Perto do Cais do Sodré houve, no passado dia 14, uma noite de celebração metaleira com o Rockline Tribe Fest, apresentando um cartaz, pendendo entre as bandas mais recentes e as mais veteranas da cena portuguesa, com variedade para apelar a todos os gostos. Outrora um espaço de promiscuidade pré-adolescente (vulgo ABS), este Room 5 demonstra ter potencial para ser uma sala de espetáculos a requisitar para eventos deste género, tanto pela acústica como pela localização.

Os We Are The Damned deram o início às festividades com o seu Death n’Roll impulsionado pelo d-beat furioso. Vindos de uma tour europeia, assinaram uma actuação muito intensa, como de costume, mas não arrancaram muito entusiasmo da plateia. Apesar da energia electrizante de malhas como Christian Orgy, Atrocity Idol ou Vengeance Havoc, a adesão foi algo morna, possivelmente pela fraca qualidade de som, que no entanto foi melhorando até ao fim do concerto, ou por alguma falta de variedade no reportório apresentado. Apesar de tudo isto, o vocalista Ricardo Correia nunca baixou os braços e mostrou-se comunicativo com o público. Destaque ainda para a versão de Reaper, dos Bathory, desta banda empenhada em revitalizar o som extremo old-school em Portugal.

De seguida vieram os The Temple. Saídos de um hiato de 4 anos, o quinteto demonstrou ter ganas de voltar aos palcos, com uma actuação energética e tecnicamente exemplar, merecendo uma menção honrosa a versatilidade do baterista Rui Alexandre. A desfrutar de um som bem melhor, o conjunto disparou músicas como Baby Hate, 22 Belzebu e War Dance (esta prejudicada por uma falha técnica na bateria), com uma sonoridade a pender entre as tendências mais Nu-metal com algum Punk e Heavy Metal à mistura, resultando numa amálgama saudável. Com o vocalista João Luís visivelmente regozijado em voltar aos palcos e o público a corresponder reciprocamente, a banda terminou com uma versão de Budapeste (dos Mão Morta), Violent World e Millionaire, seguindo à risca o seu motto “Rock Now, Society Later”.

Em recta final da tour pelos 4 cantos do país, os Men Eater deram um espetáculo agridoce. Isto porque deram um excelente concerto, envolvente e e com o peso que se quer, mas que fez questionar os presentes como é que uma banda deste calibre pode anunciar uma paragem por tempo indefinido, apesar do vocalista/guitarrista Mike Ghost afirmar “Não vamos acabar, só vamos de férias”. Sendo este o último concerto em Lisboa, os Men Eater não deixaram os créditos por mãos alheias e arrancaram com First Season e de seguida Heartbeating Locomotiva.

Por entre as melodias vocais de Sustain the Living e Broken in Fiction e os crescendos trepidantes de Revolver e Black, os Men Eater revelam ser donos de um som próprio, fugindo os rótulos do Sludge/Stoner/Doom/Pósqualquercoisa. O concerto terminaria em apoteose, claro está, com Lisboa e The Golden. Esperemos que este conjunto mude rapidamente de ideias, pois facilmente teria dado o concerto da noite, não tivessem vindo os Bizarra Locomotiva a seguir.

Os Bizarra Locomotiva, mais uma vez, provaram que não sabem dar maus concertos. Sejam as letras em português, a insanidade saudável do vocalista Rui Sidónio, a ambiência proporcionada por Alpha e as suas teclas, o peso maquinal e seco dos riffs de Miguel Fonseca, o trabalho de bateria devastador de Rui Berton ou o próprio espetáculo cénico de degradação e loucura, a performance dos Bizarra Locomotiva não deixa ninguém indiferente. Ou se gosta ou não, e quem gosta fez questão de o demonstrar, com a constante festa em frente ao palco.

Abrindo com o meio-tempo demolidor de Engodo, a Locomotiva premiou a audiência com um set pendendo entre as músicas do Álbum Negro, das quais se destaca a cadência apocalíptica de Procissão dos Édipos ou a descarga furiosa de Egodescentralizado, e algumas músicas mais clássicas, como Cada Homem, O Frio, Cavalo Alado e Gato de Asfalto. Para finalizar em beleza, nada melhor do que o retorno ao longínquo primeiro álbum para tocar a emblemática Apêndices e em seguida, O Escaravelho.

Após a devastação, os resistentes que ficaram pelo Room 5 puderam curtir ao som dos sets dos DJ’s Izzy e Carlão e de António Freitas, passando músicas que foram desde o Thrash Metal à Electrónica.

Fotografias da autoria de Olhos(«Ä»)Zumbir