Terraferma de Emanuele Crialese estreou em Portugal no âmbito do 8 ½ Festa do Cinema Italiano na passada quinta-feira, passando a ser exibido também nas salas nacionais a partir dessa mesma data.

Terraferma tem como grande ponto a favor a condição de impotência em que coloca o espectador face à ação que o filme desenvolve. Ao sabermos que nada podemos fazer face ao enredo, resta-nos esperar que as personagens sigam as nossas vontades para que tudo corra pelo melhor. Cria-se uma envolvência e identificação grandes com as personagens deste filme. Ao mesmo tempo que processa este condicionamento, concede a quem o vê a possibilidade de escolher o destino das personagens do filme. Nos últimos minutos, seremos nós a decidir o destino da viagem que é o filme.

O novo filme de Emanuele Crialese traz a história de uma pequena ilha ao largo da Sicília, marcada pela estagnação a vários níveis. A pesca continua a ser a atividade chave para aquela comunidade, contudo cada vez mais o que se ganha não é recompensador. O turismo parece ser agora a única solução para dar novo fôlego à ilha.

Ainda assim, o turismo vê um entrave ao seu desenvolvimento: vagas sucessivas de imigrantes ilegais chegam à ilha. A temática tem sido explorada noutros filmes e Terraferma não dá uma nova roupagem à questão, contudo a forma humana como é tratada leva-nos a refletir sobre a mesma. A imigração ganha rostos e histórias que não nos conseguem deixar indiferente.

A dinâmica do filme está também presente numa forte caracterização da população local, que melhor conhecemos através da família que protagoniza a história. Roçando, por vezes, ainda que ao de leve, o registo de documentário, o filme consegue traçar uma caracterização daquilo que será a realidade em algumas ilhas italianas.

A naturalidade das personagens e o humor daí proveniente ajudam a fixar a atenção do espectador na ação que decorre. Sente-se uma identificação quase instantânea que nos leva às mesmas dúvidas que as personagens face aos imigrantes ilegais com quem se deparam. Todos os pequenos e grandes dramas que vivem são por nós vistos como fulcrais para um desenvolvimento da trama.

Ver este filme é sinónimo de ansiedade face ao destino das figuras que o compõem e uma garantia de auto-questionamento sobre o outro como ser humano, mesmo quando este é categorizado, à partida, como sendo diferente.

7,5/10

Ficha Técnica:

Título original: Terraferma

Realizado por: Emanuele Crialese

Escrito por: Emanuele Crialese, Vittorio Moroni

Elenco: Filippo Pucillo, Donatella Finocchiaro e Beppe Fiorello

Género: Drama

Duração: 88 minutos