade imperiosa de moral nos filmes wuxia e personagens que nunca chegam a atingir o nível que lhes era, inicialmente, incutido. Por exemplo, Shangguan Jing’er é a típica mulher que aparenta maior força e agressividade do que aquela que realmente possui. A sua vulnerabilidade, depois de mais de metade de filme, sai desenquadrada das expectativas iniciais sobre Jing’er e nem a revelação de um grande segredo a seu respeito, faz nascer grande simpatia por ela. Por outro lado, Donglai, tão diferente, tão interessante, nunca cresce como deveria. Já Dee, interpretado por Andy Lau, não é constante. O momento em que é mais interessante é quando é atacado numa prisão e ele, cego, luta contra os invasores. A maior força do elenco reside em Zu Wetian, aquela que viria a ser a primeira imperatriz da história chinesa. Simultaneamente boa e cruel, simultaneamente piedosa e implacável, é o personagem com mais emoções em todo o argumento, a despeito da presença de um Tony Leung Ka Fai como o trabalhador maneta Shatuo.

No que Dee perde em mistério investigativo, ganha, curiosamente na resenha histórica. Pois foca um período muito especial da história chinesa, permitindo aflorar um pouco o carácter de Wu Zetian, que num mundo de homens, consegue vencer e traz mesmo a prosperidade ao país. Feminismo escondido? Talvez, mas no séc. VII e numa sociedade patriarcal, onde as mulheres mais não são do que peças decorativas, a sua história é uma que merece ser contada. Pois que o seja num filme wuxia de Tsui Hark, onde a magia anda de mãos dadas com o que de mais antigo a China possui, um tributo de amor às velhas tradições, abraçando a tecnologia do novo milénio.

7/10

Ficha Técnica:
Título Original: Di Renjie
Realizador: Tsui Hark
Argumentista: Kuo -Fu Chen, Lin Qianyu e Jialu Zhang
Elenco: Andy Lau, Carina Lau, Chao Deng, Li Bingbing e Tony Leung Ka Fai.
Género: Acção, Crime, Mistério
Duração: 119 minutos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.