A peça da autoria de Rodrigo García, Agamémnon, em cena até dia 28 de Abril no Teatro da Politécnica, retrata um pai que relata episódios da sua vida quotidiana, da sua entrega à doença do consumismo crónico que é inerente a uma sociedade capitalista.

É nas compras de supermercado que um homem tenta solucionar a frustração que vive: enche três carrinhos de compras com infinitos produtos de que não necessita. Bananas quando detesta bananas, cereais com chocolate quando prefere os cereais normais, ambientadores com cheiro enjoativo a limão… Chegado a casa, o protagonista observa o que comprou e repara que se esqueceu das únicas quatro coisas que eram realmente precisas em casa. E é aí que descarrega a sua ira no filho. “Vim do supermercado e dei porrada ao meu filho” é o subtítulo da peça.

Neste atafulhar de compras o pai julga estar a comportar-se como deve. Mas aqui surge a sua reflexão de que nas sociedades democráticas não é considerado sensato gritar para contestar o “sistema”, não é bem visto protestar recorrendo à acção. É pela moderação que as pessoas vão encaminhando a vida com o conformismo de que a existência de pobres e ricos é resultado inevitável da ordem das coisas.

Rodrigo García não escreve este texto com rodeios. Numa linguagem crua põe em causa os pilares em que assenta a sociedade industrializada. Ataca as manhas dos métodos de sedução das lojas e supermercados para enganar o consumidor: “(…) Como os preços se deformam para parecerem mais baratos, como as luzes brilhantes nos enjoam os olhos e atrasam os sentidos, como a musiquinha-de-elevador irritante, sempre alta ou baixa demais, nos empurra no labirinto de prateleiras(…)” (Daniel Gamito Marques, na análise ao espectáculo redigida no site dos Artistas Unidos). O autor procura assim, brutalmente, fazer ver ao espectador que é vítima das suas próprias acções. Acções essas que o condenam a uma vida de animal passivo, aquele que apenas compra e não constrói, não cria. Estamos perante um texto perturbador que é capaz de roubar o fôlego com tanta indignação berrada.

O espaço cénico, a cargo do encenador John Romão, é composto por uma fusão de comida rápida, ketchup, frango “esfrangalhado” e cerveja. Gonçalo Waddington, actor que dá corpo e voz ao pai de família, é engolido por este caos cénico, podendo ser posta em causa a sua sanidade. A promiscuidade do mundo terá tornado este homem num louco raivoso?

Agamémnon é, por isso, cada um de nós. Somos produto de um mundo industrializado. Somos tragédia. Mas é também a partir da tragédia que se constrói a esperança.

*Por escolha da autora,  o artigo foi redigido segundo o Acordo Ortográfico de 1945.*