Poucas bandas conseguiram ser teimosamente tradicionais e ao mesmo tempo inovadoras. O Gira o Disco traz a conhecer uma dessas raras bandas, os Creedence Clearwater Revival. Inspirados pelas sonoridades de Little Richard, Hank Williams e de vários artistas folk e da Motown, os CCR conquistariam o mundo de forma estratosférica com o seu Rock enraizado na tradição americana. Vejamos então a história de uma banda com uma vida efémera mas essencial para a história do Rock.

Inícios Modestos

Tudo começa quando John Fogerty e Doug Clifford se conhecem na Portola Junior High School, na suburbana El Cerrito na Califórnia. O amor que partilham pelo blues, o rock and roll e o r&b leva-os a tocar juntos, com John na guitarra e Doug na bateria. Mais tarde, Stu Cook, colega de turma de Doug, junta-se ao duo para tocar piano. Em 1959 já tinham formado uma banda de covers, os Blue Velvets, e foram ganhando rodagem a tocar em festas e em feiras. Apesar de mais tarde ter despontado enquanto vocalista, John ainda não cantava nesta fase inicial, sendo a banda apenas instrumental.

Nos próximos dois anos, os Blue Velvet seriam requisitados como bandas de apoio para tocar e gravar com alguns artistas da zona da Bay Area. Paralelamente, o irmão de John, Tom Fogerty, andava também a ganhar experiência como artista e cantor, tocando e cantando com várias bandas. Quatro anos mais velho que os restantes membros dos Blue Velvet (os três nascidos em 1945), Tom convence a banda a aceitá-lo como membro efectivo devido à sua experiência e idade.

A banda, agora Tommy Fogerty and the Blue Velvets, continuou a trabalhar arduamente, tocando sempre que podia em eventos no norte da Califórnia. Em simultâneo, os irmãos Fogerty iam compondo alguns temas e a banda ia gravando e lançando algumas demos através da Orchestra, uma pequena companhia que gostou do trabalho da banda.

Em 1964, visando objectivos mais ambiciosos, a banda decide trazer algumas demos à Fantasy Records, uma editora em claro crescimento. Max Weiss, um dos co-fundadores da Fantasy, ficou impressionado com o potencial e a energia dos Blue Velvet e decidiu contractá-los com uma condição, a mudança do nome para The Golliwogs. Este nome, de influência inglesa, foi escolhido com o intuito de capitalizar com o fenómeno do Rock britânico e com a Beatlemania, e seria o nome com o qual a banda ficaria durante os próximos 3 anos.

httpv://youtu.be/XRhBeUpNmCc

Esta fase seria muito importante para a maturação da banda. Neste período, John começou a ganhar confiança como cantor e a escrever mais músicas, desenvolvendo a sua capacidade de composição, Tom começou a tornar-se mais proficiente como guitarrista ritmo e Stu começou a transitar do piano para a guitarra baixo.

Visto que já todos os membros da banda tinham acabado os estudos e estavam já a trabalhar para se sustentarem, tal mudança apenas os fez encarar a banda com mais seriedade, continuando a sempre que possível e a compor diferentes singles. Grande parte destes singles não teve grande sucesso, à excepção de Brown-Eyed Girl, lançada em 1965, tendo vendido 10000 cópias.

httpv://youtu.be/mD-sFh-8_XA

“Creedence Clearwater Revival” – A ligeira mudança que tudo mudou

O ano da grande mudança seria 1967, pois os donos da Fantasy decidem vender a editora a Saul Zaentz. Este admite gostar do trabalho dos The Golliwogs mas revela à banda que é necessário proceder a algumas alterações, como o nome. Dá-se então a mudança de nome para Creedence Clearwater Revival, e tal nome caricato vem de um conhecido da banda (Creedence), de um anúncio de cerveja (Clearwater) e da própria noção da banda de que renasceriam reforçados depois da mudança (Revival). Outras grandes alterações seriam a troca de protagonismo vocal entre John e Tom, passando John a assumir as vocalizações principais e Tom as vocalizações de apoio e a efectivação de Stu como baixista da banda.

O renascimento levou também John a assumir-se como o principal compositor, lirista e produtor da banda, o que levaria mais à frente a tensões irreconciliáveis. O primeiro “cheirinho” a sucesso veio com o lançamento do single Porterville, uma música de inconformação e raiva típicas da classe trabalhadora. Essa música viria a figurar no primeiro álbum da banda, Creedence Clearwater Revival.

httpv://youtu.be/GywXQvHuWYA

Lançado em 1968, este álbum trouxe algum sucesso à banda, fazendo-a chegar ao número 52 na tabela de vendas, apesar de ser um álbum em que John ainda estava a aperfeiçoar a sua capacidade de composição. Isso é notório ao atentar-se que dois dos singles lançados foram versões: I Put a Spell on You de Screamin’ Jay Hawkins e Suzie Q de Dale Hawkins. Outra observação a fazer sobre este álbum é o seu desfasamento com as correntes musicais mais psicadélicas da época (apesar de algum psicadelismo em algumas das músicas), juntando a inspiração em sonoridades como a Folk, o R&B, o Country e o Rockabilly com o fascínio de John pela tradição americana. Os CCR, com esta profusão de influências, seriam retrogradamente vanguardistas na criação de um género, o Roots Rock.

httpv://youtu.be/1mxaA-bJ35s

O ano seguinte seria ainda mais importante para a banda. 1969 marcou o lançamento de 3 álbuns da banda, provando que John Fogerty se tinha tornado numa máquina de escrever músicas (apesar da contínua gravação de versões). O primeiro do ano, Bayou Country, foi um álbum que chegou à 7ª posição e os catapultou para o estrelato. As causas para tal sucesso foram, para além de uma mais apurada capacidade composicional, os singles Proud Mary e Born in the Bayou. O primeiro foi, e ainda é, um êxito ímpar, tendo sido tocado por dezenas de artistas desde a sua criação, entre os quais, Ike e Tina Turner. O álbum vê também a banda embrenhar-se cada vez mais no imagético da Americana, de tal forma fidedigna que a banda parece saída de um pantanal nos Everglades, quando de facto, era saída do meio citadino de São Francisco.

httpv://youtu.be/F60oph0iJ9Y

Por alturas de Agosto, a banda lança o seu terceiro álbum, Green River, continuando e aperfeiçoando a direcção seguida no álbum anterior, desta vez com músicas mais curtas e focadas. Os singles deste álbum, Green River e Bad Moon Rising, ambos chegaram à 2ª posição nas tabelas. Toda uma aura ameaçadora e de instabilidade permeia liricamente o álbum com músicas como Commotion e Tombstone Shadow, apesar da instrumentação reconfortante. A sua postura política e contra cultura valeu aos CCR um lugar de destaque no festival de Woodstock, mas a sua prestação não aparece no documentário original pois John não a achou boa o suficiente (apareceria depois na edição de comemoração de 40 anos).

httpv://youtu.be/P4-yugdZUt0

httpv://youtu.be/hNJseiSdZWo

O terceiro, e último, álbum lançado em 1969 foi Willy and the Poor Boys. Lançado em Novembro, este foi um álbum algo diferente do anterior, por ter uma temática mais ligeira e descontraída. As excepções são a fantasmagórica Efiigy e a inconformada Fortunate Son, sendo esta última uma das músicas que mais cirurgicamente atacou a intervenção americana no Vietname. Apesar de não fazer referências directas ao conflito, este single, que chegou à 2ª posição das tabelas, conseguiu fazer ressoar as preocupações e as injustiças sentidas pela classe operária da altura, valendo-lhe um lugar de destaque na história do rock. O outro single foi a divertida Down on the Corner, também ela uma música de sucesso.

httpv://youtu.be/f33qUqdZapw

A banda entrou em 1970 com um par de singles que demonstrou bem a versatilidade de John enquanto compositor. Travellin’ Band era uma música rápida e energética, que mostrava a vida caótica duma banda em tour. Who’ll Stop the Rain, por outro lado, era melancólica e revelava um profundo cinismo e desencantamento pela forma como o mundo é gerido. Ambas seriam lançadas no álbum Cosmo’s Factory, mas antes disso a banda procedeu a uma tour europeia, onde seriam escritos outros dois singles: Up Around the Bend e Run Through the Jungle, também a figurar no álbum seguinte.

Cosmo’s Factory seria lançado em Julho de 1970, sendo considerado por muitos como o melhor álbum dos CCR. Entre os muito bem recebidos singles anteriormente lançados pela banda, o álbum tinha também várias versões, sendo a mais conhecida I Heard It Through the Grapevine, um clássico da Motown escrito por Norman Whitfield e Barrett Strong, e gravada por grandes cantores como Marvin Gaye e Gladys Knight. Em suma, este álbum é o mais equilibrado e variado que a banda lançou.

httpv://youtu.be/RqZhM75aGMg

Fim da banda e uma separação irreconciliável

Apesar do sucesso que a banda obteve, com 4 álbuns platina e vários singles muito bem recebidos (curiosamente nunca nenhum chegou ao topo da tabela), os CCR começavam a sentir alguma instabilidade no seio do grupo. John Fogerty era indiscutivelmente a motriz criativa da banda e a democracia não era o seu mote. Sendo assim, com o desgaste causado pelas tours e a tensão crescente, Tom Fogerty haveria de sair da banda um mês após o lançamento de Pendulum, revelando que estava farto de não poder contribuir no processo de composição.

Lançado em Dezembro de 1970, Pendulum caracteriza-se pela tentativa de John em desenvolver ainda mais o som dos CCR, com uma produção mais brilhante e com músicas com arranjos mais complexos. Apesar de não demonstrar o brilhantismo dos álbuns anteriores, Pendulum resultou também em platina, com um dos singles mais conhecidos da história dos CCR, Have You Ever Seen the Rain?.

httpv://youtu.be/TS9_ipu9GKw

Ainda que reduzidos a um trio, os Creedence Clearwater Revival não baixaram os braços e prosseguiram em digressão mundial para promover Pendulum. Após o abanão que foi a saída de Tom, John repensou a estratégia da banda, e, após os pedidos de Stu e Doug, democratiza o processo de composição daquele que seria o último álbum dos CCR, Mardi Gras. O resultado foi perto de desastroso, pois cada músico compôs as suas músicas individualmente em vez de todos trabalharem em conjunto.

Mardi Gras foi duramente criticado pela imprensa musical, acusado de falta de consistência e personalidade, sendo os únicos destaques, à excepção de Door to Door de Stu Cook, as músicas de Fogerty, o que não é de surpreender visto que ele era, dos três, o compositor mais experiente. Apesar da banda ainda voltar à carga e ir de novo em digressão, o grupo não sobreviveu às dissensões e ao falhanço do álbum, separando-se oficialmente a 16 de Outubro de 1972.

Após o fim da banda, ainda foram lançados vários álbuns pela mão da Fantasy Records; dois álbuns ao vivo: Live in Europe em 1973 (captado durante a tour de promoção a Mardi Gras, já com o conjunto reduzido a um trio) e The Concert em 1980 (consistindo numa gravação de um concerto em 1970 no Oakland Coliseum, na Califórnia) e uma série de compilações, das quais evidencia a colecção de singles Chronicle, Vol. 1 e Pre-Creedence, uma colectânea de gravações da banda ainda enquanto The Golliwogs.

Os membros acabaram por seguir com os seus próprios projectos. Sem grandes surpresas, quem melhor se safou foi John Fogerty, levando uma carreira a solo de sucesso, com álbuns como John Fogerty (1975), Centerfield (1985) e Revival (2007). Durante muito tempo, John recusou-se a tocar as músicas dos CCR para não perder os direitos autorais mantidos pela Fantasy Records, tocando finalmente alguns originais apenas em 1987. Tom Fogerty também se dedicou a alguns projectos, tendo chegado a colaborar com Jerry Garcia, dos The Greatful Dead e a formar uma banda chamada Ruby.

A banda nunca mais voltou a tocar junta, sendo apenas as excepções o casamento de Tom Fogerty em 1980 e o reencontro de alunos de El Cerrito em 1983. Nem a morte de Tom, em 1990, devido a complicações de saúde provocadas pela Sida levaram a uma reconciliação e até mesmo quando os CCR foram indiciados para o Rock and Roll Hall of Fame em 1993, John se recusou a tocar com os ex-colegas.

Em 1995, Stu Cook e Doug Clifford continuariam a tentar levar a banda avante (sem John) com o nome Creedance Clearwater Revisited, mesmo após uma tentativa de processo por parte de John. Tendo ganho o processo, o resultado é que (infelizmente) temos hoje em dia duas bandas separadas, a tocar originais da banda que marcou para sempre a vida dos seus músicos.

Nota final

Apesar terem tido um fim marcado pela instabilidade e pela amargura e animosidade demonstrada entre os seus ex-membros, os Creedence Clearwater Revival não deixam de ter o seu nome marcado na Pedra de Roseta do Rock. Embora não tenha vivido sequer no Bayou Country, John Fogerty conseguiu imprimir à sua música um carácter genuíno do que é a América profunda, seja pela forma como inovou na criação do Roots Rock através de outros géneros mais antigos ou pela influência das imagens que evocou da família, das dificuldades económicas, do que é viver no pântano, enfim, do que é ser americano.