Wuxia é um género literário e cinematográfico que mistura fantasia e artes marciais. Wu significa “marcial” ou “militar” e xia, significa “honrado” ou “herói”. Com uma origem que se perde no tempo, as histórias Wuxia contam as lendas de guerreiros de artes marciais, que com um grande sentido de honra, muito estudo e supressão dos seus próprios sentimentos em nome de um bem superior, conseguem ultrapassar todas as adversidades. Heróis de Outrora, Heróis de Agora é uma retrospectiva cinematográfica de como o século XXI (2000-2010), foi repescar estas estórias milenares e as actualizou aos dias de hoje, sem desprezar os seus antigos valores.

Algures em 700 D.C., o Tenente Li (Wen Jiang) cometeu a injúria de desobedecer a ordens do imperador. O seu crime? Recusar-se a matar mulheres e crianças turcas. Ele e alguns homens leais fizeram finca-pé e partiram para novas paragens, um sítio onde os emissários do imperador os não pudessem encontrar e matar. Partiram pois para oeste, um local onde, se os bandidos os não apanhassem, a sede e o calor do deserto de Gobi fariam o resto. Passaram alguns anos, e uma caravana que transporta escrituras budistas sagradas é apanhada numa tempestade de areia. Li também é apanhado no meio da tempestade do deserto, mas é salvo por um guarda imperial, um dos únicos dois sobreviventes da caravana. Em dívida, Li decide ajudá-lo a transportar a carga preciosa até à cidade imperial.

Nisto, surge Lai Qi (Kiichi Nakai), um emissário japonês na China que é enviado pelo imperador de Tang, numa última missão: descobrir o soldado renegado e executá-lo. Ele terá de fazer isto, enquanto mantém a seu cuidado Wen Zhu (Zhao Wei), a filha de um general recentemente morto em batalha. Por obra do acaso, descobre Li mas decide relegar o confronto para mais tarde e garantir que a caravana chega à cidade imperial, com a carga intacta.

Para executar a sua missão, Li recruta os antigos companheiros de armas que são agora homens casados e com filhos, um velho, com o nome atractivo de “Morre Difícil” e um pré-adolescente. Entretanto, são atacados pelo Mestre An (Wang Xueqi) e o seu bando que não desistem da luta por uma carga de aparente pouco valor. Que podem veteranos, um velho e uma criança contra bandidos fortemente armados? Mais, será que transportam algo mais do que textos para tamanha insistência dos bandidos?

A premissa é intrigante. Que objecto ou riquezas tais podem motivar tal ataque? Que pode um conjunto de velhos e destreinados fazer contra homens que fazem da vida o banditismo? Mais, teremos direito a um duelo final entre um homem movido pelo dever, no caso, um emissário japonês na China, contra um homem nascido e criado na China que se recusa a cumprir o dever acima de todas as coisas, se este significar a morte de inocentes? Além da caracterização e guarda-roupa das personagens que nos transportam para um faroeste chinês, também as paisagens ofegantes e a banda-sonora ajudam a recriar uma odisseia homérica. Tempestades de areia, penhascos que escondem inimigos, grutas escuras, desertos de calor excruciante e fortalezas, tudo isto são obstáculos de dimensão considerável. No entanto, a palavra “épico” dificilmente descreve Guerreiros do Céu e da Terra. Algures o argumento decidiu criar paralelismos com obras anteriores e, infelizmente para este esforço, superiores. Zhao Fei e A.R. Rahman são irrepreensíveis nos respectivos papéis de cinematógrafo e compositor. Já He Ping, ao invés de decidir dar um passo em frente, recua e perde-se num misticismo de características sobrenaturais que retira a credibilidade ao filme além das referências por demais óbvias a Sete Samurais, de Akira Kurosawa, e Musa, de Kim Seong-soo.

Enquanto em Sete Samurais, estes lutavam por um ideal tão nobre quanto a simples defesa de uma aldeia, cujos méritos eram, apesar de tudo, mais que discutíveis, em Guerreiros do Céu e da Terra, nada é tão simples. O fulcro da questão, e que só é apresentado volvida uma hora de filme, encontra-se na relíquia escondida na caravana. Algo de divino que merece o respeito e sacrifício de todos. Até o mestre An, um assassino cruel de tranças e olhos cinzentos, demonstra medo perante tal relíquia. Bandidos, endurecidos pela vida, a quem a morte acena com frequência, com medo de um simples objecto. Não só a ideia de divindade surge como uma explicação simplória como até vazia. Homens de família, homens que apenas desejam viver em paz, nada valem em favor de uma relíquia. O argumento de He Ping sugere que a vida destes homens não é tão importante. Tudo em favor de um bem maior. Depois claro há efeitos criados por computador que caem mal num filme com um aspecto tão antigo, tão datado – um western, no qual se opõem chineses e bandidos turcos. E também depois de convencer os espectadores que Guerreiros do Céu e da Terra era uma obra de entretenimento puramente inofensiva. Talvez, mas em 90 minutos estaria resolvida. Não há necessidade de arrastar um filme se, nem no final, conhecemos bem os heróis, que a pouca ou nenhuma caracterização tiveram direito. Note-se que até ao momento não se mencionou Zhao Wei, uma beleza com toda a certeza, mas reduzida a uma única expressão, no papel de uma jovem, Wen Zhu, que apenas pestaneja e faz olhinhos a um Wen Jiang, muito mais velho. Com meia dúzia de palavras ela rende-se a uma paixão que não podia ser mais inverosímil que a apresentada. Zhao Wei é então a metáfora perfeita para o filme muito bonito por fora mas com pouca substância por dentro. Tal não tem mal nenhum, se soubermos ao que vamos e não esperarmos retirar do filme uma moral profunda.

6/10


Ficha Técnica:
Título Original: Tian di ying xiong
Realizador: He Ping
Argumentista: He Ping e Rui Zhang
Elenco: Wen Jiang, Kiichi Nakai, Wang Xueqi, Zhao Wei, Bagen Hasi, Tao Ho, Linian Lu, Deshun Wang, Haibin Li, Yun Zhou e Wei Li
Género: Acção, Drama, Aventura
Duração: 120 minutos

*Por opção da autora, este artigo foi escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945.