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Gira o Disco: Joni Mitchell

Oriunda do Canadá onde nasceu a 7 de Novembro de 1943, Joni Mitchell como ficou conhecida, mas baptizada Roberta Joan Anderson foi uma das cantoras folk mais influentes dos anos 70 e uma das melhores guitarristas de todos os tempos (em 75º lugar), segundo a revista Rolling Stone. Big Yellow Taxi ou A Case Of You são apenas dois dos singles mais (re)conhecidos desta artista que o Gira o Disco dá hoje ênfase.

 “When the dust settles, Joni Mitchell may stand as the most important and influential female recording artist of the late 20th century” – All Music

Desde pequena que Joni (ou Joan) tinha queda para a música. Filha única passou a sua infância em Saskatoon, Canadá, onde a família assentou quando ela tinha 11 anos de idade. Aos oito anos apenas contrai poliomielite (devido a uma epidemia que houve no Canadá): uma doença que causa deformações no corpo e atinge sobretudo crianças. Foi nessa altura infortunada, que passa um ano hospitalizada, que Joan ganha o gosto pela música, apesar da possibilidade de nunca mais voltar a andar, como viria a contar mais tarde:“They said I might not walk again, and that I would not be able to go home for Christmas. I wouldn’t go for it. So I started to sing Christmas carols and I used to sing them real loud….” Antes disso, entre os 6 e 7 anos de idade aprendeu por um curto período de tempo piano, arte que mais tarde desenvolve com melhor precisão. Aprendeu sozinha a tocar guitarra, a partir do livro de Pete Seeger. Mais tarde leva um ukulele para o Alberta College of Art em Calgary e abre as portas da música folk, que se tornaria o seu registo mais habitual. Algo que talvez surpreenda ainda mais é o terrível hábito que tinha de fumar, que manteve sempre, mas por ter começado apenas com 9 anos de idade. Os genes do pai contribuíram e muito para a actividade musical, já que o seu pai era músico, já a mãe, romântica, gostava de lhe recitar poemas de Shakespeare e fundou nela o gosto pelas letras e pela poesia. Debussy, Ravel, Stravinsky, Chopin e Beethoven estavam entre as suas principais e iniciais influências.

Na altura que viva em Toronto e dava os seus primeiros shows de folk, engravida com apenas 21 anos, e tem uma filha, da qual não fala aos seus pais, dado o escândalo que tal notícia poderia causar. Por este facto casa por conveniência em 1965 com Chuck Mitchell (também cantor folk) de quem herda o sobrenome e muda-se com ele para Detroit, onde decide dar a filha Kelly Dale Anderson para a adopção, evento sobre a sua vida que ficou escondido  e, só mais tarde, traz a público. O casamento com Chuck acaba em 1967. Nesta altura a cantora já dava muitos concertos e teve aparições na televisão, que ficaram gravadas, ainda que muitas das primeiras canções tenham permanecido não editadas. Esta Just Like Me, de 1966, é um exemplo:

httpv://www.youtube.com/watch?v=KCLOMBbRVB0

David Crosby e Elliot Roberts (The Byrds) tornam-se amigos de Joni e ajudam-na a conseguir contracto com as gravadoras musicais. O primeiro disco lançado em 1968 ficou conhecido por Song To A Seagull e, apesar de alguns cantores da época começarem a fazer versões das suas canções,  não teve ainda um sucesso estrondoso. O mesmo não se pode dizer dos próximos registos da cantora que, a meu ver, são os que mais se destacam da primeira parte da sua carreira: Clouds, em 1969, em 1970 Ladies of the Canyon e, em 1971, o grandioso e melancólico Blue, considerado por muitos o melhor registo de Joni Mitchell, incluindo a revista Rolling Stone que o considerou o 30º melhor álbum de todos os tempos, numa lista de 500 discos.

Joni com David Crosby

O festival Woodstock em 1969 queria a presença da cantora, tendo-a convidado, porém, alegando questões pessoais, negou a presença no evento. Curiosamente Joni compôs canção Woodstock, que deu mote ao festival.

httpv://www.youtube.com/watch?v=3aOGnVKWbwc

Do álbum Ladies Of The Canyon (1970) há que evidenciar o carácter socialmente interventivo de Big Yellow Taxi, de grande sucesso na altura e que muitos cantores deram uma nova versão, posteriormente, mostrando a importância de se cuidar devidamente do meio ambiente.  Joni falou desta mesma canção em 1986,  numa entrevista ao Los Angeles Times: “ I wrote ‘Big Yellow Taxi’ on my first trip to Hawaii. I took a taxi to the hotel and when I woke up the next morning, I threw back the curtains and saw these beautiful green mountains in the distance. Then, I looked down and there was a parking lot as far as the eye could see, and it broke my heart… this blight on paradise. That’s when I sat down and wrote the song”  Este seu disco foi o mais vendido de sempre, sendo que chegou a disco de ouro.

Em 1969 recebe o seu primeiro Grammy pelo álbum Clouds, considerado Melhor Performance Folk, depois desse recebeu mais sete prémios Grammy, até 2007, ano em que  é premiada como Melhor Performance Instrumental Pop pelo álbum One Week Last Summer. De destacar o prémio recebido em 2002 que a considerou “das mais importantes cantoras da era rock” e ainda “uma poderosa influência sobre todos os artistas que abraçam a imaginação, a diversidade ea integridade.” Em 1970 participou numa espécie de 2º Woodstock, o festival de Inglaterra Isle of Wight, onde cantou algumas das suas mais conhecidas canções para milhares e milhares de pessoas:

http://www.youtube.com/watch?v=wKRThOEPl7Y

Também um grande sucesso deste álbum é o tema Both Sides, Now, escrito por Joni mas lançado no álbum Wildflowers de 1968, por Judy Collins, uma cantora folk da altura. No entanto, no ano seguinte, saiu no álbum da sua compositora. Para além da versão inicial mais tarde, no ano de 2000, ao lançar o álbum homónimo da música, a cantora faz uma nova versão mais calma da canção. The Fiddle and the Drum, Chelsea Morning são outras das canções que constam deste Clouds.

httpv://www.youtube.com/watch?v=bcrEqIpi6sg

(1ªversão)

httpv://www.youtube.com/watch?v=tKQSlH-LLTQ

(2ª versão)

Os anos 70 corresponderam ao sucesso estrondoso de Joni Mitchell, que logo se sentiu pressionada com tantos afazeres derivados da fama, e decide afastar-se um pouco desse sufoco, tendo cancelado alguns dos seus concertos por alegar estar a sentir-se presa “como se estivesse numa gaiola” algo que ia contra o espírito livre da cantora. Nesta época muda-se para Colombia onde dizia ter maior paz e privacidade. Jaco Pastorius, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Pat Metheny e Charles Mingus tornaram-se nesta época seus amigos e, sobretudo, trabalharam com ela nos seus discos.

Joni com Charles Mingus

Em 1971 sai o álbum mais sombrio e, ao mesmo tempo, emotivamente belo de JoniBlue – onde consta a belíssima A Case Of You (recentemente re-criada por James Blake), que fala sobretudo de um amor dissolvido no tempo, mas não sem transmitir a dor sempre associada à perda. Neste caso tratava-se da separação de Graham Nash (mas também de uma desilusão amorosa com James Taylor, que participa no álbum), que a inspira para compor este disco mais fundido no jazz de Miles Davis e, notoriamente mais triste, como ela mesma conta à Rolling Stone em 1979: “The Blue album, there’s hardly a dishonest note in the vocals. At that period of my life, I had no personal defenses. I felt like a cellophane wrapper on a pack of cigarettes. I felt like I had absolutely no secrets from the world and I couldn’t pretend in my life to be strong. Or to be happy. But the advantage of it in the music was that there were no defenses there either”, apresentando no entanto registos mais alegres como as faixas Carey ou California.

httpv://www.youtube.com/watch?v=IAsXMlkwXgs

Graham e Joni

“I’m a painter first, and a musician second…”Joni Mitchell, 1998

De notar também que esta canção faz referências claras não só à separação do namorado de Joni, mas também ao seu gosto pela pintura: “Oh I am a lonely painter/ I live in a box of paints/ I’m frightened by the devil/ And I’m drawn to those ones that ain’t afraid”. Sem dúvida uma das grandes paixões e talentos da cantora e compositora, sendo que muitas das suas capas de discos foram pintadas por ela. A maior exposição dos seus trabalhos de pintura e fotografia foram expostos no ano de 2000 na Mendel Art Gallery in Saskatoon com o nome Voices — The Work of Joni Mitchell.

Pintura e álbum "Both Sides Now", de 2000

Em 72 lança o primeiro álbum com orquestra a acompanhar: For The Roses, You Turn Me On, I’m A Radio era o single mais conhecido. Court and Spark sai em 74 e Help Me alcança a 7ª posição nos charts dos Estados Unidos e esteve quatro semanas em 2º lugar na Billboard. Miles Of Aisles sai no mesmo ano e recebe inúmeros “aplausos” pela sua sofisticação por parte da crítica, apesar de alguns críticos acharem as suas letras “demasiado ambiciosas” Em 1975 The Hissing of Summer Lawns é considerado geralmente muito bom, ainda que nem todos os críticos estejam de acordo. Ainda assim, foi nomeado para o Grammy de Melhor Performance vocal feminina pop (entre outras 3 nomeações nesse ano). Sabe-se hoje que os temas Edith and the Kingpin e Shades of Scarlet Conquering influenciaram  grandes vozes como Elvis Costello e Cassandra Wilson. Nesta altura fez tour com nomes como The Rolling Stones e os 15 discos que lançou até 2007 (o último foi Shine) alcançaram sempre sucesso.

httpv://www.youtube.com/watch?v=jcAX33CQhjs

Durante os anos 80 lançou alguns discos com um carácter sobretudo pop e electrónico. Do qual fizeram parte Wild Things Run Fast de 1982, do qual fazia parte a canção (You’re So Square) Baby I Don’t Care imortalizada por Elvis Presley, mas da autoria dos Righteous Brothers. Em 1988 lança o álbum Chalk Mark in a Rain Storm. E colaborou com artistas tais como  Willie Nelson, Billy Idol, Wendy & Lisa, Tom Petty, Don Henley, Peter Gabriel e Benjamin Orr dos The Cars. Já em 1994 vence o Grammy pelo album Turbulent Indigo, altura em que vê o casamento com o seu baixista Larry Klein de quase 12 anos a terminar.

httpv://www.youtube.com/watch?v=tGfWuPEyf4s

Joni com Larry Klein

Em 1995 foi a quarta artista a vencer o Century Award da Billboard, depois de George Harrison, Billy Joel e Buddy Guy). Em 1997 tem a alegria de se voltar a encontrar com a filha que deu para a adopção, agora chamada Kilauren Gibb, que lhe deu a conhecer também o seu neto. Subtilmente Joni falou da filha que perdeu em algumas das suas canções, nomeadamente Blue, Little Green,  Wild Things ou Chinese Café.

httpv://www.youtube.com/watch?v=R3wVkbgouJM&feature=related

Joni com a filha e o neto

De destacar o álbum de 2005 Songs of a Prairie Girl, que é visto como uma espécie de “retorno às origens” já que o registo é maioritariamente folk e o tema principal das canções são sobre a sua terra (não onde nasceu mas onde viveu a partir dos 11 anos –  Saskatoon, Saskatchewan). Deste disco faziam parte as músicas River, The Urge For Going, Ray’s Dad’s Cadillac, Let The Wind Cary Me, Song For Sharon e Don Juan’s Reckless Daughter, só para citar alguns exemplos.

httpv://www.youtube.com/watch?v=mMhNTFzmRw0

Joni encontra-se, actualmente, a ser tratada da doença de pele conhecida por síndrome de Morgellons, que é vista como uma “ilusão de parasitas” no corpo cujos sintomas são comichão, mas o diagnostico dado sobretudo a nível psicológico. Sobre a sua doença deu declarações em 2010 ao Los Angeles Times, dizendo que se tratava de “um assassino lento e imprevisível”, mas mostrou-se motivada a combater a doença, principalmente por ter sobrevivido à poliomielite enquanto criança: “I have a tremendous will to live: I’ve been through another pandemic – I’m a polio survivor, so I know how conservative the medical body can be.”.

Tal como Leonard Cohen e Gordon Lightfoot foi apontada, em 2002, para ter uma estrela na calçada da Fama do Canadá, só obtida efectivamente em 2007.

Leonard Cohen e Joni Mitchell

Tori Amos, Jeff Buckley, Morissey, Courtney Love, Prince, Alanis Morissette, Björk, Counting Crows, Elvis Costello, Dan Fogelberg, Janet Jackson, Cyndi Lauper, Annie Lennox, Sarah McLachlan, Madonna, Kurt Cobain, Frank Turner, Cassandra Wilson, Cat Power, George Michael, The Roots, Roxette, The Sundays, Fiona Apple, Holly Brook, KT Tunstall, Seal, Keith Green, Spank Rock, Schuyler Fisk, Kate Voegele, Regina Spektor, Slash, Stephin Merritt, Laura Marling, Keri Noble, Joanna Newsom e James Blake, são só alguns dos nomes influenciados por Joni Mitchell, que gravam covers ou seguem de alguma forma o estilo da cantora.

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945


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